Noto certa dificuldade em escolher um único tema e me ater a ele. Dispersão? Excesso de tempo nas redes? Absorção incessante de todo tipo de informação? Tudo isso junto? O fato é que, uma vez frente a frente com a página em branco, inúmeros assuntos se enfileiram diante dos meus olhos como se me dissessem: “Eu! Eu! Ei, senhora, agora é a minha vez”, levantando o braço como crianças sabidas numa sala de aula.
Esta semana, por exemplo, considerei escrever sobre a torcida inglesa cantando Wonderwall para os seus jogadores. A partir daí, tive a ideia de escrever sobre futebol do ponto de vista de alguém que entende pouco ou nada sobre o esporte e, ainda assim, é capaz de perceber — como não? — que Lionel Messi é um jogador que opera numa outra dimensão e prosseguir comentando que tal constatação me levou a pensar na decadência da nossa seleção.
De uns anos para cá, passamos a jogar um futebol inapetente, sem brilho, que não desperta paixão, ou estou enganada? É rabugice minha? O que dizer da convocação da grande-estrela-para-sempre-contundida Neymar? Simpatizava demais com Vini Jr. até o namoro com a rainha das bets. Pois é. Não vamos nem entrar no assunto bets. Muito menos nos casos de Robinho e Daniel. Temos que nos preocupar com os próximos tombos do camisa 10. Se bater um ventinho mais forte no estádio, ele cai, se machuca, a seleção se desestabiliza emocionalmente e pronto, acabou. Pode ser trauma de 2014, mas depois de assistir aos dois primeiros jogos do Brasil na Copa 2026, confesso que passei a temer o massacre iminente, caso a gente chegue até lá, diante de seleções como França, Inglaterra e, por que não dizer, Argentina. Daí achei uma tremenda ousadia da minha parte, alguém que só acompanha futebol a cada quatro anos, querer dar pitaco em plena Copa do Mundo.
Mudei de assunto. Pensei em escrever sobre a minha avó paterna, Dona Sarah, em quem eu penso com tamanha frequência que cheguei à conclusão de que ela conversa comigo. Assim como meu avô materno, sempre por perto, a mão morna pousada sobre meu ombro esquerdo, e meus outros dois avós, mais reservados, mas sempre de olho em mim. Desisto, porém, do tema avós. Me reprimo. Nesse tipo de texto, o risco de cair no sentimentalismo é alto, mas minha avó segue conversando comigo, me dando conselhos, assim como meu avô materno, como já disse acima, e, se estou me repetindo, é porque isso realmente acontece e me parece incrível. Tudo bem que muitas vezes sou eu quem puxa conversa, mas em outras, estou quieta no meu canto; eles surgem e retomam o nosso diálogo.
E então me lembro: há exatos seis anos, nos primeiros meses da pandemia, escrevi uma crônica chamada 75 falando do meu pai, do aniversário dele que se aproximava, da agonia com a passagem do tempo. A pandemia ficou para trás, meu pai segue fazendo aniversários anualmente e a passagem do tempo continua a me atemorizar.
Mergulhada nessa angústia, cedo à tentação: abro o celular e sou sugada por anúncios de cosméticos coreanos fabulosos a respeito dos quais troco mensagens com uma amiga. Ela conta usar vários desses produtos, mesmo na dúvida sobre sua eficácia. Enquanto falo com ela, compro dois, num impulso, antevendo efeitos milagrosos; nosso papo rende, salta dos cuidados com a pele para o envelhecimento dos nossos pais e o crescimento dos nossos filhos, percorre questões existenciais até que nos despedimos, abro outro aplicativo e dou de cara com uma mensagem no grupo do prédio sugerindo a “retirada” de uma árvore localizada no terreno vizinho. De acordo com a tal moradora, a jaqueira do outro lado do muro impede que o sol alcance a sua janela, além de obstruir a vista para a “linda floresta” que ela deseja desmatar.
Incrédula diante da disseminação da estupidez humana, releio o texto recebido para me certificar de ter entendido corretamente. Estar localizada em terreno alheio e não oferecer risco iminente ao entorno parecem ser aspectos irrelevantes, já que outros moradores apoiam a sugestão de crime ambiental a ser praticada pelo condomínio. Espio a jaqueira da minha janela. Uma poda anual bem-feita resolveria o problemão da vizinha. Respiro fundo, esfrio o sangue, me pergunto por que raios não escrevi sobre a torcida inglesa cantando Oasis, por que não me concentrei e escrevi uma crônica louvando o Messi.