Degraus

Num táxi, um homem relembra a viagem do Piauí, a fome, o medo e a coragem de descer os primeiros degraus rumo à vida adulta em São Paulo
Ilustração: Eduardo Mussi
25/05/2026

Peguei o carro na fila de táxis na saída do aeroporto. O motorista perguntou o endereço. Disse o nome da rua, ele conhecia. Coisa rara. Em São Paulo, há muito tempo os destinos são desconhecidos, ninguém mais é capaz de chegar a qualquer canto sem o socorro de aplicativos. Ante minha surpresa, o taxista informou que, quando chegou à cidade, deixando o Piauí, na década de setenta, trabalhou na pizzaria de um tio no bairro. Como fazia entregas, rapidamente se inteirou sobre todo o entorno.

— Minha trajetória dava um livro — informou.

Pedi que contasse, falando sobre meu prazer em ouvir histórias; teríamos tempo de sobra.

Chegou por aqui aos quinze anos, veio procurar o pai. Ele deixara de mandar notícias, dinheiro, a mãe ficou aflita. Botou o filho mais velho de dez irmãos em um ônibus, sem nenhum dinheiro no bolso, o endereço da lanchonete de um tio escrito em um pedaço de papel. Três dias de viagem. Comeu pedaços de um frango acomodados em uma lata. No final, depois de muito calor, a estrada pegando fogo, o alimento ficou rançoso. Chegou à rodoviária, perto da Estação da Luz, morrendo de medo e de fome.

— Nunca havia visto tanta gente reunida.

Aturdido, mostrou o papel com o itinerário a um senhor. O bairro era distante, Suzano, precisaria pegar o trem.

— Na condução, vá ouvindo o nome das estações. Desça quando chegar ao seu destino.

Parou em frente a uma catraca sem saber o que fazer para passar. Um funcionário, vendo aquele menino com os olhos arregalados, aproximou-se e informou que ele precisaria comprar a passagem.

— Você tem dinheiro?

Ante a negativa, condoído, abriu um portãozinho e permitiu o acesso. Achou o carro frio. Mostrou novamente o papelzinho a uma mulher sentada; ela garantiu que ainda demoraria, que se acomodasse, avisaria quando ele precisasse descer.

Chegou. Caminhou na estação e alcançou um desnível com cerca de cem degraus, imaginou. Precisaria descer para ter acesso à rua. Mas nunca havia visto uma escada. Como fazer? Ficou parado olhando, tentando aprender, fascinado.

— Eu era um garoto muito inteligente e corajoso.

Reparou que alguns seguravam em um ferro lateral que acompanhava o declínio. Mais tarde, aprendeu que era o corrimão. Resolveu arriscar. Imitando o povo ao redor, conseguiu, orgulhoso, atingir o nível mais baixo. Na rua, mostrou, sempre eles, os rabiscos anotados pela mãe.

— Siga em frente, vire à direita e depois à esquerda duas vezes. É aqui perto.

Na lanchonete, encontrou uma mulher negra arrumando talheres e pratos em mesas. Aproximou-se dela.

— Sou o Francisco, filho de Sebastião.

Simpática, risonha, ela disse, afetuosa:

— Então, você é meu sobrinho. Está com fome?

Quando viu o garfo, estranhou. Nunca havia comido com um. Achou a salada azeda e o feijão amargo, diferente daquele de sua terra, o feijão-de-corda. Sentiu falta da farinha. Arroz? Coisa mais sem gosto…

Encontrou o pai transformado, doente, alcoólatra. Os tios o levaram para trabalhar no bairro de Perdizes. Nunca mais regressou ao Piauí.

— Depois de velho, resolvi estudar. Fiz faculdade, formei-me em Direito. Vou largar o táxi e advogar.

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho