Uma cena recorrente no imaginário coletivo quando falamos de prisões é o sujeito marcando na parede os dias passados, para não perder a noção do tempo. Uma cena recorrente no cansaço de professores é essa imagem sendo mencionada quando falamos do final de semestre se aproximando. A primeira metade de 2026, para mim, está durando algo próximo a uma graduação em medicina. Estou mais ou menos desde março fazendo risquinhos na parede.
Quando eu tinha 12 anos e já fazia uns freelas por aí, achava que aos 55 (hoje) estaria aposentada. Me venderam a falácia do tempo de serviço. Mal sabia eu que seria atropelada por um ônibus chamado América Latina e que estaria, com otimismo, fazendo planos de parar de trabalhar aos 70.
Isso dito, preciso confessar que não tenho paciência para velhices. Veja, é diferente de velhinhos. Velhinhos são legais, divertidos, têm muito a ensinar e, na maioria dos casos, são totalmente good vibes. Falo de velhices, algo que pode acontecer em qualquer idade cronológica. Sabe aquele cara ranzinza que fala mal das novas gerações, sendo, bem, de uma nova geração? Esse cara. Não tenho paciência pra esse cara. Para o sujeito que fala de “postura” no auge dos seus 18, 19 anos de idade. Sinceramente. O sujeito anda de bermuda e crocs e quer me falar sobre postura? Esse cara. Sinceramente, espero que receba de volta, em dobro, a ânsia de vômito que causa no mundo. Desperdício de oxigênio.
Eu gostaria de ser megafamosa e importante um dia na vida. E meus motivos todos, de qualquer ângulo, em qualquer narrativa, se resumem a: vingança. Vou amar se puder, em algum momento, recusar um convite qualquer assim: puxa, não vou, porque, quando você me chamou de funcionária do seu filho por ser professora, não fui convidada sequer para festa de aniversário no McDonald’s, então, não, agora a senhora pode enfiar o seu convite no lugar de onde obviamente brota a sua consciência de mundo e respeito pelos outros. Juro. Um dia, um dia, vou responder a um convite social assim. Me aguardem. Talvez eu seja presa, mas vai valer a pena.
O que me lembra de uma desagradável senhora no salão. Gente, salão é a porta do inferno. Essa senhora, com aquele cheiro de old money, joias, roupa de grife, salto alto etc., diz para uma manicure que ela cobra muito caro e que quer um desconto. É o equivalente mais vil ainda do trabalho por divulgação. Vinte e cinco reais. Era isso que a mulher com uma bolsa Louis Vuitton queria negociar. Alguém dê um Nobel da Paz para essa manicure, porque, se fosse eu ali, tinha perdido o réu primário.
É muito fácil ser rico. Não fácil no sentido de se tornar rico, mas no sentido de viver rico. Paga menos imposto; gasta menos com transporte (insira aqui a relação transporte público/carro, carro comum/carro elétrico, tanto faz); mora bem e, portanto, gasta menos para dar conta do que precisa etc. E, claro, reclama do preço de serviços como manicure.
Meus planos de velhice — sim, engraçadinho, eu sei que já sou velha, me deixa — incluem estragar futuros e possíveis netos, sejam eles humanos ou não, tô de boas; usar vestidos feitos com a pele extirpada de uma cortina de banheiro (® Bruno Gaspar); viver com uma quantidade maior de quadrúpedes do que seria recomendado para o espaço disponível; ser rica a ponto de reclamar do preço da manicure.