O homem que botou lobisomem para falar português

Na obra de José Cândido de Carvalho, tudo transita em perfeita ordem de desordem, como procissão organizada por enxame de marimbondos
José Cândido de Carvalho, autor de “O coronel e o lobisomem”
17/06/2026

A bem da verdade, e sem que nisso vá qualquer exageração de minha parte, José Cândido de Carvalho foi sujeito de raro aparecimento, desses que o mundo fabrica num descuido de oficina e depois passa séculos tentando repetir o receituário.

Conheci o mestre pelas suas próprias páginas, que é modo de conhecimento mais seguro do que certas amizades de aperto de mão e dívida aprazada. Cidadão de pena afiada e imaginação de criar sombra em parede ao meio-dia, pegou o idioma nacional pelo cangote e ensinou a língua a cantar, dançar e contar vantagem.

Muitos escritores escrevem livros. José Cândido, não. José Cândido soltava bichos. De um lado saía coronel. Do outro, lobisomem. Mais adiante aparecia uma assombração de respeito, seguida por um vereador de poucas letras e muita lábia. Tudo transitava em perfeita ordem de desordem, como procissão organizada por enxame de marimbondos.

Seu livro mais afamado, o monumental e desabusado O coronel e o lobisomem, não é romance de se ler. É de se morar dentro.

Quem abre aquelas páginas corre o risco de se meter com vícios graves: falar sozinho, desconfiar de quem anda de lua e aumentar histórias de pescaria em até quatrocentos por cento. Eu mesmo, depois da terceira leitura, jurei ter visto um saci requerendo licença municipal para exercício de traquinice. Felizmente, o caso não prosperou por falta de documentação juramentada.

O espantoso em José Cândido era o casamento impossível que realizava entre o envernizamento e o conversê de varanda. O homem escrevia como se Machado de Assis resolvesse criar bode em Campos dos Goytacazes e passasse as tardes proseando com caçador de visagem.

E que riqueza de palavras! Onde outros autores usavam uma expressão, ele convocava um batalhão inteirinho. Seus períodos chegavam montados a cavalo, de esporas tilintando, trazendo no detrás de si poeira, música, jactanciamento e uma ou outra mentira tão formosa que merecia reconhecimento oficial.

Era exorbitância da melhor qualidade, dessas que multiplicam a realidade até ela caber toda dentro da imaginação. Porque a verdade, quando aparece desacompanhada de fantasia, costuma vir de alpercatas e cara amarrada. Já a de José Cândido chegava escoltada de banda de música.

Por isso, o escritor ainda permanece um vivente. Não apenas nas estantes, que são uma espécie de cemitério pernóstico para autores esquecidos, mas na fala brasileira, esse imenso terreiro onde convivem doutores, vaqueiros, poetas, vendedores de joá e criaturas que juram ter parentesco com o boitatá.

Se me perguntam quem foi José Cândido de Carvalho, respondo sem vacilação:

— Foi o homem que ensinou o português a contar casos antes que eles acontecessem.

E digo e assevero: até hoje a língua não se recuperou desse encanto.

Carlos Castelo

É jornalista e escrevinhador. Cronista do Estadão, O Dia, e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo. É autor de 18 livros.

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