te alerta poeta que a p/i te espreita
desestruturou o discurso e embaralhou as letras
te aleart paeto que o pc te recrimina
barroquizou a linguagem e descurou da doutrina
te alaert peota que o sni te investiga
parodiou o sistema e ironizou a política
te alaret poate que o women’s lib te corta o genitálio
glosou o objeto sexual e teve orgasmo solitário
te alerat peato que a puc te escanteia
foi tema de mestrado e não quis compor a mesa
te alreta petoa que a cb não te reedita
gastou muito papel e pouco sangue na tinta
te alrate petao que a abl te indexa
fez enxertos de inglês e sujou a água léxica
te arealt patoe que a cnbb te exorciza
macarronizou o latim e não aprendeu a nova missa
te alatre potae que o esquadrão te desova
traficou palavrina e não destruiu a prova
e atrela ptoea que o doicodi te herzoga
suspeito sem suspeição e enforcado sem corda
i must be gone and live or stay and die
A expressão que dá título ao poema — “patrulha ideológica” — é por demais conhecida e foi proferida por Cacá Diegues em entrevista para o Estadão, em 31 de agosto de 1978: “Um negócio que eu também acho muito grave é essa espécie de patrulha ideológica que existe no Brasil. (…) São patrulheiros que ficam policiando permanentemente a criação, a criatividade, tentando limitar ou dirigir para essa ou aquela tendência. Quando a grande riqueza do cinema brasileiro, a grande qualidade básica que deveria ser alimentada é exatamente a sua pluralidade, a sua multiplicidade”. Estávamos em plena ditadura militar, o presidente era o general Ernesto Geisel e o Estado brasileiro praticava múltiplas formas de violência (censura, repressão, exílio, tortura, prisão) e assassinatos, contra os opositores, com a cumplicidade explícita ou tácita de setores da mídia, do empresariado, da igreja e da sociedade civil. Não espanta, pois, que a dita expressão tenha provocado tanta polêmica e tenha produzido um livro, Patrulhas ideológicas, organizado por Carlos Alberto Messeder Pereira e Heloisa Buarque de Hollanda, já em 1980. Se, de um lado, há artistas que defendem a “liberdade de criação”, de outro há quem cobre algum engajamento, sobretudo em tempos de chumbo.
A síntese acima contextualiza o poema de Affonso Ávila, publicado em O belo e o velho, com obras de 1982 a 1986, anos vizinhos da expressão e das subsequentes polêmicas em torno dela, de que é exemplar o contundente texto de Cláudio Abramo, na revista IstoÉ, de 2 de maio de 1979, em que dispara: “Quem controla os jornais nesse país? Quem controla a maioria das revistas? Quem controla a televisão, domina o rádio, dá empregos? É por acaso a esquerda? Foi ela, por acaso, que construiu a ideologia dominante, que orientou a construção dessa sociedade que me dá engulhos? Quem faz isto? São por acaso as patrulhas ideológicas? Quem inventou essa expressão? A quem interessa ter inventado essa expressão?”. É a esse clima de campo minado que pertence o poema de Ávila, que, por conta de livro anterior, Masturbações (1979-1980), com poemas “inspirados” em Virginia Woolf, Gertrude Stein, Tarsila do Amaral, Patrícia Galvão, Marylin Monroe, Leila Diniz, havia sido alvo de “algumas reações iradas, por parte de pessoas que os acusaram de politicamente incorretos”, como diz Antônio Sérgio Bueno em O jogo contra o jugo na poesia de Affonso Ávila (2021).
O poema se dá a ver como uma estrutura singular de 21 versos em 2 estrofes, sendo 20 versos dispostos como dísticos (embora não haja linhas separando-os, mas um espaçamento) e um monóstico final que, contudo, devido também ao espaçamento, semelha ter dois versos em um só. (Tal monóstico em inglês se trata, como veremos, de citação de uma peça de Shakespeare.) Ao longo do poema, uma reiteração se impõe: a frase “te alerta poeta” recebe variações “anagramáticas”, como se estivesse disfarçada, escondendo-se de algo — que aos poucos vemos se tratar de “patrulheiros”: pc, sni, women’s lib, puc, cb, abl, cnbb, esquadrão e doicodi. Decerto, são patrulheiros bem desiguais, identificados à esquerda e à resistência (pc, women’s lib, cb), outros com uma postura ambivalente e camaleônica diante da ditadura (puc, abl, cnbb) e ainda instituições ligadas à vigilância e à punição (sni, esquadrão, doi codi). Ou seja, é um poema com imenso potencial para desagradar a todos, haja vista que a ironia destilada aos três grupos se assemelha no tom e na crítica, mesmo considerando as diferenças entre eles e as nuances de cada comentário.
O primeiro dístico traz o título “patrulha ideológica” em forma abreviada, “p/i”, inaugurando o paradigma que se repetirá: “te alerta poeta que a p/i te espreita/ desestruturou o discurso e embaralhou as letras”. A frequência das rimas na maioria toantes — alerta, poeta, espreita, letras — irá se manter nos demais dísticos (recrimina-doutrina; investiga-política; genitálio-solitário; escanteia-mesa; reedita-tinta; indexa-léxica; exorciza-missa; desova-prova; herzoga-corda). A ideia de que o poeta desafina o coro dos contentes — porque trata discurso e letras de forma diferente, exótica, experimental, insubmissa, iconoclástica — já vem estampada nesses versos de início, tanto quanto a ideia de que, por isso, muitos grupos o “espreitam”. À maneira do cineasta Cacá Diegues, que se sentiu patrulhado pela esquerda de então (1978), o poema de Affonso Ávila registra a “recriminação” que o Partido Comunista (grande força política na história do país, desde 1922, com cisões e vertentes) dirigiria à pessoa/persona do poeta por ter “descurado da doutrina”, não ter seguido as orientações partidárias e, em vez de adotar uma dicção palatável e realista, “barroquizou a linguagem”, com excesso de firulas e artifícios.
O pseudocifrado alerta (“te alaert peota”) prossegue, agora denunciando o tenebroso Serviço Nacional de Informações, órgão que controlava quaisquer “ameaças” ao regime: o poeta/peota seria alvo de investigação exatamente porque “parodiou o sistema e ironizou a política”. Fundador da revista Tendência, Affonso Ávila foi um intelectual e artista progressista, contrário ao golpe militar — sua vida e obra confirmam tal postura (ver memorialpoeticodosanosdechumbo.ufes.br). No dístico quatro, o poeta destila a verve para o Women’s Liberation Movement, da segunda onda do feminismo, que trouxe um questionamento radical dos papéis socialmente tradicionais de gênero: o poeta, homem (e provavelmente se sentindo cobrado/patrulhado por algum gesto machista, como os poemas politicamente incorretos de Masturbações), reage com ironia ao declarar “orgasmo solitário” e ao jocosamente criar, glosando, o termo “genitálio”, sabendo que o mesmo só existe no feminino.
Daí por diante, poema e poeta mantêm a toada de [a] escolher um tipo de patrulha ideológica (esquerda politizada, centro oscilante ou direita violenta), [b] indicar por um verbo a ação da tal patrulha, [c] o suposto motivo da “perseguição” e, por fim, [d] a ação do poeta patrulhado. Assim, no dístico 5, a Pontifícia Universidade Católica (“puc”) metaforizaria um lugar de recusa (“te escanteia”), como retaliação a uma recusa de “compor a mesa” de dissertação sobre a própria obra. De modo similar, a provocação agora se volta para a editora Civilização Brasileira (“cb”), que não quereria reeditar livro do poeta por, parece, ter dado pouco retorno (“gastou muito papel) e pelo teor comedido: “pouco sangue na tinta” — e aqui se faz uma alusão à corajosa atuação do editor Ênio Silveira na luta contra a ditadura. E, de fato, Ávila teve o livro Código de Minas & Poesia anterior, publicado pela Civilização em 1969.
Nos dísticos 7 e 8, o poeta (petao/patoe) se põe alerta (alrate/arealt) contra a Academia Brasileira de Letras (abl) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (cnbb), insinuando-se perseguido por ambas as instituições, seja por não manter xenofóbica pureza da língua e fazer “enxertos de inglês”, seja por não seguir “a nova missa”, daí, persona non grata, tornar-se indexado e exorcizado: estigmatizado. Nos dísticos finais, o poema se firma como forte voz testemunhal, quando denuncia o grupo de extermínio “Esquadrão da morte”, em geral policiais que agiam (matavam) à margem da lei, e ao qual se associam o delegado Fleury e a Scuderie Le Cocq; e denuncia o Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna (doicodi), responsável pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975 (e de tantos outros ao longo da ditadura). A brutalidade de ambos — esquadrão e doicodi — se evidencia nos verbos “desova”, em que se desaparece com o corpo, e “herzoga”, neologismo que explicita a ameaça de morte para quem enfrentasse o autoritarismo militar.
Diante de tantos inimigos e “patrulheiros”, o poeta repete, séculos depois, a fala de Romeu a Julieta, na peça do bardo inglês: “i must be gone and live/ or stay and die” — “Eu preciso ir embora e viver/ ou ficar e morrer”. O poema de Affonso Ávila se coloca ao lado da fala de Cacá Diegues, desde o título: sente-se perseguido, importunado, acossado por alguns grupos (pc, women’s lib, puc, cb, abl, cnbb), mas, mais ainda, e de forma ousada, combate e acusa órgãos do governo militar (sni, doicodi) ou por ele mantido (esquadrão). Tanto quanto a expressão cunhada pelo cineasta, os versos do poeta mineiro são polêmicos e reacendem o debate em torno dos usos e abusos do argumento “patrulha ideológica” e, por extensão, da bizantina e atualíssima questão: a arte deve ter compromisso com o social, deve ser meio para o esclarecimento e a consciência crítica?
Nesse trânsito, entre a ética e a estética, entre arte engajada e arte pura, cientes das mediações e misturas entre tais polos, esperemos que nem o “feliz poeta, nem o esfomeado” (Gil), nenhum personagem, nenhuma pessoa tenha de optar apenas entre estas duas possibilidades: ir embora e viver — ou ficar e morrer. (Embora, às vezes, a vida, o mundo, a história, a arte, um poema, um ensaio assim desenhem o drama no qual somos atores.)