Minha esposa, Maria Rita Barbi, morreu no último dia 31 de julho.
Ela nunca havia escrito um livro de ficção. Porém, depois da última cirurgia, em maio, acordou da anestesia aos prantos, com o coração batendo mais de 140 vezes por minuto. Pensei que fosse algum problema médico. Mas não. É que Rita havia sonhado uma história inteira e ficara muito emocionada, o que a fez despertar chorando, com o coração acelerado.
Depois de alguns minutos, ela se acalmou e me contou a história toda. O resumo é este: um sol muito brilhante, página a página, vai sendo coberto por nuvens cinzentas, por prédios, por um hospital, pela fumaça de caminhões, por um dragão verde e, por fim, some completamente quando chega a noite. Mas, na manhã seguinte, quando a janela é aberta, cada um dos itens vai sumindo, até que o sol volta a surgir.
O texto desta última página é: “Tudo passa. E o sol continua lá. Amarelo e brilhante como sempre”.
Seria um livro para crianças em sofrimento. E já veio com título: A cor do sol.
Voltando para casa, Rita passou dois meses escrevendo e desenhando o livro. E, dias antes de sua morte, ainda plenamente consciente, viu o boneco de A cor do sol. Foi uma alegria imensa.
Imagino que, para crianças em tratamento oncológico, o livro possa trazer alento e esperança (ele será doado, e não vendido). Há uma mensagem subterrânea de que tudo vai passar e de que a vida voltará a brilhar.
Mas a história permite outras interpretações. O sol pode ser, por exemplo, o próprio livro. Maria Rita se foi, mas sua obra continuará brilhando e ajudando crianças.
E há ainda uma terceira leitura possível: o sol pode ser a própria autora, que, mesmo depois da chegada da noite, ainda brilha na memória de todos os que a conheceram.
O último poema, de Manuel Bandeira, diz:
Assim eu quereria o meu último poema:
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Acho que Maria Rita conseguiu isso neste seu último e primeiro livro.