1.
Ao publicar Ruth, em 1895, Lou Andreas-Salomé [ou, em citações ligeiras, somente Lou Salomé] tinha trinta e quatro anos e esta foi sua primeira ficção. A novela desde logo encontrou acolhida favorável no meio intelectual, precedida que foi da notoriedade obtida pela autora com a publicação, dois anos antes, de um importante ensaio dedicado a Nietzsche. Quanto à espantosa biografia de Andreas-Salomé, que pode ser conhecida mediante um clique na internet, cabe apenas sublinhar os diálogos pessoais ou por correspondência com o próprio Nietzsche, Freud e Rainer Maria Rilke, o que a coloca num plano de mulheres como Rosa Luxemburgo, Marie Curie, Anna Freud, Elisabeth Förster-Nietzsche.
2.
Procuro sempre me afastar da crítica biográfica; assim, estudo as obras de maneira independente da vida de quem as escreveu — faço isso mesmo no caso de Ruth, em que os estudiosos encontram a reprodução fiel de uma etapa inicial de sua vida, na qual viveu sob o contrastante domínio de seu tutor, o pastor Hendrik Gillot. A quem se interessar por essas suculências e outras, procure. Vai encontrar farto e indiscreto material.
3.
Então, o livro: [uso aqui a notável edição da coleção Meia Azul, da editora do mesmo nome, com sensível tradução de Inês Lohbauer; a coleção, num trabalho seminal, publica escritoras esquecidas ou pouco publicadas no Brasil]. Sob o estrito ponto de vista literário, a novela apresenta alguns vestígios amadores, quando, por exemplo, relega ao diálogo momentos que devem ser narrados. A decisão autoral é pela terceira pessoa, usando uma focalização onisciente — escolha que seria complicada hoje em dia; o leitor atual sente-se incomodado perante textos em que a voz narrativa sabe tudo, inclusive a interioridade de todas as personagens, preferindo, de modo esmagador, a primeira pessoa; mas essa onisciência era corrente nas ficções do século 19 e inícios do século 20. Caso falássemos de uma autora de agora, sua opção seria pela primeira pessoa, na voz de Ruth.
4.
Essas considerações não desmerecem em nada o livro; ao contrário: deve ser lido para conhecimento de uma personagem transgressora de finais do século 19. Erik, seu futuro tutor, que ostentava um espírito “moderno” e libertário, ao encarar uma turma estudantil de meninas, observou que as moças são interessantes como seres humanos, como mulheres, como adolescentes, constituindo um universo singularizado, mas que nada disso aparece em suas redações. Erik, ao fazer essa reflexão, está no piso superior da escola, e de lá é atraído pelo conjunto ruidoso de alunas no intervalo; seu olhar se fixa numa delas, a qual discute com suas colegas acerca de uma narrativa que está escrevendo. “Ela dava a impressão de estar se preparando para, a cada instante, romper alegremente todos os limites — quase sem querer, imaginava-se um bastão de Tirso nas mãos entrelaçadas atrás da cabeça — e o menino Baco estava formado”. A menina andrógina, que será Ruth, na altura com dezesseis anos, é apresentada com a mesma paixão com que Humbert Humbert descreve Lolita — e Erik, tal como a criatura de Vladimir Nabokov, fica imediatamente apaixonado.
5.
Mais do que tratar de um simples(?) caso de hebefilia, a novela serve para mostrar os estragos que podem resultar de uma relação dominador/dominado, e o quanto a consciência do dominado pode ser transformadora. No caso, para que Andreas-Salomé trace a atitude de Erik relativamente a Ruth. A observar que a perspectiva inicial é dele, e não, como seria esperável, de Ruth; isso tem uma intenção, a de marcar a personagem como machista-predador, que coisifica a menina como objeto sexual. A seguir, a focalização passa para Ruth, que procura Erik em sua casa, e ele começa o trabalho de sedução e repreensões, chegando a ponto de feri-la no pulso — mas a cena termina com ele enlaçando os braços em volta da cintura dela. Depois de artifícios junto aos tios de Ruth, que vivem em São Petersburgo, ele consegue que ela se torne sua aluna particular — relação que logo se transformaria com a mudança da jovem para a casa de campo de Erik, que fica a uma distância considerável, pois o acesso é apenas por trem.
6.
Naquela casa afastada e, logo a seguir, claustrofóbica, ocorre uma teia de relações excruciantes, pautadas por avanços e recuos, de que eram protagonistas Erik, a esposa deste, doente crônica e amarga, mais o filho de ambos, um menino aplicado a suas coisas, e, ainda, a governanta da família. E agora, Ruth. O que acontece a contar da chegada pode ser resumido numa fala de Erik:
— Olhe-me nos olhos, teimosa! — disse ele. — O que se agitou dentro de você? Acabe com essa sua última resistência; foi resistência, sim. Deixe-me rompê-la. Não faz mal se isso doer um pouco. É só você ceder, deixar acontecer. Jogue fora seu direito, fique sem ele. Fique apenas com seu direito infantil, isto é, o de poder obedecer sem perguntar.
7.
Ruth se comporta de modo errático, com aproximações e afastamentos. Ora quer, ora não quer, e isso exaspera cada vez mais Erik, potencializando seu nível de furor. “[Ruth] Quis ter força suficiente diante dele: independência… Abalados num cochilo ingênuo, seus sentimentos devem ter agitado os espíritos; um mundo de percepções incompreendidas lutava dentro dela”. Cria-se, desse modo, o conflito dominante da história, que vem a ser entre a cedência da liberdade e o desejo de independência. Já o drama pessoal de Ruth é como se sair bem nessa escolha, em que haverá certeiras perdas. Se, por um lado, ela se reconhece como frágil, pouco esperta, incapacitada de viver por si mesma, por outro, a subserviência lhe parece abjeta e que, com o tempo, irá deixá-la mais incapacitada do que antes.
8.
Ruth pode ser considerada uma novela de formação sui generis, pois, ao contrário de propiciar-lhe sabedoria para a vida, o tutor exerce seu poder tirânico sobre a pupila, desfazendo qualquer possibilidade de crescimento. Se houve alguma formação, é no sentido contrário do que desejava Erik. O leitor, ao final, juntando todos os tópicos da narrativa, dar-se-á conta de como isso aconteceu.
9.
Sob o ponto de vista cultural e sociológico, Ruth é a metonímia viva de uma legião de mulheres que viviam o mesmo drama, mas sem a coragem de sequer colocá-lo em questão — o que, me parece, foi o propósito de Lou Andreas-Salomé — e, por isso, só por isso, Ruth insere-se no cânone das literaturas libertárias e emancipadoras do Ocidente.