Axioma Valerio Oliveira > poesia & prosa
Poema é qualquer texto composto em versos & estrofes, prosa é qualquer texto composto em períodos & parágrafos.
Nas palavras de Terry Eagleton: “no poema é o autor quem decide onde terminam as linhas, enquanto na prosa é o processador de texto”.
Poesia, quando sinônimo de perfeição, é a qualidade presente em certos artefatos culturais, capaz de despertar o sentimento do belo e provocar o encantamento estético.
Poesia, quando sinônimo de poema, é qualquer texto composto em versos & estrofes.
Partindo do axioma apresentado, as categorias “prosa poética” & “poesia em prosa” simplesmente não fazem sentido.
Se adotamos a definição formal — poema é um texto composto em versos & estrofes, e prosa é um texto composto em períodos & parágrafos —, então a distinção entre os dois não depende de estilo, beleza, musicalidade, subjetividade ou intensidade expressiva. Depende apenas da forma gráfica & estrutural do texto. Como observa Terry Eagleton, no poema o autor decide onde terminam as linhas, na prosa a linha termina automaticamente na margem da página. Portanto, trata-se de um critério objetivo.
A confusão surge quando os dois sentidos diferentes da palavra poesia são usados de maneira confusa. No primeiro, poesia significa “qualidade estética”, isto é, a capacidade de provocar o encantamento e o sentimento do belo.
Nesse sentido, poesia pode existir em qualquer artefato cultural: romances, pinturas, canções, coreografias, filmes ou até em frases isoladas. No segundo sentido, poesia é simplesmente sinônimo de poema, isto é, um texto organizado em versos & estrofes.
Quando esses dois sentidos são misturados, surgem rótulos contraditórios. Prosa poética tenta dizer que um texto em períodos & parágrafos possui qualidades estéticas intensas, líricas, subjetivas, às vezes abstratas — o que é perfeitamente possível —, mas isso não altera sua natureza formal: continua sendo prosa. Da mesma forma, poesia em prosa pretende designar um texto em períodos & parágrafos que teria “espírito de poema”. Porém, se está em períodos & parágrafos, então não é um poema, segundo o critério formal.
Em outras palavras: se o texto está em versos & estrofes, é poema. Se está em períodos & parágrafos, é prosa. A presença ou ausência de poesia no sentido estético não muda essa classificação.
Assim, prosa poética & poesia em prosa são apenas metáforas críticas para elogiar o estilo de um texto em prosa. Como categorias literárias rigorosas, são desnecessárias e logicamente incoerentes, porque confundem forma textual com qualidade estética.
Um romance coletivo escrito por treze autores
A proposta partiu do escritor & editor Wellington de Melo. Proposta recebida com entusiasmo pelos treze autores.
Encontrei a notícia do lançamento de Ninguém no mundo na edição de fevereiro deste Rascunho.
Fiquei muito a fim de ler esse quebra-cabeça literário. Sempre me interessaram bastante os universos compartilhados entre vários autores, desde que li, na juventude, Brandão entre o mar e o amor e O mistério dos MMM.
Com vinte e sete capítulos e pouco mais de cem páginas, Ninguém no mundo é mesmo uma sala de espelhos. Um mosaico carregado de afetos & relações intensas. Seu enredo costura diferentes perspectivas com naturalidade, oferecendo uma experiência multifacetada.
Por esse breve oceano virtual, da primeira até a última página transitam personagens sem mapa nem bússola: Dolores, Cássio, Lia, Marina, Clara, Valdemar… A linguagem revela vozes diversas que se entrelaçam com harmonia, mantendo a unidade, mas sem perder a singularidade de cada capítulo. O talento dos autores brilha justamente nessa pluralidade, nessa defesa das possibilidades criativas do trabalho coletivo.
Ninguém no mundo veio enriquecer minha pequena coleção de universos compartilhados. É mais uma obra que terei grande prazer em apresentar aos meus oficinandos. Aqui em casa, ela já ocupa um lugar de destaque ao lado de:
Brandão entre o mar e o amor é uma novela escrita por Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado & Rachel de Queiroz. Saiu em capítulos na revista Diretrizes e foi publicada em livro em 1942.
O mistério dos MMM é um folhetim policial escrito por Rachel de Queiroz, Antônio Callado, Dinah Silveira de Queiroz, Orígenes Lessa, Viriato Corrêa, José Condé, Jorge Amado, Lucio Cardoso, Herberto Sales & Guimarães Rosa. Saiu em capítulos na revista O Cruzeiro e foi publicado em livro em 1964.
A novela Olho mágico, sobre a excêntrica família Severo, surgiu durante a pandemia de covid.
Um dos projetos mais fascinantes & desafiadores que eu já coordenei foi essa novela coletiva, escrita por vinte autores. A obra nasceu & amadureceu de forma colaborativa, durante os encontros da incendiária oficina de criação literária do Club Athletico Paulistano.
Um trecho do texto de apresentação:
Em dezesseis reuniões via Zoom, uma por semana, a galera criou & articulou as dezenas de detalhes da narrativa que você está prestes a visitar — melhor dizendo, bisbilhotar. Então, que esse livro tenha nascido em plena pandemia de covid-19, em reuniões apenas online, e seja fruto de uma grande cooperação (repito: vinte autores!), só isso já dá a dimensão incomum & original da novela cheia de meandros & situações insólitas que você está prestes a começar a ler.
Mas antes, muito antes tivemos também os Contos & causos do Pinheirão e Um circo de percalços falsos, coletâneas de ficções publicadas pelas duas turmas do Ateliê de Criação Literária da Casa Mário de Andrade.
Quando foi isso? Caramba, preciso procurar nas estantes… Aqui estão os dois livros, foi em 2016.
Dois universos compartilhados bastante distintos, mas igualmente delirantes: de um lado um edifício de quarenta e cinco andares, abandonado há décadas e ocupado por um grupo de porras-loucas, do outro lado uma biblioteca fantástica, multidimensional, sem começo nem fim, também habitada por um punhado de aloprados.
Uma carta para Cortázar
Querido amigo:
Somos breves e muito pequenos, incapazes de compreender o Todo. Talvez por isso, frequentemente ignoramos o fato de que respirar representa um fenômeno estatisticamente impossível, uma sucessão de acasos perfeitos organizada pelo cosmos. Cada batimento cardíaco é um lembrete persistente de nossa sorte imensa. Contemplar o brilho das estrelas e sentir na pele o calor do sol é um privilégio.
Verdade verdadeira: somos breves e muito pequenos. Mas a biologia humana demonstra tamanha complexidade que simplificar sua trama me parece um erro grosseiro diante da magnitude do universo infinito. Existir constitui um evento extraordinário, uma centelha de consciência em meio ao silêncio absoluto da escuridão estéril do vácuo.
Devemos celebrar a oportunidade de apreciar as cores do entardecer, da arte, do beijo, valorizando os encontros e as raras conexões humanas. Percebo agora que a vida se manifesta até mesmo nas sombras, nos reflexos, nos sustos, na morte… Ela é um milagre probabilístico operando em cada célula do nosso corpo. Espero que você consiga enxergar essa magia nas pequenas coisas rotineiras, sentindo a vibração constante dessa criação espontânea, sem criador.
Somos poeira estelar dotada de sentimentos, meu amigo, uma obra-prima consciente moldada através de eras de evolução implacável, irracional, sem princípio nem fim. Então, mesmo sendo breves e muito pequenos, desejo profundamente que possamos festejar essa geometria feroz nas horas boas & ruins, todos os dias. Que possamos honrar esse presente formidável com alegria & gratidão, vivendo intensamente cada segundo dessa experiência passageira, desse presente único.