As malditas

Maria Lúcia Dal Farra examina escritoras marcadas como malditas e mostra como o estigma feminino pode se tornar uma força crítica na literatura atual
Maria Lúcia Dal Farra, autora de “O maldito no feminino”
01/08/2026

Maria Lúcia Dal Farra foi minha professora de literatura portuguesa na graduação do antigo curso de Ciências Humanas da Unicamp, em meados dos anos 1970. Foi a melhor professora que tive, ao lado do inesquecível samurai Haquira Osakabe. Como crítica, publicou O narrador ensimesmado (sobre Vergílio Ferreira) e A alquimia da linguagem (sobre Herberto Helder), além de estudos dedicados a Florbela Espanca e tantos outros artigos e ensaios. Como poeta, escreveu Livro de auras (1994), Livro de possuídos (2002), Alumbramentos (2012), Terceto para o fim dos tempos (2017) e Livro de erros, de 2024, além de um texto em prosa, Inquilina do intervalo (2005).

O livro que Maria Lúcia lançou recentemente, O maldito no feminino: a escrita literária transgressiva em língua portuguesa, é uma investigação de fôlego sobre as figuras da mulher que, na literatura, foram postas sob o signo da heresia, sofrendo algum processo de expulsão simbólica. O estudo nasce de um percurso crítico que começa com Florbela, mas se amplia até compor uma espécie de genealogia do feminino maldito nas literaturas de língua portuguesa e ainda convoca figuras arquetípicas como Lilith, Eva, Safo etc.

A ideia-chave do livro, penso, é a de que o “maldito”, quando passa para o gênero feminino, já não pode repetir a figura moderna do poeta marginalizado pela sociedade burguesa. Em Baudelaire, Poe e Verlaine, a maldição ainda participa de uma, digamos, economia da glória: o poeta é repelido pelo mundo, mas a repulsa alimenta a sua aura; é condenado pela moral comum, mas a condenação se converte em distinção; aparece como fracassado diante de seus contemporâneos, mas o fracasso promete a recompensa tardia da consagração. Ou seja, o homem maldito tende a ter a sua queda narrada como um sinal de eleição.

No caso da mulher, o mecanismo seria outro, mais antigo e brutal. A maldição não começa com uma ruptura estética ou com a recusa da moral burguesa: a mulher é amaldiçoada antes mesmo de escrever, pois a tradição, a doxa, já a codificou como falta ou como descontrole — como corpo perigoso, por assim dizer. Por isso, a tese de Maria Lúcia não é a simples transposição da categoria de “poeta maldito” para a de “mulher maldita”, mas uma tentativa de deslocamento da própria categoria. A maldição feminina não seria apenas uma posição, digamos, literária, mas uma inscrição histórica, moral e sexual que a escrita pode eventualmente assumir e devolver como força crítica.

A fim de redefinir o “maldito”, Maria Lúcia peregrina por lugares infectos como a tradição demonológica de Lilith, a culpa inaugural de Eva, a bruxaria, a mulher sensual, a freira amante, a autora censurada etc. O feminino aparece, assim, como uma zona atravessada por muitos medos sociais: medo da autonomia, da inteligência e, claro, da sexualidade. Ao mesmo tempo, é justamente nessa trilha de desqualificações herdadas que, para Maria Lúcia, se abre a possibilidade de uma literatura “transgressiva”. A mulher, então, escreve não apesar da pecha lançada contra ela, mas a partir dela, convertendo o estigma em statement, vale dizer, em procedimento irredutível da sua criação.

O livro me pareceu bastante agudo quando se detém em figuras nas quais a maldição não diz respeito apenas ao tema, mas também revela a própria forma do conflito. Florbela Espanca, por exemplo, concentra a erotização da dor e a heresia sentimental. Gilka Machado e Judith Teixeira criam uma escrita em que o erotismo feminino rompe o lugar decoroso reservado à mulher. Cassandra Rios torna explícita a relação entre lesbianidade, pornografia e censura. Natália Correia e Maria Teresa Horta transformam a sexualidade em desafio político. Já Adília Lopes produz uma modalidade mais oblíqua de maldição, que passa pela corrosão do sublime pelo doméstico e pelo ridículo. Adélia Prado, por sua vez, desloca a questão para o atrito entre a cozinha e a liturgia, fazendo do feminino uma experiência simultaneamente carnal e sacramental.

A hipótese do livro, porém, como todas as hipóteses fecundas, também tem as suas zonas de instabilidade. Uma delas, a meu ver, está na extensão do elenco convocado pelo livro. Como a categoria de “maldito” se expande muito, acaba por abarcar figuras bastante distintas: a mulher erótica, a santa, a bruxa, a lésbica, a doméstica, a mulher pós-salazarista, a mulher colonial, a mulher escritora, a mulher performática e, enfim, a mulher que simplesmente produz algum desassossego na ordem simbólica. Essa amplitude dá ao livro uma grande força panorâmica, mas também ameaça afrouxar o conceito. Quando tudo o que se opõe à norma passa a ser “maldito”, o termo se aproxima demais de outros como “insubmisso”, “feminista”, “excêntrico” ou “crítico”, perdendo a sua precisão mais áspera.

É nesse sentido que alguns nomes relacionados no livro me parecem menos convincentes. Inês Pedrosa, por exemplo. O próprio livro a apresenta como escritora premiada, institucionalmente reconhecida e diretora bem-sucedida da Casa Fernando Pessoa, destacando sua atuação pública e cultural. Enquadrá-la como “maldita” depende mais de sua tematização da mulher pós-salazarista, que luta pela sua liberdade, do que de uma condição efetiva de marginalidade. O caso dela talvez pertença mais ao campo da “crítica feminista” da sociedade portuguesa do que ao do “maldito”.

Por outro lado, como explicar a ausência de Hilda Hilst no livro das malditas? Poucas escritoras em língua portuguesa se ajustariam com tanta precisão ao problema que o livro propõe: obscenidade, blasfêmia, mística degradada, riso escatológico, isolamento social, recusa do decoro, enfrentamento do mercado, corpo velho, alcoolismo, desejo sem pejo, busca insana de Deus, animalidade, linguagem convulsiva — tudo isso que me vem sem esforço à cabeça está na literatura dela. No caso de Hilda Hilst, a maldição não é uma aura biográfica nem sequer um tema apenas: é uma operação interna da linguagem que se lança de peito aberto contra a literatura edificante e até contra a expectativa de legibilidade do texto. Ou seja, um estudo de Hilda Hilst teria permitido ao livro reforçar a sua versão mais extrema do maldito feminino. Sem Hilda, o livro desperdiça o seu melhor argumento.

Seja como for, até por conta das tensões que traz à tona, diria que O maldito no feminino é um livro que obriga a reler a tradição literária de língua portuguesa a partir de figuras femininas nas quais se colaram os piores labéus. Maria Lúcia mostra, então, que a mulher não entra no campo literário apenas como um sujeito tardio de direitos (o que é importante, mas banal). Entra como corpo marcado por uma longa história de incriminação simbólica. Escrever, nesse quadro, não é simplesmente expressar uma identidade excluída ou representar uma comunidade que quer se empoderar, mas sim disputar um jogo no campo do adversário. No caso, o campo da própria língua, no qual a mulher amaldiçoada se torna a mulher que faz da maldição a forma radical da sua própria voz.

O maldito no feminino: a escrita literária transgressiva em língua portuguesa
Maria Lúcia Dal Farra
Editora da Unicamp
448 págs.
Alcir Pécora

Crítico literário, é autor de Teatro do Sacramento (1994); Máquina de gêneros (2001) e Rudimentos da vida coletiva (2002). É organizador de A arte de morrer (1994), Escritos históricos e políticos do Padre Vieira (1995), Sermões I e II (2000-2001); As excelências do governador (2002); Lembranças do presente (2006); Índice das coisas mais notáveis (2010); Por que ler Hilda Hilst (2010). Editou as obras completas de Hilda Hilst (2001-2008), Roberto Piva (2005-2008) e Plínio Marcos (2017).

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