Noção, alô?

Entre filas furadas, elevadores, botecos e bichos de estimação, a falta de noção surge nas situações mais banais do cotidiano
Ilustração: Eduardo Mussi
10/09/2026

Noção é uma coisa em extinção, me parece.

Chamo o elevador. A porta abre. A pessoa me olha assustada e não sai da frente. Está sozinha no elevador com capacidade para seis. Eu peço “com licença” e preciso forçar a entrada. Gente, sabe, não é física quântica.

E o conceito de fila? Parece ser um conhecimento perdido no tempo. Sempre tem uma flor do campo qualquer que acha que ela não, ela não precisa ficar na fila, ela é especial.

Algumas coisas, que eram aceitáveis antigamente, caducaram com o tempo. Quando eu era jovem e os pterodátilos ainda sobrevoavam os céus, as pessoas ligavam umas para as outras. Você estava lá em paz no conforto do seu lar e de repente o telefone tocava. Sem identificador de chamada, como um selvagem, você ia lá e atendia: “Alô”. Um risco que hoje não corremos. Quer dizer, eu não corro, já que não atendo telefone por nada desse mundo. Se você ainda gosta de viver perigosamente, o problema é seu.

O cenário é um boteco. Bu-te-co. Daqueles de centro da cidade em que o controle dos pedidos é feito no grito, a mesa tem uma cobertura de plástico grosso que gruda e o guardanapo não serve nem como papel de rascunho. A gente lá, almoçando um PF honestíssimo. Na mesa ao lado, um cidadão e seu também prato do dia. Pede uma água mineral, sem gás. O cara do buteco, em sua melhor atuação como garçom, traz com direito até a um copo limpo. O cliente olha para a garrafa e pergunta se só tem daquela marca. “Só tem Crystal?” Amigo. Amigo, olha em volta. Leia o ambiente. Fala sério. Virou piada particular, obviamente.

Gente sem noção pode ser engraçado, mas eu gosto mesmo é de bicho.

Verônica considera que o melhor lugar para dormir confortavelmente é em cima do teclado. Não me pergunte como, mas teve um dia em que ela reconfigurou os atalhos do Photoshop. Precisei reinstalar o treco todo.

Frederico e Verônica gostam de se certificar que a água não vai reagir antes de beber. Vai que pula um tubarão do pote? Um jacaré? Dão batidinhas na superfície, espirram água pra todo lado e depois, de patas molhadas, bebem.

Frederico apareceu com umas bolinhas no pescoço. Preocupada com micose, pulga, carrapato, alergia, sei lá, levo ao veterinário. Sequelas das brincadeiras de briga com a irmã. Pelo visto, Verônica é violenta. Olho para a gata, cujo apelido é Batata, e tenho muita dificuldade em enxergar isso mas confio nesse doutor.

Nina Simone acha perfeitamente razoável tentar roubar o lanche do segurança do parque. Já paguei uns dois almoços pro sujeito, morta de vergonha.

Nina, agora que adotou os felinos e virou mãe, sossegou um pouco. Vou até falar baixo. Vai que ela lê essa crônica e se lembra em como era gostoso comer a poltrona.

Já contei para vocês que um vizinho tem um porco de estimação. Quase peguei uma pipoca para assistir ao bate-boca entre o dono do porco e o dono de um galgo que achou um absurdo ser obrigado a dividir o espaço com o pré-bacon e partiu para cima com direito a latidos e ameaças de mordida. Grunhidos, rosnados e patadas para todo lado. O galgo e o porco se mantiveram calmos o tempo todo.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho