Verão na névoa, de Michel Laub

Nos rituais do meio literário, um livro sobre cocaína revela uma forma de pensar a ficção, suas vaidades, impasses e afetos mais humanos em conflito
Michel Laub, autor de “Verão na névoa”
26/06/2026

Ela vê no Instagram o anúncio do novo livro de um escritor de meia-idade, por quem sua melhor amiga tem um amor platônico. Clica no link de pré-venda daquele gigante do varejo eletrônico que levou as livrarias à falência. Lê a sinopse: é um ensaio de memórias, explorando a relação do escritor com as drogas, “em especial a cocaína”. Ela sorri, aliviada por ele falar de cocaína, em vez dos temas relevantes que fazem da leitura um dever de casa.

Fugindo da gigante do varejo eletrônico, ela decide ir ao lançamento numa livraria, dali a algumas semanas. Será mais amigável, ela pensa. Não costuma ir a muitos lançamentos. Embora tenha já publicado cinco romances — digamos assim —, ela não tem uma turma literária. Não estudou Letras, não é jornalista, não trabalhou em editoras. Não gosta de bares e sai pouco à noite. Essa pouca sociabilidade literária, ela se pergunta, pode ter prejudicado a recepção de seus livros? A suspeita (comum entre os ressentidos) é uma das conclusões possíveis; há outras que ela remoeu bastante e agora tenta esquecer, buscando purificar-se da inveja.

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Ao planejar esta crônica, ela se lembrou de um detalhe indiscreto — um pingo de maledicência — como atração para o leitor.

Escrever sobre escritores é restrito, ela sabe. Por outro lado, é como no teatro — só vai ao teatro quem faz teatro. Assim, igualmente, lê quem escreve, ou lê quem ama escritores. É um modesto prazer eletivo. Não há mal em aproveitar o conforto desse círculo íntimo, em vez de forçar os próprios temas na busca de uma popularidade inalcançável.

O detalhe indiscreto: o podcast daquela escritora que denunciou a misoginia do ex-marido. O ex, um editor bem-sucedido. Há um ano e pouco, esse podcast foi a grande fofoca do meio literário, e, nas redes sociais, muitas mulheres embarcaram na polêmica. Ela tem um amigo jornalista que afirmou: os amigos do editor, em sua maioria escritores, ficaram traumatizados pela exposição; foram também acusados de misóginos; alguns se prejudicaram em seus trabalhos.

— Mas não foi só uma fofoca entre tantas? — ela desdramatiza. — Todo mundo já não esqueceu?

O jornalista garantiu que não. Ela desconfia da gravidade do episódio. Embora tenha acompanhado a denúncia com curiosidade — as réplicas e as tréplicas — no fundo, ela acha que chifre é chifre. Há uma sabedoria a ser adquirida no chifre. A indignação é a resposta menos útil para a vida cotidiana.

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No lançamento do ensaio-memória sobre cocaína, o escritor parecia autenticamente feliz. Alegre. Falou com entusiasmo do design da capa, laminada com brilho apenas no contorno das letras.

— Ficou bonito — ela concordou, acrescentando que entendia pouco de processos gráficos.

— Também entendo pouco — ele admitiu.

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Num intervalo de dois meses, ela leu o livro duas vezes. Fez quatro páginas de anotações. Agora, percebe, ela não terá espaço para nada do que anotou. Acabou-se o tempo que tinha reservado para escrever: uma segunda-feira de manhã, antes das ocupações da tarde, em seu emprego de professora. Seria o caso de cortar o episódio indiscreto do podcast?

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Ela acelera as conclusões, riscando vários parágrafos de seu esboço. Faz algum tempo que rumina uma ideia dentro de si — como escrever de modo diferente do que fez antes? Como abordar temas mais abstratos, se, afinal, a literatura de ficção não é abstrata?

Ou pode ser? No livro da cocaína, a meditação sobre escrita a interessa mais que as anedotas da bebedeira. Mas, claro, sem a cocaína, ninguém prestaria atenção ao livro. O autor deve ter pensado nisso, com razão. O ensaio encontra um tom possível para remeter ao abstrato: evitando nomes próprios, generalizando o real até certo grau — estica o real em direção à abstração, quase ao limite, sem abandonar a narrativa. O foco é construído com virtuosismo, entre as digressões, uma qualidade que — para ela — torna a literatura de ficção mais verdadeira que outros discursos.

Esta crônica, ela escreveu ao estilo do ensaio que ia comentar e quase não comentou. É uma paródia, ou homenagem, no tom neutro, quase abstrato. Por isso, ela não mencionou o nome do escritor. Está apenas no título da crônica. Que o editor use, como ilustração, a foto do homem — e que os leitores entendam o jogo.

Ela espera que o leitor, depois de ler a crônica, vá procurar o ensaio numa livraria. Anote o título e pergunte ao livreiro sua preferência. Ou — como evitar? — encomende no site daquele gigante do varejo eletrônico.

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

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