Os clubes e o momento do leitor

Clubes de leitura e podcasts ajudam a explicar o avanço do mercado editorial e devolvem aos livros a força do convívio, do diálogo e da conversa viva
Ilustração: Marcelo Frazão
20/06/2026

Foi recentemente que li sobre o atual momento do mercado editorial brasileiro, sobre o bom momento que vivemos. Em 2025 — e esse movimento vem evoluindo —, houve um crescimento de mais de 3 milhões de leitores, que se somam aos que já consomem obras literárias no país. Esses leitores fizeram subir em 13% o volume de aquisição de livros no Brasil. Vejam vocês — ou melhor, leiam vocês.

Nessa matéria, também se especulou sobre os motivos desse crescimento, e dois deles me parecem dignos de uma reflexão em forma de crônica. Os clubes de leitura e os podcasts são duas dessas molas, elementos que, somados a outros menos divulgados, elevaram o consumo de livros no Brasil.

Os podcasts pululam por todos os lados e realmente nos pegam em meio à rotina, seja ouvindo-os no carro, seja recheando de conteúdo as tarefas domésticas. Amigos me contam que os ouvem enquanto lavam a louça, quase como num momento zen: enquanto fazem algo mecânico e repetitivo, recebem e absorvem o conteúdo. A diversidade de temas dos podcasts é enorme e, nessa diversidade, entram, claro, a literatura, a divulgação de obras, as entrevistas e os assuntos que se sustentam a partir de um ou mais livros.

E o fenômeno dos clubes, para mim, é o mais interessante e, por que não dizer?, intrigante e, num momento seguinte, revelador. De algum tempo para cá, quando atendo leitores na livraria, sempre que posso pergunto o motivo de buscarem determinado livro. É uma maneira de entender o leitor, seu gosto e, a partir da resposta, começar a criar um território de outras sugestões de leitura. Pois bem: de uns tempos para cá, uma das respostas mais frequentes é a de que aquela busca é para um clube de leitura. Essa manifestação é cada vez mais recorrente: a procura de livros para clubes. E isso é muito positivo. Agora, vamos pensar sobre o fenômeno.

Pensando aqui com meus marcadores de livros, uma possibilidade para entender a explosão na quantidade de clubes é uma mutação na forma de compra de livros. E esse pensamento, que para mim é lógico, não chega a ser uma boa notícia para nós, livreiros. Acho que os leitores, por adquirirem seus livros de forma solitária, via web, sem mediações, sem calor humano, sem amigos por perto para trocar ideias, experimentaram uma solidão que gerou um vazio, uma vontade de conexão mais humana. Daí nascem os grupos presenciais, que acontecem nas casas de uma das pessoas ou podem se reunir em cafés, restaurantes e, claro, embora não seja tão comum — apesar de um tanto óbvio —, em livrarias.

E quais as características de um leitor que frequenta clubes? Acho que são leitores em formação, que, por vezes, estão iniciando a prática da leitura, e isso é muito bom, sem dúvida. Também há os que simplesmente querem conhecer pessoas que também gostam de ler, formar uma tribo em sua cidade ou, no caso dos clubes on-line, uma tribo sem território, mas ligada pela forte conexão do propósito ou da banda larga mesmo. Ler em conjunto tem seu poder; sentir a força do texto com mais pessoas, ao mesmo tempo, pode ser incrível. Li um livro de um livreiro inglês, em português de Portugal. O título é As crônicas de um livreiro, de Martin Latham, livreiro da rede Waterstone, na Inglaterra. Ele conta um episódio mágico na casa de uma dama da era vitoriana: numa noite, momentos antes de se recolher, enquanto seu cabelo é escovado por uma das várias amas que estão no quarto, o movimento da escova é subitamente interrompido e, uma após a outra, as pessoas começam a chorar, sem exceção. Uma das amas era letrada e lia em voz alta uma obra que chegara a um momento forte, emocionante.

Ler em grupo pode ser transformador também e talvez esse seja o recado da força desse fenômeno. Já eu sou um leitor desregrado: leio em silêncio, solitário e louco para, se tiver inspiração, dividir com o leitor a experiência dessa forma, numa crônica.

Cada leitor tem o seu caminho.

Mas este texto serve para congelar no tempo esse bom momento do mercado e tentar fazer com que uma boa notícia se torne tão contagiosa quanto uma má notícia — esta, sim, eficaz —, seja numa fofoca maledicente, seja num tabloide sensacionalista.

Então, congelemos e guardemos na memória esse triunfo do livro e dos leitores.

Obrigado pela preferência. Voltem sempre, em grupos ou não: vocês decidem.

José Luiz Tahan

É livreiro, editor e idealizador do festival Tarrafa Literária. Autor da antologia de crônicas Um intrépido livreiro nos trópicos (Vento Leste).

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