Ana Luisa

Retrato afetivo de uma mãe fora do padrão, luminosa e contraditória, cuja presença ensinou à filha a delicadeza do amor
Ilustração: Kleverson Mariano
15/05/2026

MUERTE. Diziam as letras vermelhas pintadas na faixa. A faixa que ela produzira. Um pedaço de tecido e tinta vermelha. Um pedaço de tecido branco, largo, comprido, tinta vermelho-sangue, dois cabos de vassoura. Um deles ela segurava firme em 26 de junho de 1968.

MUERTE, lia-se na faixa, empunhada por ela na Passeata dos Cem Mil.

Meu pai contava, achando graça, que o Nelson Rodrigues escrevera no jornal: “Tinha um padre espanhol infiltrado na passeata”. Que nada. Era minha mãe.

Ana Luisa nunca foi uma mãe padrão. Ou a mãe que eu idealizava em criança. Primeiro, o trabalho; depois, meu pai; depois, os cuidados com a beleza e, então, as duas filhas. Era assim e pronto. Lidávamos com isso. Mas filho, como se sabe, quer atenção. De preferência, exclusiva.

Então, quando ela saía do trabalho para me maquiar para as festas juninas da escola, fazendo pintinhas com o lápis de olho nas minhas bochechas, passando sombra azul sobre as minhas pálpebras, provocando uma espécie de cosquinha após ter feito duas tranças simétricas separadas por um repartido perfeito, eu tinha certeza: aquele era um dos melhores dias do ano.

Um sentimento parecido me invadia quando íamos à costureira tirar as medidas para as fantasias de carnaval desenhadas por ela. O ano era marcado por esses momentos em que ela estava ao meu lado. Do jeito que eu queria.

Como na Páscoa e no Natal. Na Páscoa, escondia ovos de todos os tamanhos e sabores pela casa. Ovinhos em pequenos ninhos, balas e marzipans embrulhados em papel colorido, tudo para a caça que eu e minha irmã — dentro do nosso apartamento — encarávamos como se desbravássemos a floresta amazônica. No Natal, para nossa enorme frustração, não havia árvore — ela achava careta —, mas, em compensação, cobria o chão do nosso quarto com uma quantidade de presentes impensável hoje em dia. Esperávamos o ano todo pela emoção do dia 25.

Toda noite, antes de dormir, vinha ao nosso quarto, me dava um beijo e cobria meu braço esquerdo com o lençol. A memória desse gesto me traz a sua exata sensação: o sono ainda leve, consciente da sua presença; eu, que gostava de dormir com o braço para fora do lençol, me deixava cobrir por aquele manto de proteção materna e, só então, embarcava no sono.

Ela dirá que é folclore, mas é a mais pura verdade: durante grande parte da nossa adolescência, ela não se preocupava em ter comida em casa nos fins de semana. Esquecia, não se organizava para isso. Faríamos um sanduíche, um ovo mexido e pronto. Tudo resolvido. “Come uma banana”, ela dizia.

Ainda assim, não me cansava de admirar aquela mãe. Não cansei até hoje. De vez em quando, à tarde, abria seu armário e sentia seu perfume, impregnado nas roupas, uma mais linda que a outra, todas objeto do meu desejo.

Ana Luisa é como a primavera: faz florescer tudo à sua volta. Me ensinou a amar. E não sei se pode haver algo mais bonito do que isso.

Clarisse Escorel

É escritora, advogada e especialista em Propriedade Intelectual e Direitos Autorais. Estreou na literatura em 2023 com o livro de crônicas Depois da chuva (Ouro sobre Azul). Vive no Rio de Janeiro (RJ).

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