Frugalidade da crônica para quem?

A dificuldade de escrever sobre temas frugais enquanto temos Vini Jr. sozinho numa entrevista, como se precisasse se defender por ser alvo de racismo, como se tivesse culpa
Ilustração: FP Rodrigues
29/03/2024

Xico, velho mestre, nesse périplo semanal como cronista, entre prazos apertados de entrega, temas diversos que dificultam a escolha, e dezenas de outras demandas, é frequente me lembrar de ti, meu mais admirado companheiro de ofício.

Às vezes escrevo sobre assuntos frugais que, como muitos dizem, constituem o fulcro da crônica, um passarinhar pelos dias ao sabor das belezas, alegrias, comicidades, da brisa sem turbulências, talvez, apenas pontilhada pelo inusitado de uma tristeza ou outro afeto mais denso que nos faça derramar o coração. Quando componho esse tipo de texto, a moçada leitora festeja, elogia, pede mais. Eu quero atender, meu amigo, quero muito, mas a notícia que sintetiza o bafo do dia tem o mau hálito do racismo e seus modos insidiosos de operar.

Em certos momentos cedo à necessidade de respirar e me deixo levar pelas crônicas leves, mas não sem culpa, confesso, como se o mundo estivesse pegando fogo e eu me escondesse na placidez das águas de uma piscina.

É tanta coisa que não nos deixa viver, Xico, assim, uma experiência humana, como quem veio ao mundo para desfrutar a existência, sabe? Esse negócio de felicidade guerreira é acachapante, mas é um fardo que a gente negra não consegue deixar para trás. Porque, afinal, não se trata de desejar ou não o abandonar, mas de entender a necessidade de lutar contra o racismo para existir como ser humano. Louco isso, não é? Mais insano é pensar que esta prática insidiosa não é considerada um problema da humanidade, é algo que tem se restringido, efetivamente, à preocupação dos alvos do racismo.

De certo, viste o Vini Jr. numa entrevista coletiva depois de sofrer mais um ataque racista por parte de uma torcida de futebol adversária, na Espanha. Sozinho, acuado por câmeras, microfones, jornalistas brancos, perguntas e contextos que queriam mesmo que ele chorasse, pois o choro de alguém vitimizado arranca aplausos dos que se reservam o direito de não saber o que fazer diante da iniquidade. Palmas às lágrimas, nesses casos, alavancam a audiência e amenizam a culpa branca dos brancos solidários que terão assunto para a mesa de bar, talvez até para o almoço familiar no domingo. Deixaram o Vini ali, abandonado, como se precisasse se defender por ser alvo de racismo, como se tivesse alguma culpa por isso, como se enfrentasse uma questão individual e privada.

O máximo que os dirigentes da seleção brasileira conseguem é se mostrar consternados, longe do atleta, protegidos em outros ambientes, porque eles podem se dar ao luxo de apenas sentir, de se irmanarem na comercialização da dor de um jovem negro heroicizado, de lamentarem que o mundo seja cruel e que “pessoas malvadas” existam. Podem ficar de conversinha para boi dormir, podem se enganar e a nós também.

Estamos por nossa própria conta e a frugalidade na vida não tem sido nossa companheira, meu cronista. Se não formos nós a zelar pela saúde mental de nossos meninos, ninguém se importará com eles. Os tiros e granadas vêm de todos os lados.

Veja só, Xico, antes de fechar esta crônica, sou informada de que uma proto-celebridade branca de reality show, aquela que se recusava a limpar a casa aberta onde vivia, uma figura sem qualquer apelo magnético, digamos assim, já que as qualificações profissionais não são mesmo exigidas às pessoas dos grupos raciais hegemônicos, aquelas que conseguem o prodígio de não gerar rejeição pública, mesmo quando intragáveis, soube que ela foi premiada com a condução de um programa de “moda e comportamento” num canal de televisão.

No dia anterior, a coleguinha negra que a defendia na trama foi eliminada de um paredão com três outros concorrentes, registrando a bagatela de 88% de rejeição, ou seja, de cada 100 votantes, 88 votaram pela sua eliminação e 12 votos foram distribuídos entre os demais candidatos. É muito barulho para fundir minha cabeça.

Imagina se a eliminada negra pedisse emprego para a coleguinha branca, âncora do novo programa? Deixo o desenho dos possíveis cenários a cargo da criatividade do pessoal que me lê, mas arrisco uma resposta: “Ai, amiga, eu queria muito, seria um ponto no quesito da representatividade, né? Mas o racismo estrutural, você sabe, e eu não tenho lugar de fala, portanto, não vai dar, mas fique firme na sua luta, te admiro demais, você vai conseguir. Sua hora vai chegar”.

Cidinha da Silva

É escritora e doutora em Difusão do Conhecimento. Publicou 21 livros, dentre eles, os premiados Um Exu em Nova York e O mar de Manu.

Rascunho