Feriadão e eu aqui na praia, sentado, observando as pessoas, curtindo o sol, mar, a vida vindo em ondas. Gente de todo tipo, gostoso ficar bem acomodado, sentindo o vento gelado no peito, fim de inverno, véspera de primavera. Na falta de um bom mergulho, a temperatura da água não se mostra amistosa, o jeito é entrar em comunhão com a natureza, olhar o horizonte e, voyeur, escutar o que dizem. E como tenho ouvidos de tuberculoso, acompanho com muita eficiência a sabedoria em volta.
As praias já não são as mesmas. Viraram espécie de praça de alimentação coberta de areia. Vende-se comida para os mais variados paladares. No meu tempo, sorvete era Kibon. Agora carrinhos de cores diversas oferecem produtos diferenciados, picolés de frutas exóticas. E como gosto de novidade, saboreio de cara um de tamarindo, outro de mangaba e mato a saudade do de umbu, dos meus tempos de férias em Salvador. E quem não quer engordar pode escolher os com baixo teor de calorias, adoçados com sucralose. Além dos gelados, temos pastéis, empadas, salgadinhos, milho cozido, churrasquinho, sanduÃches naturais, espetinhos de camarão, de queijo coalho. Muita gente traz de casa caixas térmicas grandes, sofisticadas, com refrigerantes, cervejas e destilados variados: da cachaça ao uÃsque.
Um espetáculo à parte são as barracas. Enormes, engenhosas, são facilmente montadas e acomodam famÃlias numerosas. Chega-se de manhã cedinho, passa-se o dia ao ar livre, vai-se embora quando o sol se põe.
Atrás de mim, como disse, gosto de ouvir a conversa dos outros, um pai conversa com o filho. Carinhoso, fala da BÃblia, repete alguns salmos de memória, orienta o garoto, colocando-o no bom caminho. A lógica é simples e me comove. Existem apenas duas estradas: a do bem e a do mal. A gente tem que se manter na do bem. Rezar muito, ir à missa, louvar o Pai, manter-se com os pensamentos elevados. Explica, explica, busca exemplos. O aprendiz, observo o menino de soslaio, e ele mantém os olhos muito arregalados e atentos, visivelmente não se dá conta do amontoado de sofismas. Melhor assim. Seguirá feliz, crédulo e simples, abençoado pelo amor do adulto ali presente. É o que espero, embora não acredite em milagres.
À minha frente, um pouco mais à esquerda, um senhor e um homem moreno, cerca de trinta anos, cabeça totalmente raspada, calva lustrosa, competem no duro ofÃcio de ver quem bebe mais. Chegaram acompanhados por mocinha que estendeu uma canga e preocupou-se imediatamente em dourar o corpo, esticada sobre o pano colorido, além de um rapaz que foi jogar bola. Abriram o cooler, pegaram uma garrafa de gim, dois copinhos pequenos e já estão na metade dela. Enchem até a boca o pequeno recipiente e viram de uma só vez, fazendo caretas. E conversam. Falam de uma tal Sandra e da capacidade que a moça tem de aguentar bebida. O mais jovem conta que, da última vez em que a encontrou, continuou bebendo e não desistiu só para não dar o braço a torcer. Entusiasmam-se com as proezas etÃlicas da moça, riem já bastante alterados, o álcool ali disponÃvel é assunto.
Mais à direita, um rapazinho chega e mostra o tornozelo para a mãe. Levou um chute. Ela apalpa e ele geme dengoso. Procura alguma coisa em uma bolsa e acha. Veste então um roupão atoalhado, reclamando que está com frio. E não mais se retira. Permanece sentado ao lado da famÃlia, debaixo do enorme toldo azul que protege todos. Não desprega os olhos da proteção materna. Quando suja as mãos de areia, faz uma careta enojada, pega uma garrafa de água com a ponta dos dedos e se lava.
Na mesma diagonal, logo mais adiante do oásis do rapazinho afetado, a cena é, no mÃnimo, curiosa. Um senhor barrigudo de óculos, camiseta enrolada na cabeça, ajoelha-se ao lado da mulher. Presumo que seja realmente a mulher dele. Ela dorme de bruços sobre uma esteira, bronzeia-se. Ajeitando-se de maneira desengonçada, o peso da barriga desequilibrando-o, o homem pega um tubo de protetor solar e joga o lÃquido cuidadosamente sobre a dorminhoca. E então espalha com as mãos o conteúdo no corpo estendido no chão. As mãos parecem sentir enorme prazer em percorrer o percurso das curvas ali distraÃdas. Em alguns momentos, elas avançam para locais mais protegidos, totalmente alheios ao alcance dos raios ultravioletas. A mulher se assusta, estremece, reclama, erguendo-se sobre os cotovelos, olha para trás. Ele ri, perde o equilÃbrio, caindo de lado, escapa dali, foge, interrompe o ritual. Para mais tarde voltar, obsessivo, e retomar a operação. Novamente espalhar, agachado, o lÃquido branco sobre o traseiro feminino, repetir a invasão lasciva, retirar-se moleque, travesso, dando risada.
Permaneço por ali muito tempo, as informações visuais e em forma de ruÃdos dominando meus sentidos. DistraÃdo, nem vejo o tempo passar. Uma pipa faz uma sombra escura no chão e me inquieto com minha própria imobilidade. Meu voo é solitário, diferente do morcego negro transformado em brinquedo que tremula no céu. Submetido à vontade do vendedor que o conduz, de certa forma o quadrado se exibe, fala com todo mundo, triunfa quando mergulha e passa a impressão de que irá se esborrachar em algum castelo de areia, para em seguida erguer-se e atirar-se voluntarioso novamente em aclive, perseguindo a nuvem que escureceu um pouco tudo ao redor. Talvez seja hora de voltar para casa. Há um livro me aguardando na varanda que avista o mar. Mas então um casal de japoneses chega e ocupa um espaço tão próximo de mim que sou obrigado a esperar mais um pouco. Talvez exista alguma história por ali. Terão trazido sushis?