Para Ieda Lebensztayn, amiga da Quimera e do Mimus saturninus
Dia desses, sem causa nem porquê, me surpreendi pensando em três artistas de nível e escopo tão diferentes como Louis Thomas Hardin, o célebre Moondog; Susan Dietrich, mais conhecida pelo epíteto de The Space Lady; e Alan Bermowitz, cujo nome artístico era Alan Vega. Não sei se me vieram juntos à cabeça por terem todos apelidos que remetem ao espaço. Acho que não. Até pode ser que tenha pensado nos três por um aspecto bem chão, já que eram todos artistas de rua — o que os americanos chamam de buskers.
A rigor, para não forçar qualquer equivalência biográfica ou musical entre os três, é preciso considerar que apenas Moondog e The Space Lady foram propriamente buskers: Moondog, o Viking da Sexta Avenida, como era conhecido, tornou-se uma presença fixa em Manhattan, entre as ruas 52 e 55, compondo e vendendo partituras e discos. Aí, ele se apresentava com figurinos e instrumentos confeccionados por ele mesmo, o que reforçava a impressão dos passantes de que a sua esquina era um lugar arcaico, ritualístico, com as suas próprias regras a entender e aceitar. Susan Dietrich, por sua vez, sustentou-se por anos tocando em espaços públicos de Boston e de San Francisco, sobretudo no bairro gay do Castro, sozinha ou com o seu companheiro Joel, que caiu na clandestinidade para não servir na guerra do Vietnã. Quando Susan atuava como The Space Lady, dava a impressão de converter o transporte público ou a rua onde tocava num teatro cósmico de bolso, pois a referência espacial se conjugava estranhamente com certo ar íntimo, quase doméstico.
O caso de Alan Vega é um pouco diferente: ele se formou numa cena de ocupação urbana, ligada ao Project of Living Artists, que ficava aberta 24 horas por dia. A ocupação esteve situada, primeiro, no entorno da Broadway/Waverly e depois no SoHo. As suas esculturas luminosas de crucifixos e o seu rockabilly eletrônico eram carregados de uma agressividade que parecia brotar diretamente das ruas mais sujas e ameaçadoras da Manhattan dos anos 1960/70 (nada a ver com a pré-Disney dos dias atuais).
Pensando nesses três artistas, que jamais estiveram juntos de fato, acho possível dizer que formavam uma espécie de vanguarda pedestre, na qual a música tinha uma presença marcadamente territorial. A ocupação do ponto urbano funcionava como um palco para eles, mas não apenas isso: a própria cidade e seus habitantes eram incorporados à sua música, seja na forma de ruídos do trânsito, de ameaças que irrompiam aqui e ali, ou até na assimilação das atitudes dos passantes e na eventual contribuição em dinheiro que faziam ou não.
Além disso, os três artistas construíram para si uma persona que era tão relevante para a composição como os ruídos da cidade ou as tecnologias pobres que usavam. No entanto, mesmo aqui, há diferenças a considerar: Moondog trabalhava com padrões rítmicos próprios, contrapontísticos, celebrados depois pelos minimalistas; The Space Lady usava um Casiotone barato com efeitos de delay que produziam versões espectrais das canções pop da época; Alan Vega, sobretudo quando se apresentava com Martin Rev no duo Suicide, projetava jogos de luz sobre um ritmo eletrônico elementar e cantava com uma reverberação na voz que lembrava um Elvis fantasmático. Cada um a seu modo, os três produziam uma arte simultaneamente arcaica e futurista, que juntava o tambor e a metrópole em Moondog; a canção pop e o espaço sideral, em The Space Lady; o rock primitivo e a drum machine, no Suicide.
Para mim, os três funcionam como resíduos ativos dos anos 60, e é isso o que me faz gostar tanto deles. São artistas que transformaram em estética aquilo que então parecia uma crise definitiva das instituições, recusando a carreira artística mainstream em favor dos movimentos do corpo e dos eventos hic et nunc da rua — ou seja, fazendo da limitação técnica e do lugar público uma poética consistente. Nos três havia a mesma desconfiança do palco tradicional: Moondog ocupava a calçada com as suas composições e a sua figura hierática; Alan Vega deslocava a música para a performance no espaço alternativo; The Space Lady carregava a utopia hippie no teclado portátil e no divertido capacete alado com uma luzinha vermelha acesa no topo.
No entanto, mesmo esse meu amor sixties por eles tem de ser matizado: é verdade que Moondog foi admirado por beats e hippies, por músicos e artistas de vanguarda, mas a sua música não tem nada a ver com a liberação psicodélica. É a música de um compositor excêntrico que decidiu transformar a esquina de uma cidade moderna numa aldeia tribal. Alan Vega, por sua vez, liga-se aos anos 60 pelo seu desfecho mais sombrio, à maneira do Velvet Underground e dos Stooges. Da comunidade paz & amor de Woodstock, ele só aproveita a energia coletiva e sexual, a qual, no entanto, transforma em colapso urbano e confronto teatral. O Suicide está mesmo a um passo do punk novaiorquino de meados dos anos 1970, mas a imaginação de Alan Vega ainda pertence ao final da década anterior, tanto pelo viés anti-institucional como pela apresentação performática. A sua obra vai na direção contrária à da gentrificação que varreu não só os pobres, mas a própria cidade para fora do convívio social. Já The Space Lady certamente está vinculada a um modo de vida contracultural: pé na estrada; pobreza meio forçada; sobrevivência nas ruas ou em comunidades alternativas. Quando ela faz covers de rock em versão etérea, com teclado barato, irrompe imediatamente em nossos ouvidos uma espécie de utopia dos anos 60… só que depois da queda. Na sua voz não se ouve a epopeia da comunidade lisérgica — como na de Grace Slick, por exemplo —, mas sim uma aparição perdida e solitária, a dar tons alienígenas aos hits da época. Ou seja, o que eles têm mesmo em comum é uma persona marcante que se instala nas ruas como uma instituição clandestina: Moondog fazendo da esquina uma cátedra de música contrapontística; Alan Vega, um campo de choque; The Space Lady, uma cápsula extraterrestre para crianças.
E, no entanto, ainda agora, não estou certo de por que fui pensar nesses três como um conjunto. Vou arriscar, porém, uma hipótese de ocasião, ao sabor das páginas de jornal, nas quais não há assunto em que não caia de paraquedas a figura repulsiva do atual presidente norte-americano. Grosseira, sempre cercada de gente inacreditavelmente cafona, a ostentar vaidade e venalidade como se fossem virtudes cívicas, talvez eu a tenha contraposto, sem querer, por um simples reflexo de autodefesa, a essas três figuras-limite da promessa contracultural norte-americana. Moondog, The Space Lady e Alan Vega se livraram de toda a tralha da sociedade do consumo, da propaganda e da guerra para se entregar às ruas, em busca — se não de uma vida experimental que tornasse crível uma obra experimental, como diria Roberto Piva —, ao menos de uma vida que lhes permitisse encontrar alguém (ou algo além de merda) dentro dela.