Quando ele chegar

Envergaremos nossas melhores palavras na tentativa de impressionar um ao outro; contaremos causos, sempre levando em conta o oceano temporal que nos separa
Ilustração: FP Rodrigues
01/07/2021

Para Sofia, que cresceu

Quando ele chegar, estarei sentado no sofá. Imóvel a admirar o vento. A paisagem inóspita lá fora a perambular escondendo sorrisos sob máscaras de pano. Dos dentes puídos, gotas de indiferença. Sentar-se-á ao meu lado. Antes, o aperto de mãos desafiador. O olho dentro do olho. O “muito prazer” estrangulado na goela de tico-tico, um insignificante. Tentarei esmagar-lhe cada ossinho da mão. Sou vingativo. Já que a leva, será com mãos doloridas, com o corpo marcado, feito um boi rumo ao abatedouro. Teu mugido agônico preencherá minha solidão. Tampouco me intimidará este nome de rei a tremular na flâmula ordinária. Teu exército não me amedronta. Ignorarei cada palavra. A soberba descerá a serra e inundará a sala claustrofóbica. A enxurrada arrastará o mais ínfimo movimento para debaixo do tapete. Ao pó voltará. Não haverá clemência. Nenhum indício de amizade. Ao inimigo, o fel e a adaga nas costas. O corpo estendido será devorado pelas varejeiras famintas. Eu, com o sumo da vingança a escorrer pelos lábios, assistirei à derrota do corpo imberbe no campo de batalhas. Não te darei chances, não conhecerás o prazer da glória. Não sobrará nada da saracura atrevida a ciscar no terreiro alheio. Esta terra é minha, gritarei, com gotículas de ira a espirrar da boca, contra tua cara assustada, pronta para a fuga. Sairás, varrido feito um cisco desprezível, pela porta que ousaste deflorar com tua empáfia juvenil. O rabo de fogo entre as pernas calcinará tua ânsia pela carne alheia. Aqui, neste meu claustro doméstico, nesta trincheira, neste bunker de livros, não há espaço para o invasor petulante. Não tente me ver em teus gestos. Não argumente que eu também ousei. Não sou o espelho para a tua aventura. Não no meu território, pequeno verme. Quando tua piedade lamber minhas chagas, você será apenas uma réstia de lembrança à mesa do jantar.

Quando ele chegar, estarei em pé. Os braços abertos para o início de uma intimidade que nos aproximará. De nossas bocas, palavras amáveis em busca do outro. O sorriso se espalhará. Respeitarei teus movimentos, teu território. A mão espalmada à espera de segredos. Lado a lado, tatearemos as nervuras do sofá. Revestiremos trivialidades de teorias originais. Envergaremos nossas melhores palavras na tentativa de impressionar um ao outro. Contaremos causos, sempre levando em conta o oceano temporal que nos separa. Da infância, arrancaremos as similitudes, as diferenças, as alegrias, as tristezas. Em pouco tempo, seremos velhos amigos. O toque do corpo será natural. Discutiremos política e futebol. Nossas diferenças serão palco de risadas atravessadas de respeito. Serás meu convidado para o banquete diário. Servirei as melhores caças, aquelas capturadas nos confins da floresta. Nossos exércitos banquetearão em alegria fervorosa. Abrirei o vinho reservado às comemorações. Fingirei ignorar o incômodo que a tua presença me causa. Tudo pela paz hipócrita entre nós. Eu te darei conselhos. Não posso, não devo, fugir desta missão. Estamos em guerra. Desejo protegê-los dos perigos do mundo. Falarei do meu tempo. Serei nostálgico e ridículo. Serei ridículo e ultrapassado. Serei anacrônico. Ridículo e anacrônico. Não saberei a tua linguagem. Desconhecerei os caminhos. Serei um cego em direção à escuridão; um surdo em direção ao mar; um leproso em direção ao fogo. Estarei perdido. Cego, surdo, ridículo e anacrônico. Serei motivo de risos sufocados entre os lençóis. A ironia dos corpos entrelaçados. Sei tudo isso. Também já fui um verme na sala de jantar.

Quando ela chegar, seremos dois homens a sua espera. O corpo jovem construído a partir do meu corpo desfilará entre nós. Beijará meu rosto e te enlaçará pela cintura. Em seguida, o beijo na tua boca. Sairão pela porta rumo à noite solar. No campo de batalha, restará apenas um soldado maltrapilho sem o inimigo para combater.

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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