Cheguei a Borá levando a notícia dos meus três anos como cronista do Rascunho. Fui contar ao meu avô, Pergentino Castelo.
Aos oitenta e muitos, mora sozinho num sítio nos arredores da menor cidade de São Paulo e passa os dias entre ferramentas enferrujadas, galinhas abusadas e lembranças cuja convivência com a verdade é, no mínimo, protocolar.
Pergentino é homem de ilustrada instrução própria, valentias retrospectivas e modéstia quase nenhuma. Recebeu a notícia na varanda, com uma bacia de quiabo recém-colhido aos pés.
— Três anos, meu neto? Isso já é antiguidade de pena. Meus cumprimentos.
Achei que viria abraço, elogio, talvez alguma consideração sobre perseverança literária. Engano meu.
— Agora, vosmecê falando em noticioso do Paraná, me lembrou Dalton Trevisan. Esse homem deve a este Pergentino uma parte considerável da carreira.
Puxei cadeira.
Com Pergentino Castelo, aprendi que a realidade não deve ser contrariada. Apenas escutada.
— Foi em Curitiba, numa viagem de pecúnia que fiz nos antigamentes. Frio de congelar pensamento. Entrei num café para desensofrer os dedos e lá estava ele, Dalton, escrevendo numa mesa. Papel que não acabava mais. Umas oito, dez folhas. Falei de Pergentino para Pergentino: “Escritor desse comprimento acaba antes da história”.
Segundo meu avô, aproximou-se.
— Vosmecê é Dalton?
— Sou.
— Pois está gastando palavra demais.
Dalton teria levantado os olhos, severista.
— Como?
— Palavra, meu amigo, é igual quiabo. Se bota em excesso, baba.
Meu avô assegura que o escritor ficou em silêncio. E o silêncio, para Pergentino, sempre significa concordância.
— Tratei as partes no macio, em dedo de moça. Expliquei que conto bom não carece de mobília. Tira poltrona, tira mesa, tira janela. Quando vê, ficou só o defunto. E, se o defunto puder ser dispensado, melhor ainda.
Dalton teria perguntado:
— E sobra o quê?
Pergentino bateu no braço da cadeira.
— A literatura!
No que não satisfeito, meu avô teria puxado o manuscrito para si e iniciado uma operação de guerra.
— Cortei adjetivo, degolei advérbio, pus três vírgulas na rua. Tinha uma descrição de chuva com quase meia página. Risquei tudo e escrevi: “Choveu”. Digo sem alarde: aquilo respirou.
O futuro vampiro de Curitiba observava, segundo ele, “com olho de quem presencia cirurgia sem anestesia”.
— Antes de sair, dei a recomendação: “Vosmecê vá diminuindo. Conto de duas páginas, depois uma, depois meia. O bom escrevedor acaba deixando uma linha e cobrando por vinte”.
Pergentino levantou-se para espantar uma galinha dos quiabos.
— E não foi o que aconteceu? Dalton foi diminuindo, diminuindo, até escrever coisa do tamanho de suspiro. Quase haicai. Se eu tivesse insistido mais, o homem publicava livro em branco.
Perguntei se Dalton alguma vez reconheceu a influência.
Meu avô não gostou.
— Reconhecer para quê? Nenhum segredo aguenta ficar em boca de gavetão sem criar bolor. Homem de valor não cobra gratidão.
Ficou pensativo.
— Mas três anos de Rascunho é bonito, meu neto.
Sorri.
— Obrigado, vô.
— Só não alongue muito suas cronicagens. Já ensinei isso uma vez e deu Dalton Trevisan.