Mete a leitora

A cronista retoma a leitura por escolha, enfia livros nas frestas do cotidiano e recupera, com desobediência, prazer, ritmo e liberdade outra vez
Ilustração: Marcelo Frazão
14/07/2026

Não parava de ler livros. Um atrás do outro, sem intervalos, sem concessões. Até que as obrigações mais urgentes começaram a tomar, empurrar, sequestrar o tempo da leitura, e isso incluía os estudos. Imagine? Os estudos, na área de Letras, com tantas leituras por obrigação, muitas interessantes, mostrando novos caminhos, outras intragáveis, mas todas ocupando as mesmas horas das leituras prazerosas, que foram vazando, escapando e sendo deixadas de lado. E isso, então, virou uma angústia. Eu pensava: quando será que a gente volta a ler por escolha? E não vinha, não chegava nunca. Até que percebi que não chegaria mesmo, jamais.

Nas escolas, para muito além das dezenas de aulas, infinitas listas de tarefas absolutamente insossas, tais como preencher formulários, fazer relatórios quase repetidos, atentar para a burocracia, lançar tudo quanto há em algum sistema eletrônico (serviço de secretaria que a informática fez a docente absorver, a golpes suaves), reuniões inglórias sobre tudo e sobre nada (sempre digo ao meu companheiro que “reunião chata” é pleonasmo), cargos de chefia, recortar bandeirolas em junho, renas em dezembro, disputar com a bibliotecária (alguém em desvio de função, tipo um castigo, em parte das vezes) o uso de livros pelas turmas (esses bagunceiros que mexem nas estantes!). Enfim, as leituras eletivas jamais voltariam.

Até que veio a revolta atuante. Não quero saber. Vou escolher uns livros daquela pilha que só cresce na estante da sala e ler, ler, ler. Um atrás do outro, sem concessões, doa a quem doer. A mim, claro, que preciso dar um jeito de dobrar o tempo. As tarefas não somem, as obrigações não cedem, ninguém tem pena. O negócio é meter, enfiar, é isso. Não tem verbo bonito. Não tem boa. É meter os livros de escolha onde eles nem cabem, quase cabem, fazer caber.

Quando eu estava na escola básica, pegava ônibus duas vezes por dia e viajava por cerca de uma hora de casa até a instituição (e de volta). Somando, quase duas horas diárias num busão feio, meio sujo, barulhento. Mas eu tinha uma sorte: não enjoava ao ler em movimento. Outra sorte: pegava o balaio num ponto em que ele ainda vinha com assentos disponíveis. Sentava lá no fundão e sacava um livro da mochila. Na época, livro era só de papel mesmo. Emprestados, geralmente, da biblioteca da moça em desvio de função ou da casa da minha avó, onde livro era coisa valorosa. Não eram muitos, nem eram chiques, mas eram os livros que eu escolhia ler. Me interessava por eles por muitas razões: título, autor de outro título de que eu gostei antes, indicação da tia, da avó, do vestibular da universidade (para onde eu sonhava ir), do jornal (que tinha caderno de cultura e eu o lia) e algo mais de que não me lembro. Lia. Devolvia, renovava, comentava aqui e ali, sem muita gente interlocutora, claro. Mas lia, devorava, mesmo que sozinha num mundo de letras e imaginação. Lia achando chato, mas terminava, queria saber, experimentar. Depois, anotava em um cadernão e dava estrelas, em escala de três. Copiava trechos porque tinha medo de perdê-los, uns trechos (às vezes eram versos) que eu tinha amado, amado muito, e não podia ter na minha biblioteca; então, copiava para manter e cultivar. Esse caderno ainda existe, só não recebe mais anotações.

A revolta, muitos anos depois, veio num dia em que pensei: não vão me devolver essas horas, nem mesmo porque sou pro-fes-so-ra, então vou tomá-las de volta. E refiz uma pilha de livros, resolvi escolher quais deles ler, em que ordem, e os espalhei pela casa: quarto, banheiro, sala. Onde eu estiver, vou ler. E assim fiz. Meti a leitura minha goela abaixo, de novo e de novo. Com isso, peguei ritmo, avancei novamente pelas leituras de tudo quanto há, me atualizei sobre a literatura contemporânea (porque essa era uma sensação que me incomodava: estou desatualizada, quem são essas pessoas?, o que elas estão dizendo?), me pus em marcha, no banheiro (e daí?, tô nem aí), na sala, no quarto, onde eu estiver (e estou muito, e gosto), sempre lendo o que ninguém autorizou. Aquela contista que quase ganhou o Jabuti, aquela romancista que pesquisou história, aquele narrador inusitado, aquela antologia de poemas de alguém que uma editora reeditou, aquele livro do hype (esses eu deixo marinar), aquele livro pouco notado, livros que recebo de presente, livros que compro, quase nada emprestado (graças a Deus, porque, se eu amar as palavras, vou querer tê-las comigo). Não uso mais um cadernão de notas e estrelas. Meu negócio é ler o que quiser, mesmo que isso pareça sempre meio errado, meio desobediente.

E isso me deu uma força danada, uma retomada feroz das coisas que eu queria saber, um ânimo para lidar com o prazer, a seleção, a escolha, certa liberdade, inclusive. E custa, não sai barato. Às vezes, acordo cedo e não conto a ninguém. Um dos maiores inimigos da leitura é o WhatsApp. Me escondo por umas horas e vou ler. Meto, enfio, é isso. Senão, não seria. Jamais.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

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