São sete da manhã e acabo de entrar no supermercado. Para ser exata, são sete e cinco. Empurro um carrinho gigante de plástico vermelho na direção do refrigerador onde fica a manteiga. “Seis tabletes com sal” me pede a lista que carrego comigo. Puxo a porta embaçada, comparo o preço de duas marcas já testadas e pego seis tabletes enquanto questiono mentalmente o projeto arquitetônico que coloca produtos de geladeira perto da entrada, e não da saída, como eu faria se fosse a arquiteta.
Os corredores a serem percorridos estão vazios; há pouca gente circulando a essa hora, me animo com a perspectiva de me livrar da tarefa doméstica em pouco tempo. Noto que não há iogurte na lista; devo ter esquecido de incluir. Deslizo as rodinhas do carrinho até o refrigerador onde são exibidos os pequenos potes azuis com a palavra “desnatado” em letra cursiva verde. “Leite” é o próximo item da lista, e talvez seja aí que comece esta crônica.
Ao ler a palavra “Leite”, escrita no bloco de notas do meu celular, lembro, por alguma razão, do vídeo de Michelle, divulgado em 24 de junho último, dia em que o Brasil enfrentou a Escócia. Leite e Escócia: deve ter sido essa combinação que me fez chegar a Macbeth. Mais precisamente, à Lady Macbeth, a personagem que sempre me impressionou. Foi ela que me veio à cabeça ao relembrar o tal vídeo.
Uma amiga me avisara que isso ia acontecer: o mesmíssimo fenômeno tinha se passado com ela e era, inclusive, um problema na vida de uma pessoa — ao estudar as peças de Shakespeare, passamos a enxergar seus personagens vagando por aí. Eles estão em toda parte, personificados em quem a gente menos espera. Não é que ela tinha razão?
Li Macbeth ao longo do primeiro semestre de 2024, num grupo de estudo. Antes disso, assistira ao filme de Joel Cohen, de 2021, e uma encenação no Tablado, acho que no fim dos anos 1980. As falas de Lady Macbeth sempre me impactaram.
(…) Vinde, espíritos
Das ideias mortais; tirai-me o sexo:
Inundai-me, dos pés até a coroa,
De vil crueldade. Dai-me o sangue grosso
Que impede e corta o acesso do remorso;
Não me visitem culpas naturais
Para abalar meu sórdido propósito,
Ou me fazer pensar nas consequências;
Tornai, neste meu seio de mulher,
Meu leite em fel, espíritos mortíferos!
(Ato I, cena V, tradução de Barbara Heliodora)
Lady Macbeth é uma mulher ambiciosa, alter ego e cúmplice do marido criminoso, dominado e destruído pela ambição que o leva ao trono.
Pego doze litros de leite e os coloco dentro do carrinho vermelho. Faço duas fileiras de seis e sigo para a seção de produtos de limpeza. Enquanto isso, Lady Macbeth pede aos espíritos que lhe tirem o sexo, lhe deem um novo sangue, transformem seu leite em veneno. Deseja ser tão cruel quanto um homem, não sentir remorso, matar, tomar o poder. Para tanto, para a execução do seu “sórdido propósito”, precisa se desvencilhar de seus atributos femininos; é imperativo deixar de ser mulher: “unsex me”, diz ela.
Michelle, nossa versão mal-acabada da personagem de Shakespeare, não foi tão ousada. Segundo ela, “pintou o Brasil de rosa” e, cumprindo a missão dada a ela pelo Galego, se preocupa com o grande exército das mulheres de bem. Por outro lado, na adaptação tosca da peça à qual temos sido submetidos, nossa versão simplificada de Lady Macbeth inova: com o marido preso na torre, o plano é que ela seja a rainha.
A ex-primeira-dama supõe que “a verdade vai iluminar o que foi escondido na escuridão das notícias falsas”. Tenho minhas dúvidas. Não sei se foi impressão minha, mas achei o vídeo mal iluminado, escuro e sombrio e isso me levou de volta ao castelo escocês, à progressão do mal desenhada pelo enredo e à fala das três bruxas, logo no início: “Bom é mau e mau é bom” (na tradução da Barbara Heliodora) ou “O Bom, o Mal — é tudo igual” (na tradução de Manuel Bandeira). Faltou bordar essa frase na camisa que compôs o figurino de Michelle ou, quem sabe, incluí-la num estandarte ornamentando o cenário elaborado para a gravação.
Passo pelos produtos de higiene, escolho alguns sabonetes pensando no delírio final da senhora Macbeth ao enxergar manchas de sangue nas mãos, das quais, para seu desespero, não consegue se livrar. “O que está feito não pode ser desfeito.” Chego, enfim, à prateleira do Omo Multiação. Na lista, há também Olla, Coquel e Vanish. O pensamento voa. Enquanto retiro os produtos das prateleiras, prestes a concluir a compra, já próxima do caixa, me dou conta de que a equipe da ex-primeira-dama deve ter se atrapalhado na pós-produção e acabou esquecendo de divulgar o título do filminho: Aqui se lava roupa suja.