A casa que anda

Na casa andante de Silvio Alves, um mestre sem doutrina, a instabilidade vira método, consolo e um caminho para escapar das certezas e do senso comum
Ilustração: Denise Gonçalves
01/10/2026

Nas horas mais graves, quando a realidade me parece intolerável, trato de embarcar em um ônibus da linha 371, que liga o centro do Rio de Janeiro ao subúrbio de Cascadura. Viajo em busca de meu mestre. Na rua Cerqueira Daltro, procuro a casa de Silvio Alves, a única que não tem um número e que, portanto, pode estar em qualquer lugar. Sem nunca saber em qual quarteirão irá encontrá-la, meu mestre costuma dizer que habita uma casa que anda. Nos fins de tarde, quando volta de seus serviços secretos em Jacarepaguá, muitas vezes nem ele sabe onde mora.

É tudo incerto e precário na vida de Silvio Alves, a começar pelos serviços que ele presta na Taquara. Talvez não seja na Taquara, mas no Anil. Dizem que é borracheiro, mas suas mãos de seda desmentem isso. Há a versão de que é pastor evangélico, mas nunca foi visto em um templo. Outros dizem que Silvio Alves é só um delegado aposentado e distraído. Não faltam rumores e conjecturas, e todos eles se desmentem e se desviam, de modo que prefiro tratá-lo apenas como o mestre que é. Meu mestre — eu encho a boca para dizer, até que me engasgo.

Talvez seja desses deslocamentos e imprecisões, desses insistentes desvios de rumo e de função que Silvio Alves retira sua força. Eu ia escrever “força espiritual”, mas estaria mentindo. Ele não tem relação alguma com espíritos. Além de ateu, define-se como “um matemático”. Talvez nunca tenha estudado matemática, mas isso não importa: a palavra lhe serve, pois fala de seu gosto pela precisão. Em contraste com a vida oscilante, o mito do homem rigoroso o consola. Entendam bem: meu mestre largou o ginásio pelo meio. Desde então, sua formação é confusa. Nada de diplomas ou atestados. A cada momento em que ele parece ser alguém, já é outro.

Essas transformações, fortuitas e espantosas, consolidam sua fama de mestre. “Ele é capaz de tudo”, dizem, mais uma vez de forma obscura, porque isso não significa que ele seja capaz de qualquer coisa; ao contrário, dele se deve esperar só o melhor, nunca o pior. Vocês se perguntam então: por que eu o procuro? E mais ainda: por que afirmo sua posição de mestre? É justamente porque ele nada tem a me dizer e nada tem a me ensinar que eu sigo os passos de Silvio Alves. Estou cansado de conselheiros e de mentores. Não preciso de fundamentos ou de doutrinas. Preciso de uma perna torta, que me desvie do bom senso, e Silvio Alves é minha perna torta.

Agora mesmo, enquanto subo a rua Cerqueira Daltro em busca de sua casa andante, avanço abatido, sem expectativas e sem convicções. O que espero de Silvio Alves? Nada espero e, por isso, seja o que for que ele me der me servirá. Já foram tantas as suas identidades e famas que, a rigor, não é só sua casa que desliza, seu próprio rosto se desfigura. Em vez de um semblante, exibe só uma reunião de traços. Suas sobrancelhas não combinam, os dois lados da face não se encaixam, os bigodes, finos de um lado, do outro lembram uma piaçaba. Por isso estranham que eu deposite tanta confiança em alguém que nunca sabemos quem chega a ser.

Há um professor em Cascadura, certo Barsetti, que prefere chamá-lo de Samsa. A referência a Kafka é injusta. É verdade que Gregor Samsa, um caixeiro-viajante habituado a estar em trânsito, acaba por se transformar em um inseto. Mas depois disso não sofre novas metamorfoses; inseto ele permanece até morrer. Já no caso de meu mestre, não se pode falar em uma metamorfose, mas em um desfiladeiro de transfigurações, que não se excluem, mas, ao contrário, convivem entre si. Ele não é um rapaz que se transformou em uma barata; ele é um alterado, alguém que não para de se transmutar. A metamorfose de Samsa o leva à morte; as transfigurações de meu mestre, ao contrário, promovem a vida.

Estou farto das coisas que não mudam de lugar e dos esquemas que se repetem. Todas as vezes em que confiei em um papel, um script, uma teoria, uma bula, um sistema, a imobilidade me levou ao desastre. Foi por isso que, no dia em que conheci Silvio Alves em um café da rua Cameta, logo compreendi que deveria segui-lo. “O senhor quem é?” — ele me perguntou quando entrei. “O senhor espera por alguém?” — reagi. Me disse que não esperava por ninguém e que, justamente por isso, minha chegada era bem-vinda. Ofereceu-me uma cadeira que, além de torta, estava bamba. Sentei-me, já com vontade de me levantar. “Acho que vou indo”, eu disse. “O senhor é dos meus. Nunca sabe onde está.”

Ali me tornei seguidor de um homem sem face. Seguidor de um mestre, portanto, que não se deixa seguir. Os senhores podem imaginar a minha desolação: será possível me tornar discípulo de uma sombra? De um reflexo? De um mal-entendido? Ele pode estar em Madureira, ou em Mangaratiba, ou na rua Barata Ribeiro, ou em Coelho Neto. Pode não estar em nenhum desses lugares ou declarar que está em todos e isso será igualmente verdadeiro.

Naquele dia, bebemos até tarde. Caiu uma tempestade e a rua Cameta logo se transformou em uma cachoeira. “Aí está”, ele me disse todo feliz. “De tarde uma rua, à noite uma queda d’água!” Não tinha como desmenti-lo. Senti, então, o mesmo calafrio dos condenados. É preciso admitir, no entanto, que há uma beleza e até uma pureza nessa oscilação. Os crédulos jamais o seguirão. Os confiantes também não. A beleza não está em uma flor em seu galho, ou em uma estrela em sua constelação, ou mesmo em um pássaro em seu ninho. Tudo isso, sempre enquadrado em molduras de ouro, é a negação do belo. Tudo isso está morto, mas o belo está vivo e não se deixa capturar.

Não digo que Silvio Alves seja um homem imponente ou sedutor. Não é. É baixinho, curvo, apoia-se com relutância em uma bengala, não apara a barba, tem nariz de camundongo. É desleixado e descabelado. Bonito não é, mas é assombroso. Justamente porque é desregrado, chama a atenção. É porque é caótico que conserva alguma estabilidade. A estabilidade do instável, daquilo que sempre oscila e parece à beira de se derramar. A estabilidade do susto o define. É só encontrá-lo em sua casa que eu já me sinto melhor. Não sei por que me sinto melhor, mas, já que me sinto melhor, isso é o que menos importa.

José Castello

É escritor e jornalista. Autor do romance Ribamar, entre outros livros.

Rascunho