Roxo calmo, amarelo tranquilo

A lúdica aventura de escolher cores para pintar o muro e a casa por dentro, cujas paredes amanhecem e anoitecem direitinho
Ilustração: Marcelo Frazão
07/05/2024

Não sei qual é mais legal: observar os nomes que dão aos esmaltes de unha ou os que dão às tintas de pintar parede, ferro, carro ou madeira. Não sou tão boa em unhas quanto sou em alvenarias, mas lembro do delicado Renda e do voluptuoso Rebu, dos quais talvez eu só tenha, algum dia, usado o primeiro nas pontas dos dedos. Já das tintas de parede tenho muito mais lembranças. Já tive paredes Flamingo, Branco Neve, Branco Gelo, Areia e Amarelo Frevo. E não só. Azul Oceano, Cinza, Vermelho Segurança, Concreto, Castor, Verde Escolar, Alecrim, Preto Fosco, Pérola e Camurça. Não acabou, mas a lista não será exaustiva, a esta hora da madrugada, quando resolvi escrever minha crônica mensal. Sou careta nas cores, como se pode perceber, e o universo delas pode ser muito mais divertido e ousado.

Dois episódios me chamaram a este texto, ambos ligados às paredes, e bem distantes das unhas. Um foi com meu muro externo, esse que abraça minha casa, e que tem extensa área porque moro em esquina. Muro alto, com pingadeira inalcançável, cerca eletrificada lá nos píncaros, pintado pela primeira vez no distante ano de 2008, parcialmente grafitado uns poucos anos atrás, mas que precisava de retoque na parte que sobrou sem desenho. Resolvi dar o trato agora, em 2024, quando o ano começou e eu achei que renovar as cores ajudaria nas energias. A gente gosta de crer, na falta de outras coisas. E fui lá ter o prazer de escolher tintas, numa loja bem sortida.

Contratei o pintor, pessoa de grande confiança, e cheguei com o galão dentro do porta-malas. Na cabeça sempre vem a história que meu pai conta, de que certa vez carregou tinta no carro e a tampa se abriu. A tampa do galão. E o carro mudou de cor por dentro. Ou de outro episódio envolvendo meu irmão caçula parcialmente envernizado. Mas não haveria de acontecer comigo. Tomei todos os cuidados. Cheguei com a lata invicta, mostrei ao pintor: Vermelho. Ele torceu sutilmente o nariz. Mas Vermelho? Tem certeza? Porque poderia ficar “cheguei”. Bom, mas a tinta anterior não era muito mais discreta. Quando pintei, em 2008, escolhi uma cor chamada Castor, um marronzão forte, que fez o maior sucesso na vizinhança. Muro é vida. As pessoas tocavam a campainha para perguntar “que cor é esta do seu muro, moça?”, “é Castor!”. As pessoas imitam os muros umas das outras. E assim vivi de Castor até outro dia. O que passou a incomodar foi que o sol tratou de tornar o marrom em alaranjado, borrado, queimado, gasto, além de as intempéries lascarem a parte de baixo do muro, que ficou descascado e sujo. As coisas se deterioram, como sabemos, e o muro dá à casa certo ar de vetustez e até abandono. Não pode. Junta-se dinheiro, porque a coisa sai cara, e vamos nós trocar o Castor pelo Vermelho. O bom é que as cores mais básicas e clássicas não saem de catálogo, e às vezes nem de moda.

Com os passar das horas, e o trabalho do pintor, uma cor foi cobrindo a outra e as pessoas começaram a tocar a campainha novamente: “que cor é esta do seu muro, dona?”, “é Vermelho”. Mas não é desse vermelho Ferrari que a gente pensa quando pensa em vermelho. É fechado, elegante, sério. E dá muito certo em muros, como talvez não desse em outros cantos. Estamos nós de muro renovado, sem prejuízo do grafite, lá do outro lado, um santo protetor da pintura nova, porque esses artistas são respeitados nas redondezas e além.

Mas isso não fica por aí. Outro dia voltei a uma loja de tintas para comprar latas e galões, agora para paredes internas. Que trabalheira escolher entre aquelas centenas de cores semelhantes, algumas muito iguais às vizinhas, de maneira que eu chegava a duvidar dos meus olhos. Pensava, enquanto tentava escolher: “será que meu cachorro enxerga essa diferença?”. Porque eu certamente não enxergo. E topei com Chuva de Prata, Coala, Sol da Meia-Noite, Açúcar Queimado, Boneca de Pano, Acelga, Jacaré, Imensidão Azul, Esconderijo Misterioso (esta eu adorei), Fundo do Mar e centenas de outras que já se foram da minha memória, mas que causaram espécie quando li. E foi tão divertido, que comecei a ler o catálogo de cores como se fosse um livro de poemas: versos e mais versos ilustrados por uma nesga imprecisa de uma cor que, certamente, será outra na minha parede. Isso nunca é confiável demais.

Bem, perdendo tempo na loja e com a paciência já em frangalhos, resolvi abreviar. Já que meus olhos não distinguiam tantos tons e os nomes poéticos não me ajudavam muito, decidi confiar nos adjetivos e em seus possíveis efeitos. No final das contas, foram para o caixa comigo as cores Roxo Calmo e Amarelo Tranquilo, que se não combinarem nos tons, têm tudo a ver na semântica. Obviamente não as meti nos mesmos ambientes, mas posso afirmar, com o aval do pintor, que deram muito certo. Só não vou atender à campainha porque, afinal, a vizinhança não terá chance de vê-las.

Uma amiga, curiosa com minhas escolhas (de marcas diferentes), perguntou se Amarelo Tranquilo era tipo Amarelo Bebê. Não é, fui taxativa. Não é mesmo. Está mais para um amarelo macio, com jeito de nuvem e textura seca. Inexplicável. Mas é tranquilo mesmo na parede, só não entendi ainda se tranquiliza. O Roxo Calmo também é inexplicável, mas dá uns ares de cinza, às vezes, e outros de lilás, dependendo do horário. E se for para associar à poesia, lembrei de outra amiga que ama a Adélia Prado e tem até uns versos da poeta tatuados no braço. Lá no poema, a voz lírica diz que vivia em uma casa alaranjada que estava permanentemente amanhecendo. De cá, com minhas cores, resolvi que tenho umas paredes que amanhecem e outras que anoitecem, direitinho, bem adelianas, mas em outro fuso.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

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