Conversa com Stephanie Borges
1.
Carola: Me lembro, eu estava na livraria e vi teu livro numa bancada, comprei na hora. O tĆtulo Talvez precisemos de um nome para isso aponta para a necessidade de transformação, mudanƧa de paradigma nĆ£o só na literatura, mas na nossa forma de falar o mundo, de descrevĆŖ-lo, que Ć© tambĆ©m a nossa maneira de habitar esse espaƧo. O tĆtulo do seu livro foi me acompanhando. Depois, quando cheguei em casa, comecei a ler e foi uma experiĆŖncia muito impactante. VocĆŖ transita entre vĆ”rias linguagens, tons, intensidades, saberes. Como quem danƧa. Uma danƧa outra. Copio aqui um trecho:
(…)
talvez antes:
sim, precisa pedir
não é exótico
na dúvida se sua opinião pode ser ofensiva apenas sorria
uma das caracterĆsticas
que revelam a saĆŗde
Ć© o brilho
não confunda
com retoques fotogrƔficos
ou a ilusĆ£o nos primeiros dias de quĆmica
o formol cai bem aos mortos
mas a indústria é ótima com eufemismos
a progressiva de chocolate
a progressiva marroquina
a progressiva de botox
a progressiva americana
a progressiva inteligente
Lembrando sempre que a confianƧa no progresso
deu ruim no sƩculo 20
(…)
E fiquei pensando na palavra progresso, esse tempo linear rumo a lugar nenhum. Teu livro tem um subtĆtulo: [ou o poema de quem parte]. Pensando nisso, na partida, que outros tempos Ć© possĆvel inventar/recuperar?
Stephanie: O tempo Ć© muito surpreendente. Tenho dificuldade em dar tĆtulos aos meus poemas, e Talvez precisemos de um nome para isso me parecia brincar com o meu desconforto. O tĆtulo veio de um verso do primeiro poema, era algo presente em todo o processo de escrita, mas só defini semanas depois de terminar o livro. Eu quem precisava de tempo para entender como a questĆ£o da autodefinição, de buscar outras formas de pensar e se expressar estavam presentes nos poemas. Quando vi o livro pronto, achei que foi uma escolha feliz. Penso que a experiĆŖncia negra tem diferentes relaƧƵes com o tempo. De certa forma, a gente olha bastante para o passado ā para as vidas dos nossos familiares, para aprender, preservar o que foi conquistado por outras geraƧƵes ā, mas tambĆ©m nos preocupamos com os futuros individuais e o coletivo. Acho que esse processo de ressignificar ideias, acontecimentos, imagens, Ć© uma forma de inventar outros tempos. Tem um orĆkƬ, um tipo de poema ou aforismo para refletirmos sobre as caracterĆsticas dos OrixĆ”s, que diz: āExu matou um pĆ”ssaro ontem com uma pedra que atirou hojeā. Ć uma experiĆŖncia totalmente diferente do tempo, a ideia de que algo do passado pode ser mudado agora. Mas nĆ£o Ć© isso que a gente faz quando toma atitude no presente que impede que o passado se repita? NĆ£o sei se Ć© o caso de recuperar o tempo, mas de mudarmos nossa relação com ele. Vivemos um momento de muito imediatismo, aceleração, a sensação de que estamos sempre apressadas ou atrasadas. Ćs vezes acho que parte do ataque do capitalismo neoliberal Ć nossa subjetividade passa por criar essa sensação de que nunca hĆ” tempo suficiente, e aĆ nĆ£o nos perguntamos: com o que eu gasto meu tempo? Partir Ć© uma ruptura em vĆ”rios sentidos, tambĆ©m Ć© um movimento. Eu pensava muito esses poemas como um deslocamento, um percurso. VocĆŖ fala de uma danƧa, nĆ£o tinha me ocorrido, mas tambĆ©m pode ser. Ćs vezes penso que esse livro só foi possĆvel por causa de vĆ”rias rupturas. Quando resolvi rejeitar a quĆmica do alisamento, as imagens de controle do corpo negro, uma poesia contemporĆ¢nea classe mĆ©dia voltada para escolas americanas e europeias, percebi que nĆ£o havia muitos modelos a seguir, o que de inĆcio era assustador mas tambĆ©m me permitia jogar com diversas linguagens e referĆŖncias. Eram caminhos que certamente nada tinham de lineares.
Carola: Talvez o passado (a memória) nĆ£o seja muito diferente de um livro que a gente escreveu. Achamos que escrevemos determinada coisa, mas um dia, muitos anos depois, nos damos conta que hĆ” ali outros significados tambĆ©m, leituras que nem imaginĆ”vamos, e que transformam tudo, o passado, o presente, e o futuro da própria narrativa. Pensando nisso, o orĆkƬ que vocĆŖ citou (lindo!) tem muito a ver com essa linguagem que nunca deixa de se escrever, que nĆ£o se esgota num Ćŗnico significado, e que dĆ©cadas, Ć s vezes sĆ©culos depois, volta, nos permitindo ressignificar toda a história (aquela que imaginĆ”vamos encerrada). Seja ela num nĆvel pessoal, cultural ou literĆ”rio. VocĆŖ falou sobre o ataque do capitalismo neoliberal, concordo totalmente, e talvez entre as tantas falĆ”cias esteja a ideia de que nĆ£o Ć© possĆvel reescrever o passado, como se ele fosse uma espĆ©cie de monólito (tipo um livro de História), e existisse descolado do presente, e sabemos que nĆ£o Ć© assim, ou ao menos, comeƧamos a descobrir. Quanto a partir, me identifico muito com esse movimento, talvez seja esse o meu leitmotiv pessoal (risos). Partir Ć© uma ruptura radical, uma ruptura com quem achĆ”vamos que Ć©ramos e uma porta aberta para o futuro, para quem podemos nos tornar. HĆ” nisso uma enorme instabilidade, ainda nĆ£o nos tornamos, mas jĆ” nĆ£o somos quem Ć©ramos antes, habita-se entĆ£o essa espĆ©cie de ante-sala, um lugar que pode trazer grande angĆŗstia, esse nĆ£o saber, mas que tambĆ©m traz o inesperado, a potĆŖncia do que ainda nĆ£o pensamos. Partir talvez seja a Ćŗnica forma possĆvel de voltar. Sinto que o seu livro constrói esse arco, essa pirueta.
2.
Carola: Passei grande parte da minha vida de escritora ouvindo a frase ātudo jĆ” foi dito, todas as histórias jĆ” foram contadasā. Quando na verdade Ć© justamente o contrĆ”rio, a maior parte das histórias ainda nĆ£o foi contada. Ć impressionante o quanto certos discursos estavam entranhados na cultura. A gente vive uma Ć©poca muito assustadora, terrĆvel, e ao mesmo tempo, talvez pela primeira vez, a crueldade de muitos discursos considerados normais tenham vindo Ć tona.
Stephanie: Sim! Ć surpreendente que tenhamos demorado tanto para perceber que todas as histórias jĆ” contadas vinham de um ponto de vista muito especĆfico, com um outra exceção para confirmar a regra. Eu me pergunto muito se o desinteresse das pessoas pela leitura tem relação com o fato de elas nĆ£o se verem nas histórias que lhes foram apresentadas, com a forma como se fala de livros e literatura. Comecei a me preocupar em ler mais autoras negras hĆ” uns cinco, seis anos, e percebi que a menos que a aparĆŖncia dos personagens fosse descrita, eu imaginava todo mundo branco. A gente mal se dĆ” conta da violĆŖncia disso atĆ© comeƧar a refletir a respeito. Embora eu soubesse que o mundo Ć© diverso, que conviva com pessoas bem diferentes, demorou atĆ© eu entender um duplo incĆ“modo ā por um lado nĆ£o me reconhecia, nem as mulheres negras com quem convivo, nas personagens sofridas, ou sempre fortes, exemplo de superação, e por outro lado vĆ”rias das coisas consideradas universais, relevantes, me diziam pouco ā demorei para entender que essas histórias sequer consideravam uma mulher negra como um personagem interessante, com questƵes a serem exploradas. Antes nĆ£o se debatia abertamente como essas eram narrativas de pontos de vista masculinos, brancos, europeus, estadunidenses, eram cheias de pontos cegos em relação a humanidade de quem escapa Ć essa norma. Ć claro que posso me identificar com alguns aspectos dessas histórias, mas hoje me parece mais fĆ”cil admitir que outras histórias me interessam mais e quero encontrar mais livros escritos por mulheres, pessoas negras, LGBTQIA, em portuguĆŖs. Isso Ć© um avanƧo. SĆ£o realmente tempos terrĆveis, mas acho que muitos dos problemas que enfrentamos hoje, o ressurgimento dos fascismos, a crise climĆ”tica, o racismo e xenofobia, as violĆŖncias de gĆŖnero, a pandemia, sĆ£o a evidĆŖncia de que precisamos de mudanƧas profundas. Isso nĆ£o Ć© fĆ”cil, nĆ£o existe uma receita a seguir. HĆ” questƵes urgentes, que podem ser resolvidas com mais agilidade ā como o combate Ć desigualdade ā, mas outras precisam de tempo, porque sĆ£o transformaƧƵes na maneira como pensamos, nos nossos hĆ”bitos, como nos relacionamos com as pessoas. Vejo muito desse retrocesso, o negacionismo, esse ódio escancarado como tentativas de impedir as mudanƧas que melhorariam a vida das pessoas mais vulnerĆ”veis, mas acredito que algumas dessas mudanƧas nĆ£o podem ser impedidas. As forƧas do atraso estĆ£o aĆ tentando sustentar o patriarcado, a destruição dos recursos naturais para dar lucro, mas existem muitas disputas acontecendo, em muitas frentes. Ć difĆcil viver tudo isso, mas acho que algumas coisas só podem ser mudadas quando reconhecemos os problemas, e eles estĆ£o tĆ£o óbvios que estĆ£o recorrendo ao negacionismo para sustentar seus interesses.
Carola: Sim, o sistema capitalista-colonial constitui um sujeito (homem branco hĆ©tero, etc.) como voz central, aquilo que Ć© considerado āuniversalā (Ć© tĆ£o sintomĆ”tica a escolha desse adjetivo, nĆ£o?), e todas as demais vozes sĆ£o obrigadas a se articular a partir dessa norma, sendo que quanto mais afastada se estĆ” desse centro, maior Ć© o apagamento, o silenciamento, a invisibilidade. E se a pessoa ānĆ£o existeā no mundo real, ela tambĆ©m nĆ£o vai existir na literatura (que costuma ser, de todas as artes, a mais conservadora em suas instituiƧƵes). Fiquei pensando na existĆŖncia de alguĆ©m como a Carolina Maria de Jesus, seu surgimento, sua voz, e a forma como ela foi tratada pelo sistema literĆ”rio, como a exceção (exótica) que só estava ali para confirmar a regra, e as discussƵes sobre se o que ela escrevia era ou nĆ£o era literatura. Me parece essencial nĆ£o só trazer outras vivĆŖncias para a literatura, mas tambĆ©m questionar o que definimos como literatura, boa literatura, incluindo o próprio cĆ¢none, se nĆ£o fizermos isso com urgĆŖncia, o sistema vai acabar sempre encontrando subterfĆŗgios para dizer: āAh, que história interessante, mas… Ć© uma literatura menor ou Ć© uma literatura para crianƧas ou Ć© uma literatura de interesse puramente histórico ou Ć©tnico ou…ā.
Stephanie: Quando li Quarto de despejo foi um choque. Ouvi falar do livro na faculdade de jornalismo, por causa do AudĆ”lio Dantas, mas só encontrei uma edição anos depois. E a primeira coisa que pensei foi na crueldade de nĆ£o lermos Carolina Maria de Jesus nas escolas. Foi uma alegria quando o livro foi incluĆdo em alguns vestibulares. O quanto se pode falar da criação literĆ”ria, da capacidade de narrar, de norma culta e oralidade a partir daquele texto. AlĆ©m de ser uma demonstração da mulher negra como sujeita, com seus sonhos, angĆŗstia e uma visĆ£o crĆtica de mundo. Uma obra que nos mostra como a leitura e a escrita criam espaƧo para humanidade de uma pessoa considerada invisĆvel. Se Quarto de despejo fosse merecidamente considerado um clĆ”ssico da literatura brasileira, quantas conversas importantes sobre a nossa sociedade seriam possĆveis? Acho que a leitura de pontos de vista diferentes do homem branco de classe mĆ©dia nos fazem compreender outros modos de estar no mundo e a observar tambĆ©m as angĆŗstias que compartilhamos com as pessoas diferentes de nós. Embora nĆ£o acredite que a literatura nos torne mais empĆ”ticos ou tolerantes, acho que conhecer outras perspectivas alarga a nossa visĆ£o de mundo, o que nĆ£o tem como isso ser ruim.
3.
Carola: Eu adoro ler escritoras-ensaĆstas (um gĆŖnero em geral tĆ£o masculino), uma das minhas preferidas Ć© a Ursula K. Le Guin, talvez pela capacidade de resumir temas extremamente complexos de uma forma direta e acessĆvel. Os escritos dela tĆŖm me ajudado a aprofundar ideias relativas Ć literatura como ferramenta de transformação de mundos. Especialmente no quesito imaginação (ou melhor, construção do imaginĆ”rio), ser capaz de imaginar outras possibilidades, ser capaz de imaginar o que ainda nĆ£o existe, ser capaz de imaginar quem ainda nĆ£o somos. Ela diz:
In America the imagination is generally looked on as something that might be useful when the TV is out of order. Poetry and plays have no relation to practical politics. Novels are for students, housewives, and other people who donāt work. Fantasy is for children and primitive peoples. Literacy is so you can read the operating instructions. I think the imagination is the single most useful tool mankind possesses. It beats the opposable thumb. I can imagine living without my thumbs, but not without my imagination. (ā¦)
Stephanie: Eu tambĆ©m adoro escritoras-ensaĆstas. Ć um formato excelente para acompanharmos mulheres desenvolvendo suas ideias sobre diversos assuntos. Comecei a pensar sobre a construção do imaginĆ”rio quando comecei a ler sobre afrofuturismo. O Orlando Calheiros, amigo com quem faƧo o podcast, costuma dizer: āĆ mais fĆ”cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismoā. E isso me fez prestar atenção em como as histórias de ficção especulativa continuam reproduzindo as lógicas de escassez, da disputa pelo poder, de violĆŖncia de gĆŖnero. O mundo que conhecemos acabou, mas os filmes, os livros nos oferecem a jornada do herói que traz a esperanƧa de que tudo um dia volte a ser como era antes. Lendo romances de Ursula K. Le Guin, Octavia E. Butler, N.K. Jemisin, Nnedi Okorafor, percebi que essas autoras nos propƵem outras experiĆŖncias. Se acabou o mundo como conhecĆamos, como inventamos outras formas de viver? Ainda nĆ£o li os ensaios da Le Guin, mas concordo muito com essa reflexĆ£o de que a imaginação Ć© tratada como entretenimento, ou algo infantil, quando na verdade Ć© uma ferramenta importantĆssima. Ć curioso porque as pessoas compreendem facilmente que a tecnologia, pesquisas cientĆficas, invenƧƵes sĆ£o possĆveis por uma mistura da imaginação e do conhecimento cientĆfico. No entanto, quando falamos de imaginar um mundo sem racismo, sem machismo, acham que estamos falando de utopia. Eu me pergunto se existe uma confusĆ£o entre utopia e o paraĆso cristĆ£o, onde tudo seria simples e sem conflito. NĆ£o me interessa um lugar inalcanƧƔvel ou um paraĆso que só existe para quem sofreu bastante em vida. Penso no que a Audre Lorde chama de futuros possĆveis. Se olharmos com atenção, Ć© muito triste que hĆ” quem considere uma sociedade em que ninguĆ©m morra por ser negro, mulher, LGBT como algo inalcanƧƔvel. Imaginar um mundo em que a pessoas tenham vidas mais dignas Ć© fundamental para criarmos estratĆ©gias para mudar a nossa realidade. Um mundo sem crimes de ódio ainda vai ter conflito, discordĆ¢ncias, gente infeliz, mas sĆ£o problemas de outra ordem. O Ćŗltimo romance da Ursula K. Le Guin que li, A curva do sonho, Ć© a história de um homem cujos sonhos se tornam reais. Ele usa drogas, Ć© considerado louco e Ć© enviado para um tratamento psiquiĆ”trico. O mĆ©dico percebe que o sujeito estĆ” falando a verdade e decide usar a hipnose para induzir sonhos no paciente para mudar o mundo. HĆ” ótimas questƵes nesse livro sobre āviver os sonhos dos outrosā, mas Ć© muito impressionante como Le Guin mostra que nĆ£o existem soluƧƵes simples, mas a capacidade de sonhar impacta a nossa realidade. As ideias do mĆ©dico de um mundo cheio de ordem, de disciplina, de controle, logo descambam para uma realidade fascista: só hĆ” um jeito de viver, de pensar. Quando o protagonista consegue retomar o controle de seus sonhos, ele Ć© incapaz de sonhar com um mundo āperfeitoā, porque nĆ£o acredita em perfeição, mas sonha com uma realidade bem melhor que o seu ponto de partida antes de se tratar com o psiquiatra. Nós vivemos em tempos em que o pensamento binĆ”rio parece ter se agravado. AlĆ©m de as pessoas pensarem que só Ć© possĆvel ter duas opƧƵes ā a distopia e a utopia ā, ainda existe esse discurso perverso de polarização. Mas quem lucra com a nossa dificuldade de imaginar vĆ”rios caminhos, uma vida menos violenta?
Carola: Eu nĆ£o tinha lido a Octavia E. Butler ainda, li Kindred: laƧos de sangue e depois A parĆ”bola do semeador e A parĆ”bola dos talentos. HĆ” muito tempo uma leitura nĆ£o me impactava tanto, foram livros que, de certa forma, transformaram a minha maneira de pensar a ficção, me ajudaram a aprofundar uma sĆ©rie de ideias. Em Kindred, por exemplo, o fato de ela levar a protagonista, uma mulher negra e jovem, dos Estados Unidos contemporĆ¢neo para os Estados Unidos escravocrata do sĆ©culo 19, faz com que a experiĆŖncia seja nĆ£o aquela do distanciamento histórico ou intelectual (ah, que terrĆvel era naquela Ć©poca), mas uma experiĆŖncia do corpo, que nos obriga a vivenciar a escravidĆ£o a partir do nosso corpo contemporĆ¢neo, ou seja, atravĆ©s da fantasia ela cria um deslocamento impossĆvel no mundo real, mas que permite uma anĆ”lise muito mais profunda e intensa. E por outro lado, como vocĆŖ disse, a capacidade de sonhar impacta a nossa realidade, se nĆ£o formos capazes de imaginar outros futuros, como seremos capazes de concretizĆ”-los? Seria interessante pensar em por que motivos o cĆ¢none literĆ”rio moderno se prende tanto ao realismo.
Stephanie: Acho importante a gente observar esse contraste, enquanto algumas autoras se interessam em explorar as possibilidades da fantasia para tratar de questƵes polĆticas, da experiĆŖncia de corpos que nĆ£o tĆŖm plenos direitos, o status quo que se pretende universal se apega ao realismo. Isso me faz pensar em como se pretende definir o que real ou realista e para quem.
4.
Carola: Adoro o podcast que vocĆŖ faz com o Orlando Calheiros, o Benzina, sou super fĆ£. No episódio sobre Exu, que Ć© um dos meus preferidos, vocĆŖs falam, entre outras coisas, sobre a criação (do mundo) segundo as religiƵes de matriz africana, que ao contrĆ”rio do catolicismo, segundo o qual a criação acontece ex-nihilo, nas religiƵes de matriz africana, tudo jĆ” existe enquanto potĆŖncia (no espaƧo do vazio absoluto/caos do qual Exu Ć© o guardiĆ£o). Acho linda essa imagem, e muito próxima da experiĆŖncia de criação literĆ”ria. Talvez as ideias existam enquanto potĆŖncia numa espĆ©cie de inconsciente coletivo, e ao escrever, a gente escreve com a tĆ©cnica, sim, do sujeito, mas tambĆ©m com uma sĆ©rie de saberes que nĆ£o sĆ£o apenas nossos. Talvez exista uma conexĆ£o entre as religiƵes monoteĆstas e a ideia de sujeito na cultura ocidental.
Stephanie: Ah, fiquei muito feliz de saber que você gosta do Benzina! Sim, acho que existe semelhança entre a ideia de uma criação em que as potências estão misturadas no caos e são elaboradas na criação do mundo e na escrita. De certa forma entre a prÔtica, a técnica e a curiosidade, a gente consegue acessar essas ideias que estão por aà e trazê-las para esse plano.
Certas ideias como a de originalidade estĆ£o muito ligadas a essa visĆ£o judaico-cristĆ£ da existĆŖncia em que havia o nada, o princĆpio era o verbo e eis que tudo foi criado em sete dias. Quando na verdade, quem se envolve com processos criativos sabe que Ć© preciso juntar referĆŖncias, aprender com outras pessoas, tentativa e erro, muita prĆ”tica atĆ© a gente reconhecer āopa, esse poema funcionaā, āaqui tem uma história, preciso descobrir um jeito de contĆ”-laā. A ideia da criação como algo solitĆ”rio ou sofrido tambĆ©m faz parte da lógica cristĆ£. Escrever tem momentos solitĆ”rios, mas isso nĆ£o impede que mantenhamos diversas trocas, com os autores que lemos, com os mĆŗsicos que estamos ouvindo, com amigos que nada tem a ver com a nossa produção. Escrever e editar exigem concentração, mas antes disso, o momento de acumular as ideias pode ser povoado por muita gente. Quando comecei a me aproximar das religiƵes de matriz africana, a perspectiva de que a criação envolve vĆ”rios OrixĆ”s, tentativa e erros, que o mundo nĆ£o ficou pronto de uma vez foi muito reconfortante. Cada OrixĆ” tem o seu papel e contribui de alguma maneira para que o mundo e a humanidade existam. HĆ” aprendizados com o processo. Me parece jeito menos solitĆ”rio e menos duro de encararmos as coisas. Gravar um podcast foi encontrar um processo criativo compartilhado que me tira desses momentos de concentração e silĆŖncio de traduzir, ler e escrever. Eu e Orlando acabamos trocando muitas sugestƵes de leituras, de sĆ©ries, filmes, āolha isso aqui, acho que rende uma pautaā.
Carola: Acho muito bacana essa ideia da tentativa e erro. VocĆŖ fala em processo, talvez seja esse um dos principais pontos, em geral esquecemos de que se trata de um processo para focar apenas num āresultado finalā. Talvez isso tenha alguma relação com a ideia de que hĆ” um inĆcio, um meio e um fim, quando, me parece cada vez mais, esses aspectos do processo acontecem simultaneamente e se misturam. E tambĆ©m com a ideia de um Ćŗnico deus, um deus que afastou de si a imperfeição, a falta, criando assim um mundo binĆ”rio, dividido em bem e mal, homem e mulher, etc. Sinto que nĆ£o seremos capazes de pensar outros futuros se nĆ£o ouvirmos com muita atenção o que nos dizem as religiƵes de matriz africana, assim como as cosmogonias dos povos originĆ”rios.
Stephanie: Sim, nós precisamos nos abrir para essas outras formas de pensar e entender nosso mundo. Nós convivemos com o erro, o inacabado, o imperfeito o tempo todo, mas sempre sob esse viés de algo ruim, negativo, quando na verdade tudo isso apenas é parte da existência. à curioso, porque se a gente pensar nos livros, a gente termina de escrever, mas ele só fica pronto quando alguém lê e participa, se apropria daquelas palavras. Então de certa forma, temos um produto acabado, mas que não se esgota com o fim do processo de escrita, edição, impressão. Um livro é algo que se reinventa a cada contato com um novo leitor.
5.
Carola: Literatura e afetos (tanto no sentido de conexĆ£o afetiva quanto daquilo que nos afeta, que nos transforma), quais fios sĆ£o possĆveis tecer aqui?
Stephanie: Muitos, porque escrever é um reflexo de ser leitora e os livros mudaram a minha vida. Do mais bÔsico, que era espantar o tédio numa infância e adolescência sem internet, saciar um pouco da minha curiosidade, até me dar um vocabulÔrio emocional para lidar com o luto, a solidão, relações amorosas, separação. Talvez por eu ter passado muito tempo lendo sem a menor distinção entre o que era literatura e o que era entretenimento, pois lia por prazer, eu tenha criado muito cedo a sensação de que hÔ livros para momentos diferentes, mas sempre tem um livro que pode ser uma boa companhia. Então a literatura para mim estÔ profundamente ligada aos afetos, porque vÔrios autores expandiram a minha visão de mundo, as possibilidades que eu imaginava para minha vida. O meu livro jÔ me proporcionou tantos encontros, boas conversas, alegrias, que só consigo pensar que os fios que ligam a literatura e os afetos são fios longos, espiralados, cheio de voltas e texturas, como o poema de Talvez precisemos de um nome para isso.
Carola: Me lembrei da Gloria AnzaldĆŗa. HĆ” uma passagem em Light in the dark, que diz o seguinte:
I propose a new perspective on imagination, to healing, and to shamanic spirituality. Art, reading and writing are image-making practices that shape and transform what we are able to imagine and perceive.
Eu gosto muito desse trecho, nĆ£o só no que diz respeito Ć imaginação como ferramenta de criação de mundos, mas porque ela junta aspectos que costumam ser vistos de forma separadas: imaginação, espiritualidade/cura e arte. Talvez ābuscar um nome para issoā seja tambĆ©m uma forma de nomear o sintoma que estava em silĆŖncio.
Stephanie: Nossa, que trecho maravilhoso!
6.
Carola: Outro dia numa padaria num bairro da zona sul do Rio de Janeiro, morreu um homem em situação de rua. Ele entrou lĆ” para pedir ajuda porque estava vomitando sangue e morreu, sem que lhe dessem qualquer ajuda ou atenção, morreu e o corpo ficou lĆ”, coberto por um saco de lixo ou algo assim. Ele ficou lĆ” por duas horas. Enquanto isso, a padaria continuou funcionando normalmente, as pessoas tomando seu cafĆ©, comendo seu pĆ£o na chapa, talvez olhando as novidades no celular. O mais assustador Ć© que nĆ£o se trata de um acontecimento isolado, a gente vive numa sociedade em que algumas pessoas existem e outras nĆ£o, sĆ£o corpos invisĆveis, aliĆ”s, Ć© justamente isso o que nos constituiu como sociedade. Talvez a grande batalha seja a batalha por existir. Que função pode ter a literatura enquanto ferramenta (arma) para fora desse pesadelo?
Stephanie: O Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo, diz que precisamos ser claros sobre quais fins de quais mundos a gente estĆ” falando quando pensamos em adiar o fim do mundo, porque vĆ”rios mundos jĆ” se acabaram, mas por outro lado hĆ” mundos que precisam acabar. Um mundo em que uma pessoa nĆ£o recebeu ajuda, morre e a padaria continua aberta e os clientes nĆ£o vĆ£o embora Ć© um mundo que precisa acabar para que outro possa surgir. Essa história ilustra tudo que hĆ” de errado na nossa sociedade atualmente: o desrespeito com a vida, a desigualdade, a importĆ¢ncia dada ao dinheiro, a falta de solidariedade ou o medo de ajudar alguĆ©m, a indiferenƧa. E Ć s vezes penso que essa capacidade de relativizar o valor da vida, da humanidade dos outros, Ć© uma heranƧa que a gente carrega de quase 400 anos de escravidĆ£o. Porque as leis mudaram, mas as ideias de que determinadas vidas sĆ£o descartĆ”veis fazem parte do nosso dia a dia. As pessoas leem as notĆcias, fazem um post nas redes sociais #luto #vidasnegrasimportam e continuam tomando seus cafĆ©s. Ć difĆcil falar de uma função/papel da literatura de modo geral, ainda mais durante uma pandemia, com um governo que se omite para deixar as pessoas morrerem. Só consigo pensar que a literatura nesse momento Ć© uma ferramenta que me ajuda a criar espaƧos fora desse horror. NĆ£o falo de um escapismo para ficção (poderia ser), mas um ajuste de perspectiva, de que esse Ć© um momento horrĆvel, mas a humanidade jĆ” produziu e passou por outros momentos horrĆveis antes, entĆ£o a gente precisa se apegar ao que pode fazer para manter saudĆ”vel. Para mim, ler, escrever, traduzir sĆ£o formas de elaborar o luto coletivo, o medo, o trauma, mas tambĆ©m ajudam a canalizar a raiva, a frustração, a sensação de impotĆŖncia. A Audre Lorde mudou a minha vida nĆ£o só com as traduƧƵes que fiz dos ensaios e da poesia dela, mas porque ela nos lembra que a raiva Ć© um sentimento legĆtimo diante da injustiƧa, da desigualdade, mas que precisa ser bem usada para que nĆ£o se volte contra nós. Atualmente só consigo pensar que a literatura Ć© uma ferramenta e uma arma para criar possibilidades e dar vazĆ£o Ć minha raiva de maneira construtiva.
Carola: Sim, com certeza, as marcas da escravidĆ£o estĆ£o por toda parte: desde violĆŖncias digamos assim, mais āsutisā, como a arquitetura dos apartamentos com o āquartinho de empregadaā e Ć”rea de serviƧo, o prĆ©dio com sua entrada social e outra de serviƧo, as babĆ”s uniformizadas acompanhando as famĆlias nos almoƧos de domingo, a empregada que Ć© ācomo se fosse da famĆliaā, atĆ© aspectos mais abertamente violentos como o extermĆnio de parte da população, um genocĆdio que nunca teve fim. E para que isso tudo possa funcionar, Ć© necessĆ”rio criar recursos psĆquicos, nĆ£o só para tornar possĆvel a violĆŖncia mas tambĆ©m para usufruir dela, e esse recurso Ć© a invisibilidade, um outro que ao mesmo tempo existe (para servir) e nĆ£o existe (como ser humano). Quando vocĆŖ diz que a Audre Lorde mudou a sua vida, pra mim, Ć© esse acontecimento a principal ferramenta, seja ela qual for. Outro dia eu reli A bolsa amarela, da Lygia Bojunga, e fiquei impressionada ao perceber o quanto aquele livro tinha me transformado, o quanto ele estĆ” gravado em mim, na pessoa e na escritora que sou. E o quanto eu encontrei ali, num livro, ainda na infĆ¢ncia, as palavras para dizer o que eu ainda nem sabia que sabia, mas que sempre esteve em mim, e me senti menos só. Talvez esteja aĆ, nessa capacidade de produzir afetos, conexƵes, uma das principais potĆŖncias da literatura. Talvez a literatura possa nos ajudar a enxergar aquilo que atĆ© entĆ£o estava invisĆvel, dentro e fora de nós.
Stephanie: Seu comentĆ”rio me lembrou do inĆcio do ensaio A poesia nĆ£o Ć© um luxo, da Audre Lorde, que estĆ” em IrmĆ£ outsider: O tipo de luz sob a qual examinamos nossas vidas influencia diretamente como vivemos, os resultados que obtemos e as mudanƧas que esperamos promover atravĆ©s dessas vidas. Ć nos limites dessa luz que formamos aquelas ideias pelas quais vamos em busca de nossa mĆ”gica e a tornamos realidade. Trata-se da poesia como iluminação, pois Ć© atravĆ©s da poesia que damos nome Ć quelas ideias que ā antes do poema ā nĆ£o tĆŖm nome nem forma, que estĆ£o para nascer, mas jĆ” sĆ£o sentidas. Essa destilação da experiĆŖncia da qual brota a verdadeira poesia faz nascer o pensamento, tal como o sonho faz nascer o conceito, tal como a sensação faz nascer a ideia, tal como o conhecimento faz nascer (antecede) a compreensĆ£o.
7.
Carola: Termino citando um trecho do Manifesto ciborgue, da Donna Haraway: āPara trabalhar direito, nĆ£o temos necessidade de uma totalidade. O sonho feminista sobre uma linguagem comum, como todos os sonhos sobre uma linguagem que seja perfeitamente verdadeira, sobre uma nomeação perfeitamente fiel da experiĆŖncia, Ć© um sonho totalizante e imperialista. Nesse sentido, em sua Ć¢nsia por resolver a contradição, tambĆ©m a dialĆ©tica Ć© uma linguagem de sonho. Talvez possamos, ironicamente, aprender baseadas em nossas fusƵes com animais e mĆ”quinas como nĆ£o ser o Homem, essa corporificação do logos ocidentalā.
Stephanie: Vou deixar aqui entĆ£o um trecho do texto Dizemos revolução, de Paul B. Preciado em Um apartamento em Urano: āPrecisamos inventar novas metodologias de produção de conhecimento e uma nova imaginação capaz de confrontar a lógica da guerra, a razĆ£o heterocolonial e a hegemonia do mercado como lugar de produção do valor e da verdade. NĆ£o estamos falando de uma simples mudanƧa de regime institucional, de um deslocamento de elites polĆticas. Falamos da transformação micropolĆtica dos ādomĆnios moleculares da sensibilidade, da inteligĆŖncia e do desejoā. Trata-se se modificar a produção se signos, de sintaxe, a subjetividade, os modos de produzir e reproduzir a vida. NĆ£o estamos falando apenas de uma reforma dos estados-naƧƵes europeus. NĆ£o estamos falando de mover a fronteira de lĆ” para cĆ”. De tirar um estado para instalar outro. Estamos falando de descolonizar o mundo (…). Estamos falando de modificar a āTerrapolĆticaā.