O menino sírio chamava-se Alan Kurdi. A fotografia do seu corpo inerte na praia de Bodrum, na Turquia, em setembro de 2015, não foi apenas mais uma imagem de guerra, mas o momento em que o sofrimento distante deixou de ser abstrato e se transformou num rosto, numa pequena camiseta vermelha, num silêncio que ninguém conseguia explicar. Essa poderosa imagem, estopim de raiva, incredulidade e emoção, fez nascer a necessidade de contar histórias que não têm espaço nas breves manchetes dos telejornais. A imagem revelou um escritor, Paulo Jorge Pereira, e o seu romance de estreia, Filhos da Primavera Árabe.
Que resta de nós quando a nossa casa se desfaz em ruínas e a nossa história se reduz a um rastro de pó e dor? Esta é a pergunta que ecoa por entre páginas de ficção e da vida real. Mais do que uma narrativa sobre uma guerra específica — a da Síria —, o romance é um confronto com a fragilidade da civilização e com a força descomunal da empatia, num mundo que parece ter perdido o norte há muito.
A gênese deste romance é um ato de resistência. O escritor não conseguiu ficar indiferente ao horror. Essa impotência transformou-se em ação jornalística e, depois, literária. Ao entrar em contato com refugiados sírios em Portugal, encontrou as vozes para contar uma história que não era apenas sua, mas a de milhões. O livro serve-se da realidade para construir a ficção de Mekdad e Wafaa, jovens professores universitários forçados a abandonar Damasco. Através deles, deixamos de ver os números das estatísticas e passamos a sentir o drama de quem deixou família, amigos e memórias, num tempo suspenso.
Este apelo à empatia insere-se, no entanto, numa crítica mordaz à inação da comunidade internacional e à ascensão de um discurso político desumano que o autor não hesita em classificar como “maléfico”. A Europa — que testemunhou a partida de tantos refugiados em fuga para outras terras, no tempo do nazismo — surge retratada na sua mais gritante contradição. Ao selecionar quem merece ou não ser acolhido, ao erigir muros enquanto se proclama defensora dos direitos humanos, o Velho Continente revela que os seus princípios de solidariedade “têm pés de barro”.
Segundo o escritor, “esta crise de valores não é acidental; mas o combustível que alimenta a ascensão da extrema-direita”, um fenômeno que observamos em Portugal e noutras democracias. A normalização de líderes que fazem da mentira um método de governação é o sintoma mais evidente de uma sociedade que parece caminhar “alegremente a bater palmas” para o abismo.
O título da obra é, ele próprio, uma ironia trágica. A Primavera Árabe, que começou como um sopro de libertação e um grito contra a opressão, rapidamente se perverteu, dando lugar a novos ditadores e a guerras devastadoras. Estes “filhos” são, assim, os órfãos de um sonho, os refugiados que a Europa vê com desconfiança. Se o romance diverge da natureza frágil, efêmera e ilusória da existência e da felicidade, ao insuflar nas suas páginas uma réstia de esperança, não o faz por utopia, mas por uma convicção profunda: a de que “há sempre alternativas”. Ao recusar a indiferença, Paulo Jorge Pereira cumpre o papel essencial de um escritor: o de nos mostrar o mundo não como ele é, mas como ele poderia ser, se escolhêssemos, finalmente, a humanidade.

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