Diz-se que o cronista é um andarilho urbano. Um flâneur — como definem os pedantes. Uma figura fugidia e incerta, que vagueia pelas ruas e se deixa impregnar pelo que vê. Sem ter coisa melhor para dizer, não posso negar, eu mesmo já repeti isso muitas vezes. Em que triste pessoa eu me transformo nessas horas. Abdico de pensar e me torno um repetidor. Um papagaio. Traio assim a própria crônica, que não deve ser repetição, mas criação.
Agora mesmo, tendo que entregar minha crônica mensal ao senhor Pereira, aqui estou eu, andando pelo calçadão da Rua XV, esforçando-me para imitar Rubem Braga. Melhor dizer: para ser seu papagaio. Mas serão os papagaios cronistas? Preciso admitir: transformo-me, assim, em um ser preguiçoso e patético. Um zumbi da literatura. Ando, ando, entro em cafés, botecos e galerias, observo os pedestres. Esforço-me para estar à altura da tradição literária em que ousei me meter. Mas não chego a nada, a não ser ao fracasso. Repetir é a forma mais grave de fracassar.
Como costumo fazer nos momentos em que nada funciona, experimento inverter meus pensamentos. Decido que, em vez de andar, preciso parar. E que, no lugar de procurar, devo definir de antemão o que busco. Devo achar antes de procurar. Abandonar a vadiagem intelectual e me agarrar a um sentido. Também o cronista pode saber o que quer, por que não? Posto isso, eu me pergunto: o que eu quero?
Para facilitar minha busca, resolvo me fixar na primeira imagem que surgir à minha frente. Inspiro-me, de novo, em Rubem Braga, que só escreveu A borboleta amarela, uma de suas crônicas mais célebres, porque, um dia, caminhando atrasado pelo centro do Rio de Janeiro, esbarrou com uma borboleta amarela e deixou tudo de lado para segui-la. Foi a partir de uma escolha, e não de uma procura errática, que Braga se tornou um grande cronista. O mestre de todos nós.
Talvez, mais do que um flâneur, o cronista seja um detetive. Não um detetive que recebe encomendas, mas alguém que escolhe ele mesmo o que busca. Um detetive particular — tão particular que, além de ser o investigador, ele é, ao mesmo tempo, o cliente que lhe requisita o serviço. Alguém que sustenta suas escolhas. Esqueçam a cidade e seus flâneurs, os andarilhos sem rumo, nada disso interessa. Tudo se passa dentro, e não fora do cronista. Muito bem. Mas o que desejo investigar? Preciso eleger um objeto de posse. O primeiro objeto que — como uma borboleta amarela — surgir diante de mim. Mas terá sido assim, com uma postura assertiva e um olhar decidido, de “homem que sabe o que quer”, que Rubem Braga encontrou sua borboleta amarela? Parece que não.
Trato de reler a crônica, de 1953. Não, não foi com essa postura reta e positiva que Braga chegou à sua borboleta. Caminhava pelo centro do Rio, apressado — tinha algum compromisso, uma entrevista de trabalho, um dentista — e foi por acaso, distraído, que ele encontrou seu objeto amado e dele se apossou. A partir do momento em que o encontrou, deixou tudo para trás e não o largou mais. Não flanou, amou.
Pois bem, e eu? Em vez de procurar, preciso escolher. Detenho-me no meio do calçadão e fecho os olhos. Ao abri-los, o que vejo? Um vira-latas que fuça numa floreira. Eis minha borboleta, que não é uma borboleta, nem é amarela: é um cachorro. Um cachorro malhado, que zanza pela Rua XV. Ele sim, o verdadeiro flâneur. É preciso deixar claro de uma vez: o flâneur é ele, o cachorro, eu não passo de um cronista. Digo mais: um cronista que, a partir desse momento, se dedica a investigá-lo. A partir de agora, o vira-latas é o objeto do detetive em que me transformei. Eu, o perseguidor. Ele, a vítima. Vamos atrás do bicho.
Mas penso: talvez eu esteja enganado. Vira-latas buscam, quase sempre, alguma coisa também. Um osso, um resto de comida, uma porcaria qualquer que lhes sirva de alimento. Não andam à toa, não flanam, sabem o que querem. Avançam ansiosos, com a língua de fora e a passos tortos. Diante dessa constatação, muito constrangido, vejo-me obrigado a perguntar: será o vira-latas malhado também um cronista? Talvez não. Parece que o vira-latas não busca algo fora dele. O que ele mais quer é matar algo que está dentro dele — sua imensa fome. O que ele busca é o fim de toda busca. Será o vira-latas um monge?
Enrolado em meus pensamentos, já ia perdendo o vira-latas de vista. Ele cheira árvores, urina em postes, desvia-se das pessoas. E corre. Terei fôlego para acompanhá-lo? Uma mulher me olha com espanto. O que as pessoas veem quando me veem? O que a mulher vê em mim enquanto corro? Um cronista? Talvez ela nem saiba da existência das crônicas. A mulher se limita a ver um homem que corre atrás de um cachorro. Cena estranha, bizarra, não deveria ser o contrário? Nos filmes e nas novelas, são os cachorros que correm atrás dos homens. Se um leitor de crônicas, sentado em um dos bancos do calçadão, estiver observando essa cena, o que fará? Escreverá uma crônica?
Preciso me agarrar a meu objeto. Mas posso ter errado. Talvez meu objeto seja o homem de sobretudo que vem em minha direção. Talvez a menina que berra à porta da sorveteria. Pode ser o guarda de trânsito que apita na esquina. Vacilo e não consigo me decidir. Até que, sem nenhum interesse por nenhuma dessas figuras, indisposto e vazio, me vejo refletido no vidro de uma loja. Paro e, assustado, me olho. Me observo, enquanto alguma coisa se agita dentro de mim. Talvez, enfim, eu tenha chegado ao que busco. E se o objeto que busco for eu mesmo?
Desmancha-se, com isso, tudo em que sempre acreditei, tudo o que eu sempre disse a respeito das crônicas e dos cronistas. E se desfazem também todos os desmentidos que levantei a respeito. Parece que eu descobri: os objetos da crônica — uma borboleta amarela, um conde e seu passarinho, um pé de milho — não passam de disfarces que o cronista usa para falar de si mesmo. Máscaras, como no carnaval, usadas para esconder a grande melancolia que os cronistas levam no peito. Como não querem exibir sua dor, disfarçam-se. Uma vez fantasiados, escrevem crônicas. E assim, quando o olham, dizem: “Lá vai um cronista”.