incompreendo:
o coração de mangará é sempre ausência
Leio as várias características sobre o mangará, e o que encontro é uma parecença tamanha com a poesia. Senão vejamos: o mangará é também conhecido como umbigo ou coração da bananeira. Poesia, já que este ato de escrever nos remete, sem margem para dúvida, ao mundo do profundo. Devem-se remover as brácteas externas (folhas roxas) até chegar ao miolo branco, que é mais tenro. Poesia, pois que escrever é retirar camadas até chegar ao cerne, à carne. É recomendado deixá-lo de molho em água com vinagre ou limão para reduzir o amargor e evitar que escureça. Poesia: ela necessita do tempo de gaveta para apurar o alimento que será entregue como luz. Em tupi, o mangará é a inflorescência da bananeira. Poesia que só falta florir. Um coração que pulsa deslocado da árvore. Poesia que ganha vida quando a entregamos ao mundo. O livro meu coração é um mangará, de Déa Paulino, cumpre aquilo a que veio: é poesia, alimento, ausência, dádiva e morte.
O título já anuncia o gesto central do livro: uma declaração lírica, botânica e simbólica. Escreve-se para o mangará como extensão do próprio corpo; escreve-se para o mangará como quem escreve ao coração da palavra poética, como gesto de amor. A escritora se dirige a este coração (fora do peito) como quem dialoga com um ser vivo, estabelecendo uma relação contígua: um texto que pulsa entre a vida e a decomposição, entre a palavra que ainda se forma e o silêncio que já corrói. “A primeira coisa que eu penso é que eu escrevo para ele; não contra, não a partir, mas para.”
A origem dessa relação é profundamente carnal, mas também abriga algo místico. A escritora conta que começou a escrever poemas para o mangará em um retiro de silêncio de dez dias, sem livros, conversas ou qualquer tipo de comunicação; mesmo os olhares daqueles que se cruzavam eram evitados; um local que, não sendo religioso, comportava uma disciplina monástica. Foi então que viu a bananeira à porta do quarto. E, sem outro recurso, armou-se de caneta e papel e verteu os seus primeiros poemas de dádiva àquele “ser”, única companhia que quebrava a distância com o mundo. Da precariedade do “mosteiro” nasceu uma poética da atenção.
Mas não se encerra aqui este flerte, já que a autora utiliza o mangará nas lides culinárias: um processo trabalhoso e viscoso, que exige paciência e descarte; o que, mais uma vez, espelha o ato da escrita: “tira-se aquela pétala enorme (…) e só se aproveita o que está no meio, como comida”. Da inflorescência, o alimento se apresenta como uma espécie de “carne moída”; da mesma maneira simbólica que as palavras também assumem o seu papel de carne. A escritora, dessa forma, resgata por completo o repto de Natália Correia, pois que a poesia (assim como o mangará) é para comer; é alimento que se mastiga em silêncio e devoção.

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