Dica de viagem

A estreia de Bruna Schmitz transforma o absurdo político recente em sátira heroico-cômica, combinando gargalhada, delírio verbal e inteligência
Ilustração: Mariana Tavares
01/06/2026

Viagem à Ilíria, romance de estreia de Bruna Schmitz — de quem nunca tinha ouvido falar, mas que teve a imprudência de me enviar o seu livro —, foi uma dessas boas surpresas que, de vez em quando, aparecem no meu endereço postal. Já havia falado desse fenômeno a propósito de Suíte, de Mariella Augusta. São livros de pequenas editoras que chegam sem publicidade, sem orelha ou indicação crítica e, sobretudo, que estão fora dos lançamentos óbvios das grandes editoras e das pautas habituais que esgotam a minúscula grade de resenhas dos jornalões.

Usualmente, esses livros têm capas feitas por IA, em editoras que gastam o mínimo possível com eles, interessadas que estão menos em fazer circular o livro do que em cobrar a sua confecção do próprio autor. Não é o caso, contudo, de Viagem à Ilíria, que tem uma boa capa, de autoria de Gabriel Esteves — o qual, por sua vez, é marido de Bruna, sendo ambos coproprietários da editora Três Maçãs, de Florianópolis (SC), cuja estreia no mercado mundial se deu justamente com esse livro. Economia doméstica é isso aí!

O livro tem como inspiração explícita a triste embaixada de Jair Bolsonaro à Rússia, em fevereiro de 2022, às vésperas da invasão da Ucrânia por Vladimir Putin. Assim, dentro da trama, fala-se da ida de um presidente brasileiro à corte do “Imperador da Ilíria”, em meio a uma crise internacional que claramente alude ao tabuleiro geopolítico de 2022. A intriga, porém, vale menos como romance de atualidade em chave cifrada do que como máquina cômica de deformação: assessores, ministro, primeira-dama, palácio, roupas, objetos e protocolos de Estado etc. são todos enfiados num mesmo saco de fabulação satírica, na qual o delírio verbal passa a ser a forma mesma da política.

Achei um grande acerto do romance deslocar as figuras públicas contemporâneas para o plano da epopeia heroico-cômica, onde a exorbitância da conduta encontra equivalente formal na exorbitância da narração. Desde as primeiras páginas, a visada estúpida do presidente parece ser uma maneira de entortar tudo o que ele vê, toca, deseja ou pensa — embora “pensar” seja um termo demasiado forte para o caso. A discussão inicial sobre a viagem, conduzida por assessores que debatem “a fome” em termos de paradoxo burocrático, é exemplar disso: a tolice tomou conta do país. O divertido, porém, é que isso se demonstra por meio de uma linguagem inflacionada, na qual os disparates sucessivos são como um excesso de coerência autossatisfeita.

Assim, o trunfo do livro está em instalar a sua comicidade na própria sintaxe da narração, de modo a produzir uma cadeia de analogias e qualificações que parecem engrandecer o personagem, apenas para entregá-lo ao máximo ridículo de sua falsa majestade. A autodecantada “autenticidade” do Presidente populista é convertida em doutrina grotesca do narcisismo soberano: transbordando a si mesmo, o seu heroísmo consiste em não conhecer nenhuma exterioridade que não seja extensão lisonjeira do próprio corpo. Esse ponto é formalmente decisivo, porque permite ao romance mostrar que a farsa contemporânea do poder se sustenta graças a uma retórica autossuficiente, que metaboliza qualquer objeção como prova suplementar de grandeza.

Ademais, a personificação dos objetos, dos ambientes e das vestimentas tratadas por Bruna Schmitz funciona muito bem. O palácio ressona, as vidraças testemunham, a gravata se torna peça dramática, a jaqueta azul-cobalto entra em cena como se carregasse uma memória imperial, o beijo da primeira-dama ganha materialidade anfíbia e assim por diante. Descreveria o recurso como uma técnica de redistribuição da ação narrativa: num universo em que a vontade política se tornou, ao mesmo tempo, aleatória e absoluta, os objetos passam a deter uma espécie de lucidez cênica que falta às personagens humanas. Isso gera um duplo efeito: por um lado, o mundo inteiro parece contaminado pela farsa; por outro, a própria materialidade das coisas devolve ao leitor a medida concreta do grotesco.

Outro aspecto a destacar na bela estreia de Bruna Schmitz é o problema moral do romance. Satirizar figuras públicas histriônicas sempre envolve o risco involuntário de magnificação. A caricatura, quando muito carregada de energia, pode terminar por conceder ao caricaturado uma centralidade indesejada. O Bozo podia acabar herói do texto que o esculhamba. Viagem à Ilíria contorna esse risco de modo hábil ao deslocar parte dos impasses éticos e intelectuais para o Ministro dos Assuntos Sérios (MAS). Esse personagem, desde a entrada memorável, organiza um contraponto decisivo ao presidente: ele pertence ao regime do cálculo, da hesitação, da consciência do ridículo, isto é, a um plano em que o riso já traz em si uma acusação de enganação e de esvaziamento. Com isso, o Presidente pode permanecer como força de propulsão cega, empurrado por caprichos idiotas que nunca deixam de encontrar aduladores. Ou seja, o livro distribui funções narrativas conflitantes de maneira a impedir que o centro farsesco se converta em heroico.

Além disso, o gosto pela enumeração incongruente, pela imagem comparativa imprevista, pela pseudodedução conceitual, pela solenidade rebaixada, entre outros procedimentos, produz uma textura verbal incomum na ficção brasileira recente, ao menos daquela que tem sido mais celebrada nos jornais, em geral obediente à pseudoseriedade das teses e ao coloquialismo banal das falas. Aqui, ao contrário, a frase trabalha para manter suspenso o disparate. Quando acerta, e faz isso frequentemente, o resultado é de pura gargalhada — e não se pode elogiar com avareza um livro que faz rir.

Talvez se possa dizer que a extensão do herói-cômico às vezes cobra seu preço: a invenção contínua pede sempre mais fôlego, e a sucessão prolongada de achados acaba sendo impotente para evitar certa redundância do andamento. Algum cochilo se insinuou, vez por outra, ao longo de minha leitura, mas essa observação é menos objeção de princípio do que índice da própria aposta do livro. Bruna Schmitz escolheu construir uma engrenagem de saturação cômica, e algo desse tipo vive mesmo do risco de excesso. Melhor assim do que a prudência anêmica de tanta ficção pretensamente séria.

No conjunto, Viagem à Ilíria encontra, para um material político inacreditável em si mesmo, uma forma literária capaz de elevá-lo ao delírio sem absolvê-lo e de rir dele sem abrir mão da inteligência. Em tempos nos quais a realidade parece disputar com a caricatura o prêmio de maior inverossimilhança ou absurdo — David Lynch disse algo assim —, o romance de Schmitz mostra que a literatura ainda é uma questão. E que não se trata apenas de imitar o caos, mas de lhe capturar a forma.

Fora daí, se eu pudesse palpitar, tornaria o livro mais econômico, isto é, menor em extensão e mais autorreferencial em todos os seus excessos. Por exemplo, não entendo por que não foi o Ministro dos Assuntos Sérios a incendiar o penacho do Bozo na cena final, mas fico por aqui para não dar mais spoiler.

Viagem à Ilíria
Bruna Schmitz
Três Maçãs
264 págs.
Alcir Pécora

Crítico literário, é autor de Teatro do Sacramento (1994); Máquina de gêneros (2001) e Rudimentos da vida coletiva (2002). É organizador de A arte de morrer (1994), Escritos históricos e políticos do Padre Vieira (1995), Sermões I e II (2000-2001); As excelências do governador (2002); Lembranças do presente (2006); Índice das coisas mais notáveis (2010); Por que ler Hilda Hilst (2010). Editou as obras completas de Hilda Hilst (2001-2008), Roberto Piva (2005-2008) e Plínio Marcos (2017).

Rascunho