Os formatos da crítica

A crítica literária assume formatos distintos conforme seus espaços de circulação, da resenha jornalística aos estudos produzidos na universidade
Antonio Candido, autor de “Literatura e sociedade”
01/10/2026

A crítica não é uma atividade de criação, mas de reflexão. Ela não é um gênero literário, mas um gênero textual. E, como tal, tem os seus formatos. Platão propõe que a literatura deve ter uma função política, ética. Para ele, vale o teor, a mensagem. Se Platão se preocupa com o conteúdo, Aristóteles tem em mente a forma. A Poética é uma obra que se preocupa em descrever (e o debate pode até levar a entendê-la como uma obra que prescreve) a estrutura da tragédia e da epopeia. Se pensarmos no método crítico de Antonio Candido (exposto especialmente no ensaio “Crítica e sociologia”, do livro Literatura e sociedade), ele tem como base, além de autores do século 20 que se orientaram pelas relações entre literatura e sociedade, Platão e Aristóteles. Para Candido, o social e o psíquico são agentes (“e isto permite alinhá-los entre os fatores estéticos”) da estrutura da obra. Diz ele, comparando sociologia da literatura e crítica literária: a sociologia da literatura “ocupa-se dos fatores externos e não propõe a questão do valor da obra, interessando-se por tudo que é condicionamento [social]. Cabe-lhe, por exemplo, pesquisar a voga de um livro, a preferência estatística por um gênero, o gosto das classes, a origem social dos autores, a relação entre as obras e as ideias, a influência da organização social, econômica e política, etc.”; já a crítica literária é levada “a analisar a intimidade das obras, e o que interessa é averiguar que fatores atuam na organização interna, de maneira a constituir uma estrutura peculiar”. No que diz respeito à crítica como gênero textual, importa verificar os formatos com os quais ela opera. A crítica jornalística tem como principal formato a resenha. Já a crítica universitária (no sentido amplo, de todo e qualquer estudo acadêmico), além da resenha e do livro, tem como formatos a monografia (que, com leves adaptações, é a base do artigo ou do ensaio acadêmico), o TCC, a dissertação de mestrado e a tese de doutorado. A resenha acadêmica pode ser produzida em torno de um romance, de um livro de contos ou de uma obra da dramaturgia. Pode abordar/interpretar isoladamente um poema, um conto, uma crônica. Ela se constitui, basicamente, de uma apresentação geral do teor da obra (quando tem como objeto um livro) e de comentários interpretativos de alguns aspectos da obra que o autor da resenha destaca ou privilegia. Já quando a resenha é sobre uma obra isolada (poema, conto, crônica) ela pode atenuar os detalhes da apresentação geral do livro e do autor, e até prescindir dessa apresentação, e se ater à obra em si. Na abordagem da obra, nos vários formatos acadêmicos, são necessárias ainda uma base de teoria e outra de história literária. Valem também as relações interdisciplinares — os campos teóricos com os quais o estudioso dialoga para dar suporte à sua análise/interpretação.

Rinaldo de Fernandes

É escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba. Autor de O perfume de Roberta, entre outros.

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