Sua escrita é ótima: eu odeio você

No dia em que se comemoram o "Blooms day" e "Dalloway day", Nara Vidal relembra a implicância de Virginia Woolf com a obra máxima de James Joyce
Montagem: Estúdio Thapcom
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16/06/2021

Inglaterra, 16/06/2021, 9h24 am. Faz sol. Nenhuma nuvem dentro da moldura que alcança a janela do meu quarto, onde venho trabalhando desde a pandemia de 2020 e desde que meu escritório foi ocupado por reuniões e aulas virtuais de outras pessoas. Aqui, no topo da casa, é mais difícil ser interrompida. As pessoas têm muita preguiça de subir escadas, o que faz com que pensem bem se precisam mesmo falar comigo.

Hoje, num dia desses de intenso sol e no alto deste farol de onde vejo as chaminés dos vizinhos, Blooms day e Dalloway day, assim, juntos. Farpas literárias nunca foram novidade e Woolf nunca economizou malícia. Virginia foi uma das poucas mulheres a ter enorme influência literária entre seus contemporâneos, uma roda exaustiva e previsivelmente dominada por homens. Muito desse prestígio gozado por Woolf vinha de duas fontes: ela era editora e, junto com o marido formaram uma alternativa independente para a publicação do que consideravam literatura de qualidade. Virginia também escrevia semanalmente para o suplemento literário do jornal The Times.

Crucialmente, ela conseguiu em vida se vingar do que tanto criticou em Um teto todo seu: a tradição da ocupação masculina em postos de formação de opinião. Virginia questionou esse aspecto no seu ensaio mais conhecido, e nos chama a atenção para a repetição de influência e prestígio dentro de uma dinâmica habitual e quase impossível de ser quebrada. Os homens que têm acesso à educação são os que têm acesso à escrita e são os que têm acesso à publicação das suas ideias e que são, invariavelmente, machistas.

Ao se inserir como crítica literária e editora, Virginia passa a ter sua importância reconhecida por seus pares. Isso, no entanto, não evita que a autora cometa equívocos difíceis de serem digeridos. Foi Virginia que categoricamente recusou a publicação de Ulysses, quando o manuscrito chegou a Hogarth Press através de Harriet Shaw Weaver, que era editora da revista The Egoist e que patrocinava Joyce.

Foi por insistência de Leonard Woolf que publicaram On dreams, de Freud. Quem sabe uma justificativa para esses erros seja explicada pela própria Virginia no seu texto How it strikes a contemporary, publicado no suplemento do The Times, em abril de 1923. Logo no primeiro parágrafo, Virginia argumenta que um dos problemas em torno do escritor do seu tempo é exatamente a falta de oportunidade para a sua maturação, ou seja, o autor ainda está vivo e isso por si só é suficiente para fortalecer o debate sobre a qualidade literária ou não de determinada obra.

Virginia exemplifica sua reflexão citando que estariam em comum acordo dois críticos de opiniões, normalmente, opostas sobre a genialidade indiscutível de Keats e Milton. Porém, a unanimidade seria improvável se, por exemplo, levássemos em conta Ulysses, de Joyce, segundo Woolf, uma catástrofe memorável, imensa em audácia e brilhante em desastre.

Virginia, é a prova desse imperdoável desdém em relação aos contemporâneos quando se refere a Ulysses como uma leitura monótona e insistente após T. S. Eliot sugerir a ela a leitura do autor irlandês como inventiva e interessante.

É curioso, porém, que Virginia não queria perder de vista autores que a provocavam. Quando Joyce publica Ulysses, ela pede para a irmã, Vanessa, que está em Paris, que faça amizade com o escritor, já que Virginia tem interesse em conhecê-lo. E estaremos perdoados se pensarmos que a escritora sofria com uma característica bastante ciumenta de seus pares.

Afinal, ela investiu na distribuição de farpas para Joyce e Katherine Mansfield, com quem Virginia teve uma relação complicada. As duas se encontravam ocasionalmente e há registros epistolares de comentários muito ofensivos de Woolf em relação a Mansfield. Depois da morte de Katherine, Virginia escreveu em seu diário que tinha muitos ciúmes da escrita dela — a única escrita da qual ela realmente teve ciúmes. Woolf diz ainda que acredita que passará toda a sua vida pensando em Katherine, em intervalos, e que provavelmente as duas tinham algo em comum que ela nunca encontrará em mais ninguém.

Confesso que me diverte pensar que, apesar de tanta arrogância de Virginia, ela divide, este ano, o dia com Joyce: Clarissa Dalloway e Leopold Bloom, lado a lado, mas sem as mãos dadas porque uma vem de Westminster e o outro é de Dublin.

Uma coisa é indisputável: apesar de toda a sua influência e todo o seu prestígio, Virginia Woolf deixa registrada em cartas e diários uma inquietude que beirava a rivalidade das boas obras e deixou documentadas suas implicâncias com dois dos mais talentosos escritores em língua inglesa. O pecado deles foi terem sido seus contemporâneos.

Nara Vidal

É mineira, formada em Letras pela UFRJ e Mestre em Artes pela London Met University. É escritora, tradutora e editora. Autora de livros infantis e ficção adulta. Seu romance de estreia, Sorte (Moinhos), traduzido na Holanda, foi um dos vencedores do Prêmio Oceanos em 2019. Seu livro mais recente é a coletânea de contos Mapas para desaparecer (Faria e Silva).

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