Festa de aniversário

Sentada no sofá, de costas para a porta, ela não me esperava. Cheguei de surpresa no fim da tarde
01/01/2013

Sentada no sofá, de costas para a porta, ela não me esperava. Cheguei de surpresa no fim da tarde. O sol forte iluminava a casa de madeira. A festa já havia acabado. Não existia qualquer resquício de bolo ou refrigerante. Nenhum brigadeiro fora esquecido sobre a mesa cambaia. Os salgadinhos aniquilados. Sem balões no teto. Os netos não estavam, as noras não estavam, o marido não estava, o filho mais velho tampouco. A filha mais nova somente na fotografia sobre a estante. Não havia ninguém quando cheguei. Ela sentada sozinha de pernas cruzadas no sofá. A televisão desligada. Nada acontecia na tarde de seu aniversário. Atravessei lentamente o corredor, bati na porta entreaberta. Amuada, os cabelos brancos sem tintura, virou-se e construiu um sorriso que jamais existiu.

Entreguei-lhe a orquídea azul comprada na banca do Aleixo. Antes de receber os setenta reais, ele perguntou se queria cartão para escrever uma mensagem. Respondi que não. Poderia ter completado: “Minha mãe lê muito mal e nunca entende a minha letra”. Considerei desnecessário. Às vezes, somente o silêncio escancara o nosso terror diante do mundo. Feliz pela venda, disse que tinha assistido à reportagem na televisão. Balancei a cabeça e carreguei a orquídea azul na tarde ensolarada. A mãe não consegue ler meus bilhetes. Eu não sei se ela entende o que falo quando apareço na televisão. Somos, quase sempre, um cego de olhos arregalados e um mudo banguela conversando em mandarim.

Ela salta do sofá com um ímpeto inesperado. Abraça-me. A orquídea está sobre a mesa. Envolve-me com o corpo de louva-a-deus, esquelético, raquítico, passível de desespero. Retribuo como sempre: desajeitado. Ela me olha e me faz um inusitado carinho no rosto. Pergunta se estou bem. Sente que minha vida deu alguns passos para trás. Mesmo à beira da morte, as mães sempre dão um jeito de se preocupar com os filhos. Quando afastamos os rostos, uma lufada de ar quente me atinge em cheio. Sai do pescoço da minha mãe, onde a traqueostomia é um nariz de apenas um buraco. Sinto nojo. O cheiro é péssimo. Tento disfarçar já com a orquídea novamente em mãos. Que bonita! Sim, mãe, é bonita. Espero que dure bastante. Vai durar, mãe. Basta molhar apenas uma vez por semana. Caso contrário, ela morre. A orquídea.

Os braços de graveto depositam a flor azul sobre a geladeira branca. Tentamos conversar algumas palavras. O dedo em direção à traqueostomia faz um trajeto longo. Falamos pouco. Antes do câncer, conversávamos nada. Agora, não conseguimos recuperar as palavras que tanta falta nos fazem. Um buraco no pescoço atrapalha a dicção. Noto que o entorno do olho direito está bastante roxo. Bolsas líquidas parecem vergamotas maduras prestes a estourar. Coisa estranha o rosto da minha mãe. O câncer é um Leonardo da Vinci com pretensões de Salvador Dalí.

Caminha em direção à estante onde várias fotos se amontoam. Ninguém está ali. A filha morreu. Os demais, ocupados com a vida. Eu, logo irei embora. Passei apenas para lhe desejar feliz aniversário. Ainda não lhe disse nada. Sinto vergonha de abrir a boca e pronunciar a palavra feliz. Não significa absolutamente nada naquela casa. Seria apenas mais uma ironia para a nossa coleção de equívocos. Sento na cama instalada na sala. É uma espécie de prisão. A mãe dá alguns passos lentos. Garante que está se sentindo mais forte. Ao terminar de mentir, recosta-se no batente da porta para não cair. Minha mãe passou a mentir com mais freqüência após a doença. O câncer a faz cometer diversos pecados. O câncer deveria ir para o inferno. Minha mãe, não.

Quando a mãe nasceu, em 22 de novembro de 1944, num catre no interior de Santa Catarina, Hitler já agonizava, diante da iminente derrota. Hitler se suicidou quando minha mãe tinha cinco meses. Ela não sabe quem é Hitler. Hitler não vai conhecê-la. Ela vai para o céu quando morrer. Pelo menos é nisso em que acredita desde sempre. Uma pena se estiver errada. Mas mesmo que se equivoque em sua fé, não encontrará Hitler. Ele não existe mais. Não irá incomodá-la com o bigodinho e os gestos afetados. Lembro-me de Hitler no dia do aniversário da mãe. Aniversários nunca significaram nada para nós. Podemos pensar em qualquer coisa nesta data. Nunca fizemos festas. Não há fotografias dos filhos atrás da mesa repleta de docinhos e garrafas de refrigerante. Quando completei doze anos, ajudava a mãe a fazer pão. Eu tocava o cilindro para prensar bem a massa. Era quase noite. Ela parou de passar a massa e me olhou espantada: “Mas hoje é seu aniversário!”. Isso não é importante, mãe. E seguimos fazendo pão. Algo muito importante para não se morrer de fome. Será que Hitler ajudava sua mãe a fazer pão? Nunca usarei bigode.

Só veio a tia Maria. Não havia reclamação na frase. Ela me informava que uma das muitas irmãs passou para visitá-la no dia de seu aniversário. Eu e a tia Maria em horários diferentes: duas pessoas significam uma festa? Para nós, sim. É quase uma multidão. Silenciosa, mas multidão.

A vizinha chega para fazer a higiene na traqueostomia. É necessário tirar um cano de metal que está enfiado no pescoço da mãe. Depois, limpa-se bem o orifício. Ali, deposita-se uma secreção viscosa e fedorenta. Caso não se faça a limpeza várias vezes ao dia, minha mãe pode sufocar e, quem sabe, morrer. Pergunto se ela não vai se livrar nunca da traqueostomia. Não posso, sinto que tem uma bola na minha garganta, não consigo respirar. Penso em lhe dizer que a bola poderia ser um brigadeiro. Ela não entenderia a piada.

Recomendo-lhe novamente para não se esquecer de molhar a orquídea apenas uma vez por semana. Caso contrário, ela morre. A orquídea. Abraço o corpo esquelético da mãe e saio porta afora. Por sorte, ela não esguicha pelo buraco do pescoço ar quente na minha cara. Seria uma péssima lembrança de sua festa de aniversário.

Nota
Crônica publicada originalmente no site Vida Breve.

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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