Fui uma criança medrosa. Antes de dormir, fazia uma espécie de blitz no quarto sob os olhos incrédulos da minha irmã caçula. Espiava embaixo da cama, tentando encontrar tudo que me assombrava naquela escuridão sem fim. Abria as portas do armário e apalpava o vazio, até me convencer de que ali havia apenas peças de roupa inofensivas e, só então, ia para a cama — o coração descompassado.
Motivo de preocupação para meus pais com a sanidade da filha, a vistoria se repetia todas as noites e me tranquilizava até certo ponto. Vivia acompanhada pelo medo. De quase tudo. De bruxas que surgiriam dos cantos do meu quarto, montadas em vassouras. De ciganas que me levariam embora com elas para sempre. De perder meus pais. De me perder deles. De me afogar na piscina funda do clube, de levar um caixote no mar de Ipanema, de tomar um coice no rosto, da bola no jogo de queimado, de prova de matemática.
Não sei bem o que se deu no longo caminho percorrido entre a infância e a vida adulta. Tenho medos, claro, medos de outra natureza, talvez mais concretos, mas “medrosa” deixou de ser um adjetivo que se aplique a mim.
Não costumo pensar muito sobre isso. Nem sobre os medos deixados na infância, sobre os quais me debrucei bastante, nem sobre a suposta coragem adquirida na vida adulta. Entretanto, ao ouvir de pelo menos três pessoas que eu seria corajosa por ter escrito um livro cujo tema é o amor, fiquei intrigada.
Corta para uma breve digressão. Li recentemente Diário do fim do amor, belo livro de Ingrid Fagundez, publicado pela Fósforo. Entre os vários trechos sublinhados, me aproprio de três. Na página 137, Ingrid aponta como, historicamente, as mulheres foram cerceadas no ato da escrita; na página 144, lembra-nos que, no momento em que puderam, enfim, assinar suas obras, deixando para trás os pseudônimos masculinos tão usados no século 19, a repressão se voltou para o tema escolhido por elas; na página 151, Ingrid me ganhou de vez: “Separar vida e literatura pode ser o mesmo que separar escritora de mulher ou mulher de mãe ou mãe de filho ou filho de pedaço de carne própria que, por mais que desapareça na trança dos anos, é cativo da memória do corpo”.
Fico feliz por me acharem corajosa — independentemente do motivo — e por me reconhecer nesse lugar. O que chama a atenção, e parece estranho, é que escrever uma história de amor seja considerado um ato de coragem. Talvez o amor esteja fora de moda. Será que o amor está fora de moda? Um amigo matou a charada: “Não é uma pauta urgente”. De fato. E que pena. Como não escrever sobre o que nos mobiliza tanto, nos inspira e nos emociona? Sobre o que alimenta a vida, dando-lhe graça e alegria. Sobre aquilo que nos amedronta e ameaça, mas, sobretudo, nos dá uma enorme coragem.