Das homenagens aos ídolos

Na Copa e na livraria de rua, nomes herdados de ídolos mostram como futebol e literatura fazem da admiração uma memória viva, duradoura e afetiva
O goleiro Vozinha, de Cabo Verde, é um dos destaques da Copa do Mundo
03/07/2026

Vivemos as emoções da Copa do Mundo de 2026, nos EUA, México e Canadá. Dentro de campo, a bola tem rolado bem redonda, com bons níveis de gols por partida e, até o momento, o nosso escrete segue vivo na competição. Estamos na semana que antecede a partida entre Brasil e Noruega pelas oitavas de final. Fora das quatro linhas, não dá para dizer o mesmo: o principal país-sede maltrata imigrantes, pratica violência internacional e o esporte fica cada vez mais exposto no que se refere à indiferença e à omissão em relação aos fatos. Mas vamos tentando curtir a Copa mesmo assim, tentando manter o encantamento, o prazer de ver futebol, apesar de Trump e apesar da senhora Fifa.

Mas o que me motivou a escrever sobre o esporte bretão foi um motivo mais singelo: as homenagens aos ídolos. Uma das seleções mais carismáticas da Copa é, sem dúvida nenhuma, Cabo Verde. Fazendo sua estreia na competição, arrancou, com coragem, a classificação para a segunda fase do torneio, e o mundo e, especialmente, o Brasil, claro, estão embevecidos com os cabo-verdianos. Seu goleiro, o veterano “Vozinha”, tornou-se uma celebridade do esporte ao ser alvo de uma campanha nas redes sociais promovida pelo jornalista Casimiro, criador da CazéTV, emissora que abala o status quo da comunicação no país ao enfrentar as grandes emissoras e conseguir retransmitir, de forma gratuita, todos os jogos da Copa via YouTube. Cazé e seus comandados fizeram o que chamam de um mutirão para fazer com que o número de seguidores de Vozinha passasse de 52 mil para algo em torno de 13 milhões em uns dois ou três dias (acabei de checar: 17 milhões de seguidores no momento).

A motivação da campanha é simples: acharam que seus números eram muito modestos em relação ao craque que ele demonstra ser. O apelido não revela seu verdadeiro nome, que é uma homenagem ao craque Josimar, lateral da seleção brasileira de 1986, autor de gols incríveis na Copa e que, logo depois de ser elevado à categoria de ídolo, desaparece dos holofotes. Essa ligação entre Cabo Verde e Brasil é forte, e as homenagens dos pais não se limitaram ao goleiro. Na nossa livraria, o meu colaborador mais antigo, hoje com dez anos de casa, é, vejam vocês, o Josimar. Prestes a completar quarenta anos, assim como Vozinha, Josimar teve um pai que quis batizar seu filho com o nome desse craque de carreira meteórica e um tanto enigmática. Imagino que existam mais homenagens como estas, mais Josimares quarentões pelo mundo.

E, dentro desse assunto dos homenageados e das conexões que fazem a gente pensar sobre os temas e, por consequência, escrever sobre eles, descobri, assim, de repente, um ingênuo homenageado que, inocentemente, estava no colo de sua mãe, ambos embalados pelo choro — não o da criança, mas o Choro de Bolso, nossa apresentação musical de todas as sextas-feiras há mais de vinte anos. Durante a apresentação do Choro, a mágica acontece: pessoas se aproximam para ouvir a música, para ver as novidades da livraria, para beber um café ou uma cachaça, e assim reforçamos o sentimento de comunidade numa livraria de rua. E, enquanto eu conversava com os amigos e clientes, um rapaz fez um comentário sobre uma indicação que acabava de fazer a uma cliente. Isso é comum na livraria: quando comento sobre um livro, outro cliente ouve e interage, e acho isso ótimo.

Falava das boas traduções do mercado, em especial a de Rubens Figueiredo para Crime e castigo, de Dostoiévski. Esse novo cliente, enquanto tomava o café, fez elogios às edições da Editora 34. Concordei e reforcei os trabalhos brilhantes de outro grande tradutor do russo, Irineu Franco Perpétuo. Ele disse que gostava das ilustrações da edição da 34, além das traduções. Nesse minuto, lembrei-me de uma novidade: a edição comemorativa de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, publicada pela Companhia das Letras. O rapaz ficou solene, pediu para ver a obra e, quando a busquei, examinou-a página por página, dizendo que o autor português é aquele de que mais gosta, já tendo lido praticamente todos os seus livros. No mesmo momento, apontou para a criança no colo da mãe, sua esposa, e completou: “Olha lá ele, o Heitor Saramago, meu filho.” Eu repetia pra ele: “Saramago? Que genial.”

A partir daí, seguimos a prosa. Vim a saber que o nome do pai é Alan; ele é professor de língua portuguesa aqui em Santos, e a paixão pela literatura motivou a homenagem ao pequeno Saramago.

Que histórias guardadas podem nascer do ambiente de uma livraria de rua, de um lugar receptivo onde se ouvem histórias? E como as homenagens nascem da admiração, da paixão, seja pelo futebol, seja pela literatura.

Boa sorte para o Vozinha (ele vai precisar: Cabo Verde vai enfrentar a Argentina de Messi), para o Heitor Saramago e para o nosso Josimar, craque do time da Realejo Livros.

Obrigado pela preferência. Voltem sempre.

José Luiz Tahan

É livreiro, editor e idealizador do festival Tarrafa Literária. Autor da antologia de crônicas Um intrépido livreiro nos trópicos (Vento Leste).

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