Abri aquele calhamaço com a confiança de quem já tinha sobrevivido a Proust e a duas temporadas de imposto de renda. Na primeira linha percebi que não estava lendo: estava sendo lido. O livro me examinava. Eu era o analfabeto experimental do Joyce.
Li a frase em silêncio. Não entendi. Li em voz alta. Continuei não entendendo, mas agora com sotaque. Minha esposa, da cozinha, perguntou se eu estava passando bem. Respondi que sim, mas não literariamente.
Decidi adotar um método mais científico. Peguei um lápis. Sublinhei palavras. Logo percebi que estava sublinhando tudo. Parecia um relatório do FBI. Em certo ponto comecei a suspeitar que o livro estava escrito em três línguas que não existem mais e duas que ainda não tinham sido inventadas.
Procurei ajuda na internet. Descobri fóruns com pessoas discutindo o livro há vinte anos. Nenhuma delas concordava entre si. Uma dizia que era sobre o sonho da humanidade. Outra dizia que era sobre a humanidade sonhando. Um terceiro afirmou que era sobre a queda do homem. Um quarto disse que não, que era sobre a queda de um pedreiro bêbado. Achei essa a interpretação mais edificante.
Resolvi ler em voz alta, como recomendam os especialistas. Aconteceu um fenômeno curioso: o texto começou a fazer sentido sonoro. Era como ouvir uma banda estrangeira. Você não entende a letra, mas balança a cabeça com convicção. Fiquei meia hora fazendo headbanging para os trocadilhos de Joyce. Minha esposa voltou e perguntou se eu estava bem. Disse que sim, que agora eu era bilíngue em ruído.
O problema é que o livro não avançava. Ou avançava em círculos. Eu lia dez páginas e sentia que tinha voltado ao início da frase anterior. É uma obra que desafia o conceito de progresso. É a esteira ergométrica das letras: você sua, se esforça e continua no mesmo lugar.
Tentei a leitura coletiva. Convidei dois amigos. Depois de quinze minutos, um foi fumar e não voltou mais. O outro começou a rir num ponto aleatório e declarou que finalmente tinha entendido. Não explicou o quê. Suspeito que enlouqueceu ali mesmo.
Persisti. Porque existe uma honra envolvida. Ninguém quer ser derrotado por um livro. Não quer que, na sua estante, ele fique olhando para você como um halter literário que você não consegue levantar. Continuei lendo por teimosia.
E então aconteceu. No meio de um parágrafo que parecia escrito por uma lava-louças em crise de identidade, senti prazer. Não compreensão, prazer. As palavras dançavam. O texto virou música. Joyce não queria que eu entendesse. Queria que eu escutasse.
Fechei o livro, vitorioso. Não por ter decifrado nada. Mas por ter sobrevivido à experiência sem precisar de atestado médico. Agora digo, com autoridade: li Finnegans Wake. Não sei do que se trata. Mas posso recomendar. É um MBA intensivo em humildade. E é ótimo para assustar visitas.