Em 2008, fiz amigos de blog. Foi numa época em que a internet era leve e artesanal; ninguém tinha smartphone, ainda trocávamos SMS. Descobri os blogs porque Martim — um amigo roteirista — escrevia o seu, com ideias e contos minimalistas. Era o “ano do blog”, como depois houve o “ano da newsletter” etc. As pessoas liam, palpitavam. Fazíamos amigos por meio da seção de comentários: alguém dizia algo interessante, você começava a seguir esse blog, a correspondência se desenvolvia.
Um período feliz, para mim. Recuperada de uma depressão, eu canalizava energias para ler e escrever. No troca-troca de esboços e sonhos literários, conheci Andréa (que depois se tornaria uma escritora premiada), Paulo (professor de literatura latino-americana) e Renata (mineira, estudava história e tocava violão).
Não lembro como conheci Júlia, Marcos e Bernardo. Foi nos blogs — mas como? Lê aqui, comenta ali, manda e-mail. Um livro de poemas, você quer ler? Claro!
O trio acabava de se formar em Letras na USP. Tiveram a ideia de um blog coletivo — Sete linhas — com sete autores (um a cada dia da semana), que publicariam textos de, justamente, sete linhas. O tamanho era fixo, e, no resto, valia tudo, liberdade total. Fiquei surpresa quando me convidaram — eram uns dez anos mais novos que eu e, aos trinta e poucos, você se sente mais velha que os ainda jovens. O blog não ficou famoso, mas líamos uns aos outros; a aventura durou quase dois anos. Nunca os encontrei pessoalmente. Depois, bem, a vida seguiu…
Soube do Marcos uns anos depois, quando minha melhor amiga o conheceu numa tarde qualquer. Conversavam sobre ativismo LGBT+, ou algo por aí, e se deram conta de que ambos me conheciam. Minha amiga me relatou o encontro, ocorrido num apartamento perto do Minhocão — nunca estive lá, mas, na minha lembrança (recriada), ficou a imagem de uma cozinha com lajotas verde-piscina.
Na internet, procurei uma foto do Marcos. De bigode e óculos, achei que ele era pequeno, mignon. E lá seguimos mais uns anos sem ouvir um do outro.
Até que, uns meses atrás, o César (pesquisador, ativista queer e boa-praça) convidou um grupo de escritores e jornalistas para um projeto de biografias. Houve uma festinha num apartamento cheio de cômodos interligados, no centro de SP. Um homem muito alto — o bom gigante amigo — veio me cumprimentar. Sorria, mas não o reconheci. Era o Marcos.
Anos esparsos de contato pela internet não me avisaram da doçura desse encontro. O Marcos é amado, amável, querido — assim o descreveu Júlia, sua grande amiga. Lindo, charmoso, o melhor: são as palavras dela. “Vocês sabem”, ela escreveu. Sim, eu soube logo que o vi.
Conversamos sobre amigos, escritores e o sexo dos outros — e, finalmente, a certo ponto, ele disse que havia publicado uma coletânea de poemas, em edição do autor. Eram oito livros de poesia que ele tinha guardado inéditos. Por ser uma edição independente, contou, ele a carregava nas festas, para oferecer a quem pudesse gostar. Somente naquela noite, por pudor, ele não a trouxera. Marcamos então um café, para trocarmos nossos livros, que passavam quase despercebidos nesse barulhento mundo das ambições literárias.
Se ficar muito difícil — esse é o livro do Marcos Visnadi. Poesia reunida: 2013-2020. Na abertura, ele se apresenta: “Por desamparo, recolhi todas as bobagens que concebi na minha discreta vida de poeta (…) Esta é uma reunião, portanto, de livros que nunca existiram”. Explica ainda, em seu site [marcosvisnadi.com]: “Na pior parte da quarentena, gastei o que não tinha pra editar por conta própria (…) porque achei que todo mundo ia morrer”.
Oito anos de vida e poesia reunidos num livro de 250 páginas. Assim diz um poema em prosa, na página 73:
Então eu fecho os olhos e fico imaginando: uma moeda, uma gravata, um antúrio, um elefante, este livro, você, o mercado editorial, tudo sendo deglutido por um imenso e apertado buraco negro alheio a qualquer vontade.
O mercado editorial… Nele, aparentemente, esse livro não se encaixa, já que publicá-lo custou ao autor o que nem tinha. Uma moeda, uma gravata e um antúrio… essa lista é crescente ou decrescente? O mercado vale mais ou menos que a gravata? A dúvida desaparece no buraco negro. “Meu tédio já viu tudo”, diz outro verso.
A força vital de Se ficar muito difícil foi bem definida por Júlia Hansen, no posfácio. Uma definição autossuficiente, para um livro que contém o mundo: “Ninguém escreve como Marcos Visnadi.”
Aos cinquenta e dois anos, acredito em seus versos: “daqui a um trilhão de anos essa/ tendinite achada com/ melancolia numa escavação de raças/ futuras”. Descanso encolhida em nossa fragilidade compartilhada.
Se você chegar a uma festa e notar Marcos com seu livro debaixo do braço — sorria pra ele. Ou deixe escorrer uma lágrima sem gravidade.