Tudo começa numa terça-feira de manhã. Adiantada para um exame de rotina, estaciono o carro e decido caminhar pela orla até a padaria mais próxima. Fazer o caminho mais longo, aproveitar o sol de outono, ver o mar. São sete da manhã, e a movimentação nas ruas ainda é discreta. Na esquina da Delfim Moreira com Carlos Góes, levo um susto. O mar está alto, bravíssimo, explodindo antes de cobrir a estreita faixa de areia. Atravesso as duas pistas e, ao pisar no calçadão, percebo meus batimentos cardíacos discretamente acelerados. Sei que isso não se deve à caminhada, e sim ao meu encontro com a ressaca, com as ondas enormes estourando furiosas a poucos metros de mim. Ao meu encontro com o inesperado, com o inexorável. Mesmo amedrontada, sigo a rota — o que não faz um pão na chapa — e caminho ladeada por aquela ameaça marítima, respingando em mim e nas pedras portuguesas.
Tomo meu café na padaria, caminho pela Ataulfo de Paiva de volta à clínica onde faria o exame, dirijo para casa sem conseguir me livrar da angústia provocada por aquele incontrolável mar de ressaca. A cada lembrança, uma nova ameaça.
No espelho do elevador, vejo olhos escondidos pela aba do boné, um rosto besuntado de protetor solar, busco algum resquício do susto horas antes, dou de cara com a prega no pescoço que me perturba de uns tempos para cá. Ao analisá-la sob todos os ângulos, ao pensar no que ela representa, lembro da cena que conto a seguir.
“Quando foi que você ficou baixinha?” Olhei pra cima. Lá estava ele, rapaz bonito, olhar doce, sorriso discreto, braço forte me envolvendo pelos ombros — meu filho. Dia desses acordou com 1,85 e agora me acha baixinha. Vê se pode. Eu a vida toda tão satisfeita com meus 1,68.
Não sei se me tornei ou me tornarei uma mulher pequena — dizem que a gente encolhe com a idade —, mas venho notando uma série de mudanças intrigantes. Uma, em especial, não me agrada: a invisibilidade. Ela vem se insinuando, sorrateira, e, aos poucos, expandindo territórios. De uns anos pra cá, me vi nesse estado em determinadas situações. Não me enxergam, e isso, aqui entre nós, é bem estranho.
Trata-se de um fenômeno sofisticado, um estado peculiar que oscila ao seu bel-prazer, não ao meu — hipótese em que poderia funcionar como um superpoder interessante — e só me torna invisível diante de homens abaixo dos cinquenta.
Em contrapartida, as mulheres, sempre mais evoluídas, me olham bastante. Noto os olhares me percorrendo de cima abaixo, observando cabelo, pele, corpo, unhas, roupa, bolsa, sapatos.
Sou fã de babados, brilho e cor. Meu guarda-roupa é a prova viva disso. Esta semana, experimentei uma blusa branca com babados românticos nas laterais, indo do ombro à cintura, perfeita para a calça jeans que eu vestia, e me perguntei se ainda cabia passear por aí com esse tipo de ornamentação.
“Velha gaiteira”, diziam minhas tias referindo-se a mulheres mais velhas com comportamento “destoando” da idade. De tanto ouvi-las usando essa expressão, construí mentalmente uma personagem colorida, extravagante e, sobretudo, animada. O tempo passou — como passa rápido —, dia sim, dia não, me pego pensando: a velha gaiteira sou eu. E a grande contradição é justamente essa, porque, para minha surpresa, gosto mais — muito mais — da versão atual do que daquela de vinte ou trinta anos atrás. Talvez o cabelo tivesse mais volume, fosse mais sedoso, talvez as pálpebras não me fizessem acordar parecendo um filhote de shar-pei, mas, na verdade, o que lamento, de fato, é não ter sido sempre, quem eu sou hoje. Como se depois de inúmeros rascunhos tivesse chegado a uma versão final. Ou quase.
Essa versão — já submetida a algumas leituras críticas e revisões ortográficas — sabe o que quer, com quem quer estar, para onde quer ir. Não tem tempo a perder. Gosta do conjunto da obra: rosto, corpo, ideias, maneira de ser. E olha, vou te contar, que conforto isso dá a um ser humano.