Nosso Papai Noel

Uma caixa de bombons dividida em três irmãos e uma bola de plástico de procedência duvidosa tornaram um Natal inesquecível
Ilustração inspirada no trabalho de Os Gêmeos
01/12/2021

Para Maria Clara, que ainda acredita em Papai Noel e ama Bis
Para Lorenzo, que tem várias bolas de couro
Para Sofia, que colecionou dezenas de bonecas

Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.
Carlos Drummond de Andrade

Quantas tristezas e alegrias habitam uma infância? Ao redor da mãe, éramos cardume de lambaris à espera da pipoca sobre o lago no chão da cozinha. No Natal, uma ansiedade previsível invadia nossos corpos frágeis e agitados. A manhã nascia ruidosa por entre as samambaias e azaleias. Já sabíamos o que nos esperava: um Papai Noel magricela, sem barba e de voz atropelada; mãos ásperas, dedos rudes e fé espantosa. Nosso Papai Noel era mulher e sua risada inexistente não balançava nenhuma pança volumosa. Não havia ceia.

Na véspera, corríamos esbaforidos para entregar os últimos pedidos: pequenos carregadores de pinheirinhos natalinos. Inesquecível emprego de calças-curtas. O pai na boleia da velha Kombi da floricultura onde morávamos de favor. Eu e meu irmão a equilibrar as plantas nas curvas de C., esta cidade que em vão tentava nos acolher. À noite, destruídos pelo cansaço, o beliche nos amparava em sua precariedade. O verdadeiro Papai Noel, receoso, não arriscava deslizar pelo cano do fogão a lenha. Não lhe daríamos a menor atenção.

No entanto, o mais ínfimo movimento na cozinha puxava-nos da cama pelos cabelos. Em desabalada alegria, cercávamos nosso esquálido Papai Noel. Do fundo de uma gaveta qualquer — nós sabíamos muito bem onde estava, mas fingíamos uma surpresa desmedida — saltava o presente: uma caixa de bombons. Maior do que a da Páscoa, quando repartíamos em três uma caixinha de Bis. O coelho nos entregava sempre um dilema: como dividir uma caixa de Bis entre três irmãos. São vinte tabletes de wafer lambuzados em chocolate. Um dos irmãos sempre ficaria com um Bis a menos. Ou dois irmãos com um Bis a mais. Lógica simples. Dependia muito de que lado o coelho estava. Resolvemos fazer um rodízio. A cada ano um ficaria no prejuízo. Nunca deu certo. A irmã caçula sempre ficou com sete Bis. Eu e o irmão resolvíamos nossa matemática particular à base de pouca conversa.

Nesta época, éramos três. Hoje, somos apenas dois. Dois homens silenciosos e distantes. A irmã — numa madrugada de agonia — desistiu antes da hora dos chocolates.

A divisão da caixa entregue pelo Papai Noel se dava de maneira mais harmoniosa. Cores e tamanhos eram os critérios. Desconhecia meu daltonismo, mas desconfiava de que meus olhos eram tortos — optava, portanto, pelos mais esféricos e de cores berrantes. O preferido era o de coco. O recheio escondia-se em diversos cantos da boca, por entre os dentes e não ia embora. Causava-me uma gostosa sensação de eternidade. Não sei quais eram os preferidos de meus irmãos. Nossa infância cabia numa caixa de bombons.

Naquele Natal, além dos doces, um brinquedo. O pai prometera uma bola de futebol. Tínhamos em casa alguns brinquedos de plástico. Nunca soube muito bem de onde saíram. O pai trabalhara ao lado de uma fábrica de brinquedos e, parece, ganhara algumas peças com defeito. Aos nossos carrinhos faltava sempre uma roda, andavam meio a manquitolar. O fusca azul era chamado de Garrincha. As bonecas caolhas ou carecas tinham um charme de causar pena. Nosso pequeno arsenal de bizarrices infantis. Será que os ganhara ou os roubara? Roubar brinquedo é pecado?

(Havia um tempo em que o pai chegava em casa de manhã bem cedo. Trabalhava à noite a vender flores numa praça. Nós estávamos de saída para a escola. Ele trazia sempre um pacote de papel lambuzado de gordura. De dentro, tirava uns pastéis amolecidos que ganhara na lanchonete de um chinês e nos entregava. Lesmas recheadas de carne moída ou queijo. Mas não eram presentes. Eram apenas sobras de uma lanchonete ordinária. Nossos cadernos escolares sempre carregaram pequenas gotas de gordura.)

Da mãe, os bombons. Eu não tirava os olhos do pacote arredondado e malfeito nas mãos do pai. A bola. Uma bola de couro, novinha, gostosa de ser chutada. Uma bola de couro. Era só nisso que eu pensava. Em certo êxtase — causado somente por alegrias e tristezas exacerbadas —, abri o pacote. Dele, saltou a bola. De plástico. Cor de sujeira. Os meus olhos ignorantes nunca souberam discernir de que cor era aquela bola. De plástico. Comparei-a à cor das paredes sujas do chiqueiro urbano que mantínhamos atrás de casa, a abrigar um solitário porco magrelo. Eu segurava uma bola de plástico de cor de sujeira intensa. Teria ganhado da fábrica dos brinquedos com defeito? Teria roubado? Naquele momento, vociferei para as entranhas: ladrão de brinquedo queima no fogo do inferno enquanto durar a eternidade.

A bola pardacenta, deixei-a num canto. Agarrei-me ao bombom de coco. O que é mais eterno: uma bola de plástico ou os fiapos do coco entre os dentes? Não esqueço a bola e o ódio que senti pelo pai. Dizem que qualquer plástico leva até 450 anos para se decompor.

(Nas últimas vezes que encontrou a neta, meu pai, ainda sustentando alguma sobriedade, deu-lhe uma caixa de bombons. Iguais à que a mãe nos dava. Minha filha não é daltônica. Qualquer dia, talvez pergunte qual o critério escolhido para devorá-los. Ninguém come uma caixa de bombons aleatoriamente. Será que ao neto, o pai dará uma bola cor de sujeira?)

Todo ódio passa. Pelo menos aquele reservado aos pais. No fim do dia, quando o Natal já virava lembrança, catei a bola e reuni os amigos para uma partida. Estranhamente, ninguém notou que era de plástico e tinha cor de sujeira intensa. Corremos até a exaustão. Em casa, esperavam-me os últimos bombons. Hoje, aquela bola segue meus passos feito um animal de estimação. E não vai embora. Tenho ainda mais de quatrocentos anos para reencontrá-la.

NOTA
Texto originalmente escrito em 2009 e reescrito neste final de 2021.

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

Rascunho