Batom vermelho

Herança feminista e inabilidade estética se cruzam numa vida intensa, onde desejar tudo é um ato de liberdade
Ilustração: Bianca Rivetti Burattini
30/04/2026

Tive uma mãe feminista. Feminazi. Emancipada. Girl power. You go, girl.

O que significa uma educação fantástica, exceto nos aspectos menininhas da vida. Fui aprender (mais ou menos) a usar batom com 30. Rímel, com 40. Delineador, ainda em implementação.

No meu aniversário de 55, Fedora, uma amiga querida de longa data, me deu um óleo de cabelo. Fedora está ciente, há décadas, sobre a minha incompetência nesses assuntos. Gentil, tenta me ajudar.

O conceito de um óleo no cabelo já me era um tanto estranho. Por confiança na amiga, experimentei. Claro, inicialmente usei errado, e o cabelo ficou parecendo uma chapa de padaria no final do dia. Eventualmente, entendi o que fazer. E, gente, deixa eu contar uma coisa para vocês: o treco é milagroso.

Li Judith Butler com 19 anos e conheci o corretivo de olheiras aos 35. Minha vida é interessante, mas nem um pouco coerente. Ou prática.

Cresci ouvindo sobre Rose Marie Muraro e precisei googlar, décadas depois, o que era um Balenciaga. Tenho dificuldades sociais que vocês nem imaginam.

Tenho minha mãe a culpar. Lembro de uma vez, eu já mestre da arte do batom vermelho-sangue-hemorragia, tentando (em vão) convencê-la a passar um batonzinho para não parecer um fantasma numa entrevista qualquer. Fui chamada de perua. Por um batom. Perua.

Desde então, o batom vermelho virou minha marca registrada. Tanto por birra quanto por não saber colocar nada além disso. Ser capaz de aplicar um delineador reto deveria contar como uma publicação A1 no Lattes. Maquiagem, mais um dos meus muitos fracassos.

Tem uma cena no filme O Bandido da Luz Vermelha (1968), do Rogério Sganzerla, em que o diálogo é mais ou menos assim:

— O que você quer da vida?

— Da vida, não quero nada.

Aprendi com essa mulher muito louca, odiadora de batons, que, da vida, a gente quer tudo.

A gente quer afetos, amigos, amor, arte, companhia, descanso, dinheiro, emprego, família, filho, literatura, música, ócio e negócio, praia, prazeres, reconhecimento, respeito, saúde, sexo, trabalho.

Em qualquer ordem, não importa.

Aprendi também que esse desejo de vida apavora muita gente.

Desejar é uma forma de dança.

Dança liberta e, portanto, é perigosíssimo.

Filho, 50% sacanagem e 50% curiosidade histórica, coloca Conga, Conga, Conga, no Spotify.

Revido com Ragatanga.

Em pleno 2026, os dois patetas, mãe e filho, dançam em uma sala vazia, sob o olhar repressor e recriminador de doze patas. Nina Simone, Verônica e Frederico nos observam como se a nossa internação no manicômio fosse certa.

Tenho um aniversário à noite. Irei, obviamente, de batom vermelho.

A vida é grande demais para caber em uma caixinha.

Ou no Lattes.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho