Um dos problemas bons que todo escritor enfrenta é o excesso de livros recebidos. Não só muitos autores amigos nos enviam suas obras, como comparecemos seguidamente a lançamentos; nossas prateleiras estão sempre em processo de engorda. Além disso, a maioria de nós sofre com o mesmo impulso: compramos sofregamente lançamentos novos; somos acumuladores compulsivos quando se trata de textos editados.
Há pouco tempo ganhei de presente de meu enteado uma estante. Ele foi fundo no desejo de me agradar. Como é um rapaz hábil, escolheu a madeira, desenhou o móvel, prendeu, junto com a mulher, as tábuas na parede, realizou um trabalho de fôlego, grande; quando o vi pronto, imaginei que talvez nunca conseguisse ocupar todo aquele espaço. Enganei-me totalmente. Passaram-se dois anos e já estou com a biblioteca carente, necessitando extensão. Terei que conseguir acomodar os volumes que chegam diariamente. Como? Já percebi que um hábito que meu pai tinha — ele também das letras — fatalmente deverá ser adotado, embora me cause dor. Periodicamente, terei que me desfazer de alguns exemplares. No caso do Velho, era quase um ritual. Uma vez por ano, em determinado mês, buscava caixas de papelão, juntava aquilo que levaria para sebos. Verificava cada publicação, folheava, tomava o cuidado de retirar a página com dedicatória, caso houvesse, rasgava-a. Morria de medo de que um livro que lhe tivesse sido oferecido por algum amigo, com assinatura, pudesse ser encontrado sendo vendido. Considerava, com razão, grosseria indesculpável. No meu caso, teria que fazer o mesmo. Boa parte do que tenho está autografada.
Falei no começo em problemas. Está aí a maior aflição: consciência de que existe um limite físico. Um dia, deverei começar a escolher o que continuará comigo ou não. Por enquanto, vou adiando o momento e me surpreendendo com algumas descobertas.
Costumo adquirir livros na Estante Virtual, um site onde se pode comprar edições usadas, muitas vezes por um preço mais barato. Reúnem sebos, ofertas; vale a pena. Pode-se pesquisar; frequentemente, busco livros autografados. Por incrível que pareça, existem à venda. Certa vez, procurando títulos antigos, encontrei um Terno de reis, uma das primeiras coletâneas de contos escritas por Ricardo Ramos, meu pai, com autógrafo. Como existe a opção de se ver para quem era, cliquei, curioso no local pedido. A surpresa foi enorme. Era para um parente muito próximo. Imaginei a tristeza que provocaria no autor. Fiquei feliz por ele não estar mais vivo, embora, provavelmente, eu não revelasse a descoberta. Para que cutucar feridas?
Hoje recebi um livro. Conheço o autor; irei me encontrar com ele brevemente. Veio com um autógrafo muito carinhoso. Morri de vergonha alheia. Arranquei a página autografada, joguei no lixo. Jamais contaria para ele.
Lembrei-me, então, do que talvez seja uma anedota relacionada com o assunto. Dizem que um autor famoso, circulando por um sebo, encontrou um livro de sua autoria autografado para um amigo. Comprou a obra e enviou para o dito cujo pelo correio com o seguinte bilhete:
— Você deve tomar cuidado com suas visitas. Existe gente roubando seus livros e vendendo.