Ouvir um livro

Bem-humorada, a autora comenta audiolivros, atenção dispersa e o jeito muito particular de cada leitor se aproximar das palavras
Ilustração: Kleverson Mariano
09/06/2026

Você ouve livros? Não tenho maturidade. Na verdade, sou ruim de atenção. Na escola, em quinze minutos, a voz da professora ou do professor já me parecia uma língua estranha, balbuciada. Meu negócio era ler, ler palavras num papel, acho que porque isso tinha alguma relação com a minha memória. Eu aprendia mais. Mas nem sempre é isso o que nos oferecem, e a gente passa a vida lutando contra um modo de fazer as coisas como todo mundo. Minha mãe já dizia: eu não sou todo mundo.

Tenho amigas que ouvem livros. Têm fones bacanas, que isolam ruído, não sei o quê, e compram livros que são oralizados, seja lá o que isso for. Elas dizem que é ótimo ouvir a história enquanto lavam a louça, arrumam as camas da galerinha, fazem a unha. Eu não tenho atenção para isso. Aliás, não ouço nem rádio. Ouvir um livro e escutar um podcast, para mim, são mais ou menos a mesma coisa. Não dou conta do falatório. Nos livros gravados, a coisa costuma ser mais organizada, às vezes até dramatizada. É interessante ouvir uma voz conhecida, por exemplo. Nos podcasts, por vezes, há um certo caos da conversação, quando ela é mesmo uma conversação. Mas aqueles meus quinze minutos continuam valendo. Quando percebo, já estão lá os balbucios.

No trânsito, ouço música. Mas sempre foi fita, CD, pendrive ou qualquer mídia que eu pudesse controlar, uma playlist que eu pudesse escolher. Nunca gostei da mistureba das rádios. Por vezes, até ouvia umas rádios “de velho”, como diziam meus amigos. Aquelas em que a locução é pontual e elegante, sem cortes ao final da canção, sem gritaria. Vai ver eu já era velha. Entro no carro, ligo o som, ponho para tocar minha listinha (que se repete e repete e repete) e sigo pela estrada afora. Só que acho que às vezes tudo também vira balbucio, língua estranha, exceto se eu resolver cantar junto. Aí eu até sei o que está acontecendo ou fico apenas sentindo um ruído de fundo, que pode até ser música boa. Mas falatório? Nem pensar. Não gosto nem quando estou dirigindo e possivelmente minha atenção está dividida com a treta que é transitar em Belo Horizonte, com tanto motorista agressivo e sem educação.

Minha amiga que mais ouve livros vive elogiando este e aquele. Eu acho interessante, mas me parece meio ininteligível. Me perdoem as empresas que vendem esses livros e o pessoal que defende o audiolivro e tal e coisa; é claro que tem consumidor para todas as modalidades, mas eu continuo ali na fila do livro de ler com os olhos. Pode até ser digital, tela etc., mas preciso que ele esteja escrito. Se estiver falado, me perco, devaneio, me desligo. Ademais, isso não é exatamente ler, sob nenhum ponto de vista modal. É ouvir. E sou ruim de ouvidos.

Sabe que às vezes preciso me segurar até para ler com os olhos? Acho que acontece a todo mundo (que lê). Começo a leitura, cerco ali as primeiras linhas, quando percebo… Estou voando, saí do texto, me distraí, não entendi nada, não sei nem qual é o assunto. Bora lá voltar à vaca fria. De novo, recomeçando: o que isso quer dizer? Preciso me apegar ao texto, não deixar que outros pensamentos me distraiam, que as preocupações me desloquem. O mundo e a vida às vezes não nos deixam ler. A leitura exige uma grande habilidade de zoom, assim, ou como se fosse uma câmera que focaliza um elemento e deixa os outros em segundo plano. Sem isso, não se lê. As vozes da minha cabeça são muitas, as do mundo são mais, e a leitura exige que eu me concentre num terceiro ambiente. Delícia, aliás, e não quer dizer alheamento, não! Quer dizer foco em algo para depois voltar e estabelecer novas conexões. Ler é uma grande conversa com muitos textos. Ouvir são outros quinhentos, exige outra atenção. E, se for em monótono, então… Ai, ai, aí é que não vai. Que o diga a turma que precisa se esforçar para dar atenção ao professor monocórdio e que adora uma exposição por tempo indeterminado. Uóuóuóuóuó… Era mais ou menos assim que eu escutava. Dá aqui um texto escrito e você vai ver que maravilha! Como repetia minha mãe, depois de aprender com a minha avó e assim por diante: cada um de nós não é todo mundo.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

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