Uma noite em Curitiba, depois de dar um curso sobre contos na Biblioteca Pública do Paraná (que deve ter sido péssimo, porque nunca mais me chamaram), fui comer alguma coisa no Bar do Luís.
Sentei-me e vi que o cara do lado tomava uma sopa de cebola com gosto. Pedi uma igual. Quando ela chegou, meu vizinho de mesa disse:
— Você me plagiou.
Olhei para o lado e vi que era o Dalton Trevisan. Fiquei sem jeito e disse:
— É…, realmente o livro Pequenos amores se inspira um pouco no seu jeito de escrever. Mas tirou segundo lugar no Jabuti. Pelo menos foi um bom plágio.
— Estou falando da sopa de cebola. Nem sabia que você era escritor.
— Ah, claro, a sopa… Ótima, não?
— Glupt — ele concordou, engolindo mais uma colherada. Aproveitei e emendei uns elogios:
— Gosto mesmo muito do seu texto, viu? Ele é mais que enxuto, é como se faltassem pedaços. Fica só o osso da história. E um osso meio quebrado, às vezes. Que ritmo, que histórias, que poder de observação! Li nem sei quantos livros seus. O Novelas nada exemplares é ótimo, de O Vampiro de Curitiba nem preciso falar, o Ah, é? foi o pontapé inicial ao microconto brasileiro, O anão e a ninfeta é uma delícia…
— Você devia babar pela sopa, não por mim.
Fiz que não ouvi e continuei: — Um detalhe que eu noto nos seus textos é o uso dos diminutivos. É sempre algo meio perversinho.
— “Perversinho” é bem melhor que “perverso”. Muito mais complexo.
— O que o senhor gosta de ler?
— A Bíblia, Homero, Cervantes, Tolstói, Tchekhov, Flaubert, Joyce e Kafka, sem esquecer Machado de Assis, o maior escritor brasileiro.
— E o que é um escritor para o senhor?
— Um ser maldito. Uma pessoa que não merece nenhuma confiança. Um amigo chega e me conta as maiores dores; eu escuto com atenção, mas estou é recolhendo material para mais um conto. E percebo isso na hora. Sei que estou fazendo assim e não desejaria fazer, mas não há outro jeito.
— Agora vou perguntar o que todo mundo pergunta: Por que tão poucas entrevistas?
— O conto é sempre melhor que o contista.
— O senhor acha mesmo?
— Se o contista for bom, sim. Mas vamos comer. Melhor que conversa fria é sopa quente.