Triângulo sem pontas

Cada leitura refaz uma obra à sua maneira; a criação literária ganha força quando encara os riscos, o delírio, a diferença e a liberdade de imaginar
Ilustração: Tereza Yamashita
01/09/2026

Cada livro é constituído de seis livros diferentes:
1. o livro que o escritor imaginou
2. o livro que o escritor escreveu
3. o livro que o editor publicou
4. o livro que as livrarias receberam
5. o livro que os críticos criticaram
6. o livro que os leitores leram
{Só isso? De jeito nenhum. Às vezes as possibilidades continuam…}
7. a tradução do livro que os tradutores estrangeiros imaginaram
8. a tradução do livro que os tradutores estrangeiros realizaram
9. a tradução do livro que os editores estrangeiros publicaram
10. a tradução do livro que as livrarias estrangeiras receberam
11. a tradução do livro que os críticos estrangeiros criticaram
12. a tradução do livro que os leitores estrangeiros leram
Enfim… Dificilmente as pessoas conseguem ler o mesmo livro.

“Cada livro carrega inúmeras possibilidades. Semelhante às doenças venéreas.”
(Juão-Lucas Goddar)

***

Duelo?

— Nota cinco, no máximo.

— Nota dez, com louvor.

— Impossível. Tantos defeitos, tantas falhas na realização.

— Impecável. Tudo funcionando muito bem, com perfeição.

— Você está ignorando os fatos.

— Você está ignorando os fatos.

— Tudo muito frouxo, inverossímil, faltando sustentação.

— O que você chama de “frouxo, inverossímil, faltando sustentação” pra mim é a essência da criação.

— Você está ignorando os fatos.

— Você está ignorando os fatos.

Nós lemos livros diferentes. Era o mesmo texto, o mesmo título, o mesmo autor, a mesma editora, a mesma edição, mas nós lemos livros diferentes.

Nós vimos filmes diferentes. Era a mesma projeção, o mesmo título, os mesmos atores, o mesmo cineasta, a mesma produtora, mas nós vimos filmes diferentes.

Nós escutamos músicas diferentes. Era a mesma melodia, o mesmo arranjo, o mesmo compositor, os mesmos músicos, a mesma gravação, mas nós escutamos músicas diferentes.

Nós vimos pinturas diferentes. Eram as mesmas pinceladas, o mesmo título, o mesmo artista, o mesmo marchand, a mesma galeria de arte, mas nós vimos pinturas diferentes.

Porque cada um — leitor, ouvinte etc. — delira conforme sua história. Quem me disse isso foi uma amiga, muito tempo atrás. Adorei a verdade dessa frase. Cada um delira conforme sua história. Equivale a dizer que “cada indivíduo é sua própria medida de todas as coisas” (Protágoras de Abdera).

Era o mesmo livro, o mesmo filme, a mesma música, a mesma pintura, mas nós lemos livros diferentes, vimos filmes diferentes, escutamos músicas diferentes, vimos pinturas diferentes, e está tudo bem. O planeta continua girando. O sol nascerá amanhã. Nada mudou no mundo.

Precisamos aprender a aceitar que o valor estético não é quantificável nem absoluto. O valor estético é algo impossível de ser provado. Essa premissa destrói qualquer possibilidade de uma crítica científica da arte e da literatura. Não existem equações matemáticas ou testes de laboratório que atestem a genialidade ou a mediocridade.

Literatura, cinema, música, artes plásticas etc… No campo da subjetividade estética, não sejamos obtusos. Deixemos cada um delirar em paz conforme sua história, sem tentar impor furiosamente nosso delírio e nossa história. Cada indivíduo é sua própria medida de todas as coisas. E está tudo bem.

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Treze mandamentos da oficina de criação literária

1. Ignorarás totalmente teu cricrítico interior. Mande-o passear de pedalinho no oceano Pacífico. Ele é um burocrata de terno cinza & gravata preta, que nunca conseguiu escrever sequer um haicai. Também ignorarás teu bajulador interior, persona tão nefasta quanto teu cricrítico interior.
2. Não buscarás a perfeição. Porque a perfeição é um cubo de mármore numa sala branca: um objeto matemático, gelado & completamente morto. Busque a vida, a vertigem, o mofo, o suor, o barulho e a fumaça.
3. Cultivarás amorosamente o insólito. Se uma girafa azul com manchas douradas entrar na sala durante a cena de um funeral tupinambá, sirva a ela uma taça de vinho tinto e escute o que a criatura tem a dizer sobre o sumiço dos anéis de Saturno.
4. Conversarás com objetos inanimados. Um grampeador quebrado, um guarda-chuva colorido, um velho rádio reformado, um automóvel caindo aos pedaços, todos têm excelentes fofocas sobre a condição humana. Escute-os com atenção. O mesmo vale para plantas & animais. Montanhas & nuvens.
5. Cultivarás hábitos bizarros. Escrever usando apenas um chapéu de pirata ou somente aos sábados às 3h45 da madrugada é perfeitamente aceitável. É mais que perfeitamente aceitável. É muito nobre & digno. Esquisitices & excentricidades são a matéria-prima da criatividade literária.
6. Farás da língua portuguesa teu gato de estimação. Respeite suas necessidades felinas, mas saiba que de vez em quando você precisa fazer a gramática pular do armário em chamas, somente pra ver o circo pegar fogo.
7. Escreverás embriagado, revisarás sóbrio (ou vice-versa). A regra original é de Hemingway, mas a versão sem álcool permite escrever movido a café expresso e revisar sob o efeito de chá de camomila (ou vice-versa).
8. Louvarás a magia e o sonho. Porque a realidade já tem boletos demais… Escancare as portas da percepção para o nonsense, o absurdo, a sátira aloprada. Lembre-se: a página em branco é o único território em que a lógica é opcional e o impossível — yabba-dabba-doo! —, o impossível é apenas uma questão de imaginação.
9. Aceitarás que todo texto da oficina é apenas um rascunho. Esqueça a ilusão da obra-prima instantânea & intocável. Nana-nina-não. Tudo aqui é obra em progresso. Permita-se errar sem medo, pois o rascunho é o mapa poético pra revigorante liberdade.
10. Usarás o baixo calão como se fosse pimenta malagueta. Não evite nem economize, por puro falso moralismo, os palavrões, os xingamentos e as palavras vulgares mais engraçadas. Um palavrão bem colocado confere sabor e humanidade ao texto. O baixo calão desarma o artifício, arranca a máscara da linguagem e mostra a vida como ela é: intensa e desbocada.
11. Não defenderás teu texto com unhas, dentes nem objetos perfurantes. Se porventura os colegas fuzilarem teu texto, apenas escute com interesse, sorria misteriosamente igual à Mona Lisa e agradeça pelos comentários. Se quiser ignorar cada uma das sugestões e não mudar uma única vírgula, está tudo bem. Leve pra casa apenas os comentários que julgar valiosos.
12. Apreciarás a literatura-artesanato e a literatura-arte com o mesmo fervor. Entre o artesanato e a arte não existe hierarquia, mas trânsito intenso & virtuoso. Em ambos, o talento ou a mediocridade decidem o destino das obras. No artesanato e na arte, com igual frequência brilham gênios & tropeçam medíocres.
13. Não matarás jamais a alegria e a diversão. Nosso santuário é totalmente à prova de chatice & mau humor. É o único lugar do universo em que temos permissão ilimitada pra delirar com a turbulência e o caos. Nunca se esqueça de nosso lema: o maior mérito de uma oficina de criação literária é ser, acima de tudo, uma festa para a inteligência.

Olyveira Daemon

É ficcionista e crítico literário. É autor de Poeira: demônios e maldições e Ódio sustenido, entre outros.

Rascunho