Três anos de Rascunho

Ao celebrar três anos como cronista do Rascunho, o autor reencontra no avô Pergentino uma defesa bem-humorada da concisão literária
Ilustração: Kleverson Mariano
09/09/2026

Cheguei a Borá levando a notícia dos meus três anos como cronista do Rascunho. Fui contar ao meu avô, Pergentino Castelo.

Aos oitenta e muitos, mora sozinho num sítio nos arredores da menor cidade de São Paulo e passa os dias entre ferramentas enferrujadas, galinhas abusadas e lembranças cuja convivência com a verdade é, no mínimo, protocolar.

Pergentino é homem de ilustrada instrução própria, valentias retrospectivas e modéstia quase nenhuma. Recebeu a notícia na varanda, com uma bacia de quiabo recém-colhido aos pés.

— Três anos, meu neto? Isso já é antiguidade de pena. Meus cumprimentos.

Achei que viria abraço, elogio, talvez alguma consideração sobre perseverança literária. Engano meu.

— Agora, vosmecê falando em noticioso do Paraná, me lembrou Dalton Trevisan. Esse homem deve a este Pergentino uma parte considerável da carreira.

Puxei cadeira.

Com Pergentino Castelo, aprendi que a realidade não deve ser contrariada. Apenas escutada.

— Foi em Curitiba, numa viagem de pecúnia que fiz nos antigamentes. Frio de congelar pensamento. Entrei num café para desensofrer os dedos e lá estava ele, Dalton, escrevendo numa mesa. Papel que não acabava mais. Umas oito, dez folhas. Falei de Pergentino para Pergentino: “Escritor desse comprimento acaba antes da história”.

Segundo meu avô, aproximou-se.

— Vosmecê é Dalton?

— Sou.

— Pois está gastando palavra demais.

Dalton teria levantado os olhos, severista.

— Como?

— Palavra, meu amigo, é igual quiabo. Se bota em excesso, baba.

Meu avô assegura que o escritor ficou em silêncio. E o silêncio, para Pergentino, sempre significa concordância.

— Tratei as partes no macio, em dedo de moça. Expliquei que conto bom não carece de mobília. Tira poltrona, tira mesa, tira janela. Quando vê, ficou só o defunto. E, se o defunto puder ser dispensado, melhor ainda.

Dalton teria perguntado:

— E sobra o quê?

Pergentino bateu no braço da cadeira.

— A literatura!

No que não satisfeito, meu avô teria puxado o manuscrito para si e iniciado uma operação de guerra.

— Cortei adjetivo, degolei advérbio, pus três vírgulas na rua. Tinha uma descrição de chuva com quase meia página. Risquei tudo e escrevi: “Choveu”. Digo sem alarde: aquilo respirou.

O futuro vampiro de Curitiba observava, segundo ele, “com olho de quem presencia cirurgia sem anestesia”.

— Antes de sair, dei a recomendação: “Vosmecê vá diminuindo. Conto de duas páginas, depois uma, depois meia. O bom escrevedor acaba deixando uma linha e cobrando por vinte”.

Pergentino levantou-se para espantar uma galinha dos quiabos.

— E não foi o que aconteceu? Dalton foi diminuindo, diminuindo, até escrever coisa do tamanho de suspiro. Quase haicai. Se eu tivesse insistido mais, o homem publicava livro em branco.

Perguntei se Dalton alguma vez reconheceu a influência.

Meu avô não gostou.

— Reconhecer para quê? Nenhum segredo aguenta ficar em boca de gavetão sem criar bolor. Homem de valor não cobra gratidão.

Ficou pensativo.

— Mas três anos de Rascunho é bonito, meu neto.

Sorri.

— Obrigado, vô.

— Só não alongue muito suas cronicagens. Já ensinei isso uma vez e deu Dalton Trevisan.

Carlos Castelo

É jornalista e escrevinhador. Cronista do Estadão, O Dia, e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo. É autor de 18 livros.

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