Amor, de Oswald de Andrade

“amor/Humor”, de Oswald de Andrade, ilumina a potência sintética, visual e crítica de um poema mínimo que segue aceso
01/06/2026

amor

Humor

Em 1927, Oswald de Andrade publicava como primeiro poema do Primeiro caderno do alumno de poesia Oswald de Andrade: “amor/ Humor”. Cem anos depois, essas duas palavras e a página em que se encontram — com a ilustração (do próprio Oswald) e a dedicatória — continuam a divertir, espantar e desafiar quem com elas se depara. Na publicação original, o termo “Amor” vinha grafado com letra inicial maiúscula e na cor vermelha, assim como no desenho a parte oval se voltava para baixo; posteriormente, ainda vivo Oswald, o termo “amor” passou a ter vogal inicial minúscula, e houve a “inversão” do desenho, com a parte oval ficando na parte de cima. Nas edições e reproduções desse poema, percebem-se as mais variadas combinações, ora com ambas as palavras com minúsculas, ora com maiúsculas, às vezes uma sim e outra não; a ilustração só aparece algumas vezes; e a dedicatória, muito raramente. Nem mesmo se tem consenso quanto a uma questão crucial: trata-se de um poema com título e um monóstico ou um poema sem título e dois versos?

Para qualquer autor, a ordem dos poemas em um livro deve ser fruto de uma escolha bem pensada, que sinaliza certo projeto e valor. Alguns “poemas de abertura” (copio a expressão e exemplos da tese-livro de Rafael Fava Belúzio, Quatro clics em Paulo Leminski) evidenciam a importância desse lugar de abertura: Canção do exílio, em Primeiros cantos, de Gonçalves Dias; Profissão de fé, em Poesias, de Olavo Bilac; Epígrafe, em A cinza das horas, de Manuel Bandeira; Eu sou trezentos, em Remate de males, de Mário de Andrade; Poema de sete faces, em Alguma poesia, de Drummond; A Augusto de Campos, em Agrestes, de João Cabral. Em todos estes poemas se pode depreender uma poética do livro que virá a seguir. E “Amor” (ou “amor”), que abre Primeiro caderno do alumno de poesia Oswald de Andrade, de Oswald de Andrade, não foge à regra e antecipa que os poemas vindouros serão assim: sucintos, lúdicos, elípticos, visuais, epigramáticos, chistosos, críticos, luminosos — e bem, muito bem-humorados.

A despeito de extremamente sintético, sobre o poema em pauta já se colhe uma expressiva fortuna de ensaios. Entre tantos, um dos mais precisos e completos é Fósforo aceso — um poema minúsculo, um poeta sagaz, de Maria Augusta Fonseca (USP), estampado em Literatura e sociedade (nº 34, 2021), com informações e reflexões que esquadrinham o poema de Oswald sob várias perspectivas (àquele ensaio, desde já este ensaio em andamento se declara devedor e grato). Vale, antes, relembrar comentário agudo e pioneiro de Haroldo de Campos, em Uma poética da radicalidade, de 1966, sobre o poema do autor de O rei da vela:

amor

humor

(a primeira palavra funcionando como título e parte integrante da peça); eis aí o mais sintético poema da língua, tensão do músculo-linguagem, elementarismo contundente, ginástica para a mente entorpecida no vago, obra-prima do óbvio e do imediato atirada à face rotunda da retórica. Por este poema se mede, com tonturas de vertigem até onde foi Oswald na sua radicalidade (…). A visualidade propôs o equilíbrio geômetra e a síntese, o discursivo escoou pelo branco da página.

O primeiro comentário de Maria Augusta Fonseca acerca do poema (que ela adota, e eu sigo, a partir da segunda edição: “amor// Humor”) é pontual:

Esse poema minúsculo integra o conjunto de composições breves, libertas de pontuação e marcadas por diferentes usos da linguagem de expressão cotidiana.

Aproxima a peça de Oswald a similares de Apollinaire, Ungaretti, Cendrars e cummings. Citando Roger Bastide, compara os desenhos do Caderno a quadros de Volpi. Descreve, a partir de considerações de Manuel da Costa Pinto, o desenho do canhão que, segundo o jornalista e crítico literário, é um “canhão fálico, ironizando assim o caráter ao mesmo tempo bélico e risível do amor, fragmentando pornograficamente o discurso amoroso”. A professora da USP complementa, dizendo que “o objeto erotizado contém ainda pequenos pontos irregulares, soltos no interior da roda do canhão, em referência direta aos resíduos de balas disparadas”. Curiosamente, registre-se que o desenho de Oswald parece — para além de canhão — simular outras imagens: Augusto de Campos, por exemplo, admite semelhança com cogumelo, árvore e roda-gigante; outros intérpretes assinalam a parecença com a roda de bicicleta de Duchamp, de 1913, sobretudo a partir da edição de Poesias reunidas O. Andrade (1945), quando a roda passa de baixo para cima (qual a obra do artista francês).

Francês também é René Bacharach, a quem Oswald dedica seu poema de abertura. Sem diminuir a importância do gesto, recorde-se que TODOS os poemas do Caderno são dedicados a alguém do círculo do autor, como Álvaro Moreyra, Alcântara, Sérgio Buarque, Manuel Bandeira, Prudentinho, Ribeiro Couto, “meu pai”, Sérgio Milliet, Mário, Menotti. Como esclarece Isaac Garcia em Crise autoral e apropriações textuais (2023), “o nobre cavaleiro francês (1903-1991) foi contemporâneo de Oswald e se destacou como autor de tratados sobre artes equestres. Tendo em conta que frequentava figuras conhecidas da equitação como o português Nuno Oliveira e que era apaixonado pela poesia e pelo surrealismo em pintura, bem poderia ter coincidido com Oswald durante a sua estada em Paris. Observe, aime, pense et agis [observe, ame, pense e reaja] parece ser uma das máximas proferidas por Bacharach”. Tal máxima, se “aplicada” ao poema, fertiliza as leituras, pois nos induz a cogitar a possibilidade de estar o poeta brasileiro “realizando” a frase no corpo mesmo do poema, desde a necessidade de “observar” o desenho até a “reação”, no caso um movimento crítico-reflexivo que produziria o humor, passando pelo “amor” — presente na máxima e no poema — e pelo pensamento, postura filosófica fundamental para o substantivo exercício do amor e do humor.

A força magnética dessas duas palavras foi percebida com intensidade por Raúl Antelo, em Prefácio para uma edição da obra: “Da fala amor, o mor lapso: o maior é o menor e a tipografia devém topografia: a/o, basculação de tipos e caracteres em diálogo intertextual (intersexual) de escreviver”. Logo, na “falA mor, O mor lapso”, que se lê “[h]U mor lapso”, a ser preenchido por um leitor não relapso. Retornando ao ensaio de Maria Augusta Fonseca, após localizar o amplo significado de amor como “intensidade de sentimento, afeição profunda, de valor universal”, a autora afirma:

O tema encampa amor carnal, sensual, filial, religioso, alcançando o spleen amoroso dos românticos (…). No caso do tratamento irreverente do tema, levado a cabo por Oswald de Andrade, e imantando “amor” a “humor”, o jogo antitético parece desautorizar convenções sedimentadas. Desta perspectiva, considera-se que a junção de um termo consagrado da tradição poética (amor) com outro de feição a-poética (humor) intensifica o “choque semântico”, do qual resulta um poema-oxímoro.

Entende-se, pois, que a decisão de alterar, já na segunda edição, o grandiloquente Amor para um dessublimado “amor”, passa por esse “tratamento irreverente” das tradições, sobretudo românticas, que vem a produzir — feito este — uma série de poemas-piada. Aqui, o humor é recurso e tema: forma e conteúdo, maneira e matéria, como e quê. Entre minúsculas e maiúsculas, se rebaixa o “amor”, enquanto se eleva o “Humor”; noutras palavras, o poema insinua algo como “o amor é uma piada”.

Após observar que “as duas palavras, mesmo aproximadas pela disposição na página, estão livres entre si por falta de articulações sintáticas e marcas de pontuação”, Maria Augusta Fonseca investiga o ritmo que elas produzem, lançando mão, inclusive, da medida greco-latina. O fato de serem ambas um dissílabo oxítono, com ritmo fraco-forte [a-Ô/ u-Ô], tipo “tá tum/ tá tum”, nos faz lembrar que se trata, afinal, de obra de um “aluno de poesia”, um jovem aprendiz do amor e das artes. Tal engenho, no conjunto (palavras e imagens), gera humor. A ensaísta destaca a polarização entre o som aberto de /a/ e o som fechado de /u/, e reforça o estranhamento provocado pelo fato de a letra “h” não ser pronunciada, ao mesmo tempo em que é grafada de forma garrafal: “H” — que poderia se referir a uma abreviatura de “homem”. Nesse caso, caberia, por paralelismo, ao outro termo — “amor” — o espaço da “mulher”. Aqui, Maria Augusta Fonseca é taxativa, e concordamos: “Talvez nesse uso se possa vislumbrar um resquício de domínio masculino, pesando em desfavor do poeta”. Por fim, o excelente ensaio Fósforo aceso — um poema minúsculo, um poeta sagaz arremata as considerações evidenciando o quanto nessas quatro sílabas de “amor / Humor” (afora a dedicatória e o desenho) de 1927 já se antecipam procedimentos do Manifesto antropófago e de Serafim Ponte Grande, vindos a lume nos dois anos seguintes.

Desde o início, a poesia brasileira lançou mão do humor, como recurso estruturante: Gregório de Matos, no Barroco; Sapateiro Silva, no Arcadismo; Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães, no Romantismo; Oswald, Bandeira e Drummond, no Modernismo, a exemplos. O século 21 perpetua essa tradição: Glauco Mattoso, Tião Nunes, Millôr Fernandes, Chacal, Leila Míccolis, Ledusha, Nicolas Behr, Ricardo Silvestrin, Gregório Duvivier, entre outros. Gilles Deleuze afirma, em Lógica do sentido (1969), que “o humor é a arte das superfícies e das dobras, das singularidades nômades e do ponto aleatório sempre deslocado”. Oswald — enfant terrible, radical, iconoclasta — parece encarnar a frase do filósofo em seu “poema minúsculo”: o humor (fugidio e rizomático) funciona à margem do sério, do oficial, do previsível, de normas e condutas. (Mas pode funcionar também — vale o alerta — como afirmador de estere­ótipos, preconceitos, autoritarismos. Há humor e humores.)

Em Aletria e hermenêutica, de Tutameia, Guimarães Rosa escreve: “Uma anedota é como um fósforo: riscado, deflagrada, foi-se a serventia”. A obra-fósforo de Oswald, biscoito fino, com seus incessantes insights, arisca, permanece acesa.

Wilberth Salgueiro

Poeta, crítico literário, pesquisador do CNPq e professor de literatura brasileira na UFES. Autor de A primazia do poema, Lira à brasileira: erótica, poética e política, O jogo, Micha & outros sonetos, entre outros.

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