O impasse que nos convoca

A defesa da democracia passa pela formação de leitores capazes de enfrentar a desinformação, o autoritarismo e as ameaças à cidadania plena e à cultura
Ilustração: Thiago Thomé Marques
01/09/2026

O que mata a gente é a poesia mesma
Todo dia ali
Sendo não escrita
(André Luiz Bentes, poeta)

Cheguei em casa, vindo da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), e me pus a escrever esta coluna com as imagens da multidão de leitores, escritores, poetas, artistas e palestrantes que davam vida às centenas de editoras independentes, em demonstração pujante da bibliodiversidade brasileira. Representavam o esperançar de um presente e de um futuro mais equânime. Penso nisso e um temor me aflige — não de medo, mas de quem pertence a uma geração que enfrentou uma ditadura castradora e feroz.

Há um cenário de fundo que não podemos mais fingir ignorar. Vivemos um impasse democrático de proporções históricas, imposto pela fase atual de avanço das ultradireitas nas Américas, conduzido de forma cada vez mais explícita pelo intervencionismo que parte da Casa Branca e encontra eco em governos que se dizem soberanos, mas que parecem ter trocado a defesa de seus povos por alinhamentos de conveniência. Não se trata de uma disputa eleitoral qualquer. Trata-se de uma ofensiva contra a própria ideia de que o poder pertence ao povo — demos e kratos, o poder do povo, termo cunhado na Grécia do século 5 antes de Cristo e hoje reivindicado, com cinismo, até por déspotas notórios.

Em um universo permeado por negacionismos, por influencers que recriam arbitrariamente a história e as conjunturas políticas e sociais, a democracia deixou de ser um dado e voltou a ser uma conquista a defender. E é exatamente aqui, neste ponto de inflexão, que a leitura e a escrita reaparecem como o que sempre foram: instrumentos vitais da cidadania crítica, autônoma e participante.

Não preciso recorrer a abstrações para demonstrar a gravidade do momento. Basta olhar para o que aconteceu nos últimos meses, diante de nossos olhos, na América Latina. Entre maio e junho de 2026, um levante popular liderado por movimentos sociais, sindicais e indígenas tomou as ruas da Bolívia protestando contra um pacote de medidas liberais que aprofundou a crise econômica. Em vez de respeitar a soberania boliviana, Washington mandou um recado não solicitado: o secretário de Estado dos Estados Unidos classificou os civis mobilizados de “criminosos e traficantes de drogas” e afirmou que seu país “não permitiria” que aquele governo fosse derrubado — sugerindo, sem rodeios, que os Estados Unidos interviriam diretamente, se necessário.

Na Colômbia, a vitória do candidato ultradireitista nas eleições presidenciais reforçou a capacidade de influência norte-americana e coloca o país ao lado de Argentina, Chile, Bolívia, Equador, El Salvador e Paraguai no que especialistas chamam de um “cinturão conservador” e submisso. Na Venezuela, assistimos a uma forçada troca de comando no Palácio de Miraflores, sob coerção militar externa. O teatro dos mísseis contra barcos no Pacífico e no Caribe, a classificação das facções criminosas brasileiras PCC e CV como organizações terroristas por decreto unilateral, tudo isso compõe um quadro em que o objetivo de subordinação dos Estados latino-americanos aos Estados Unidos se apresenta como espetáculo de força.

E o Brasil? O pleito de outubro de 2026 tornou-se, nas palavras de analistas, o “próximo grande desafio” do governo Trump. Estamos novamente diante da possibilidade de um retrocesso democrático, com a eventual aprovação de anistia aos golpistas antidemocráticos de 8 de janeiro e subordinação de nossa soberania e desenvolvimento econômico, caso vença a ultradireita.

Todo esse cenário se ajusta ao retrocesso democrático global já detectado por pesquisas em várias partes do mundo, principalmente a erosão da ideia de democracia representativa e o reflorescimento dos ideais de lideranças autocráticas e Estados autoritários. Um dos principais motores dessa erosão interna é a expansão global do populismo, fenômeno que não é exclusivo de nenhum país, mas que nas Américas encontrou terreno fértil. A retórica populista, com frequência sustentada no racismo, no ódio e na discriminação, tem impulsionado campanhas eleitorais e explorado as deficiências internas dos sistemas democráticos. As articulações que proporcionam os ganhos bilionários das big techs criam as condições para o fomento das notícias falsas que invadiram as redes sociais em toda a região, dando o tom do que será a disputa. Para o observador atento, é nítido que a democracia na América Latina e no Caribe enfrenta um conjunto crítico de desafios, desde a baixa confiança pública nas eleições, nos partidos e nas lideranças políticas, até as deficiências na oferta das liberdades básicas, no Estado de direito, na segurança cidadã e na prestação robusta de serviços.

Nesse período histórico em que predomina a desinformação como arma de dominação eficaz da ultradireita antidemocrática, ainda estamos muito longe de atingir uma escala de programas e ações de fortalecimento democrático proporcional às necessidades de nossos países para essa disputa política com os que querem manter nossos povos alienados. Nesse contexto, despontam as fragilidades na urgência, na intensidade e na escala de ações enérgicas que deem chances aos nossos cidadãos de dominar esse instrumento vital que é a habilidade do uso das palavras que os atuais opressores controlam.

É preciso reafirmar que a crise democrática impulsiona a reflexão e a necessidade das ações em torno do papel fundamental da cultura, da educação e das artes — especialmente a literatura — na consolidação dos valores democráticos. As habilidades da leitura e da escrita emergem nesse contexto como ferramentas prioritárias para enfrentar os desafios contemporâneos: a desinformação, os discursos de ódio e as iniciativas de exclusão social.

Isso porque a democracia não é unicamente um sistema de governo, mas um projeto de sociedade que se materializa na cidadania plena. Formar, educar criticamente, atender direitos de cidadania são atributos das democracias enquanto sistemas de organização da sociedade. Desinformar, coibir o pensamento crítico, vetar direitos humanos são atributos das tiranias e das ditaduras que buscam controlar a vida em sociedade, desestruturando-a na reflexão, nas ações e na participação.

Apesar dos avanços dos primeiros passos no governo federal no último biênio com institucionalidade e programas de incentivo à leitura, ainda é patente o predomínio de governos estaduais e municipais que cultivam a retórica do amor pelos livros, de sua beleza e de sua crucial importância social, mas, em contraposição, administram mantendo a subalternidade do livro, da leitura e da biblioteca nos investimentos públicos locais, hoje bem alimentados na cultura pela Lei Aldir Blanc. Também exaltam as virtuosas e heroicas ações sustentadas pela sociedade civil, como as bibliotecas comunitárias, mas não hesitam em destruir, por cortes de verbas ou orçamentos muito insuficientes, essas bibliotecas vivas. Não nos enganemos: a destruição pode vir lentamente, pelo minguamento de verbas e de programas de sustentabilidade, e não apenas por atos violentos ou de destruição intempestiva.

A resiliência democrática é um processo multifacetado. A batalha pela democracia não pode ser ganha com uma única solução, mas requer um enfoque coordenado que mobilize todas as esferas da sociedade e do Estado para enfrentar a complexidade das ameaças contemporâneas, reconstruindo a confiança e a legitimidade do sistema a partir de múltiplos pontos de ação. E nesse mosaico de resistência, a formação de leitores ocupa um lugar central — amparada pela Lei nº 13.696/2018 (PNLE) e pelo PNLL 2026-2036 — por garantir a institucionalidade e a obrigatoriedade legal de continuidade administrativa e o compromisso federativo com a formação de leitores como direito de todos os brasileiros.

Diante do impasse democrático imposto pela ultradireita, a resposta não é o recuo, mas a disputa — e a leitura é uma de nossas armas mais poderosas. Nas próximas eleições de outubro, o Brasil decidirá, mais uma vez, se permanece no campo da democracia ou se arrisca o retrocesso. Que os defensores da leitura compreendam o que está em jogo: não se trata apenas de eleger governantes, mas de defender o direito de cada cidadão e cidadã de pensar por si mesmo.

José Castilho

É doutor em Filosofia/USP, docente na FCL-Unesp, editor, gestor público e escritor. Consultor internacional na JCastilho – Gestão&Projetos. Dirigiu a Editora Unesp, a Biblioteca Pública Mário de Andrade (São Paulo) e foi secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (MinC e MEC).

Rascunho