Portugal, país euroafricano

Portugal tem uma inegável e comprovada porção negra dentro da sua composição genética e da sua história
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19/07/2021

* O autor escreve consoante o acordo ortográfico e a variante angolana da língua portuguesa, em formação.

Portugal é há muito um país euroafricano não assumido. Vozes como a da historiadora e professora Isabel de Castro Henriques, que estudam as marcas africanas na sociedade portuguesa, não são evocadas devidamente. “A presença africana é a mais importante que temos em Portugal, em termos numéricos e de perenidade, constância. Ficou sempre, marcando a sociedade”, afirmou ela em 2016, em entrevista ao jornal português Diário de Notícias.

O livro O património genético português, de Luísa Pereira (investigadora) e Filipa Ribeiro (jornalista), é elucidativo: os genes africanos (do norte e da região subsaariana) estão presentes na composição da população portuguesa desde o século 7, com as inevitáveis variações e oscilações ditadas pela história. Para resumir, os berberes e os árabes do norte de África chegaram primeiro, enquanto os africanos originários da região subsaariana começaram a chegar em meados do século 15.

A presença em Portugal de indivíduos da África subsaariana está associada ao fenómeno da escravatura. O país do “colonialismo amigável” foi, afinal, aquele que mais “importou” escravos para a metrópole, sobretudo entre meados dos séculos 15 e finais do século 18. No século 16, a percentagem de escravos no sul de Portugal era de dez por cento da população. Mas os escravos negros estavam espalhados por todo o país. O recém-falecido etnólogo e poeta angolano Arlindo Barbeitos, na sua impressionante tese Angola-Portugal: entidades coloniais equívocas, identifica a sua presença, por exemplo, nas vindimas do norte do país.

Para quem não tiver tempo para teses densas e volumosas, recomendo a leitura do grande romance de Saramago Memorial do convento, para comprovar, por exemplo, como a Lisboa da época da construção do convento de Mafra podia ser considerada uma “cidade negra”.

Acrescente-se aqui – e como aquilo a que se chama “colorismo” afinal já existe há muito tempo – que o norte de África só pode ser chamado de “África branca” por ignorância e distração. Basta ver as imagens da época, para perceber que Elizabeth Taylor não representa os africanos do norte, em especial no período em que Cleópatra – a personagem que ela imortalizou no cinema – reinou, ou seja, antes do processo de embranquecimento histórico ocorrido na região, por força das misturas com os povos do norte do Mediterrâneo.

Sim, Portugal tem uma inegável porção negra dentro da sua população e da sua história. O discurso de extrema-direita, que acusa as vozes antirracistas de supostamente tentarem desvirtuar a história de Portugal, está, pois, equivocado: esse discurso é que pretende negar a história, ao rasurar a secular presença africana (e negra) em Portugal, cujas consequências é impossível desmentir.

O fim da colonização e a emigração para Portugal de milhares de cidadãos das suas antigas colónias, muitos deles negros, em períodos sucessivos (por força da descolonização em si ou dos conflitos e guerras que tomaram conta de alguns dos novos países independentes), geraram um novo fluxo de africanos para a ex-metrópole. Surgiu, assim, um novo grupo de cidadãos portugueses – os afrodescendentes. Por razões ao mesmo tempo diferentes e semelhantes, o mesmo começa a englobar também, nos últimos tempos, outros migrantes africanos, não originários das antigas colónias portuguesas, alguns deles para trabalhar na agricultura.

Entre os “novos” negros que têm afluído a Portugal, não se pode deixar também de referir alguns brasileiros, embora bem menos do que os seus compatriotas brancos, por conhecidas razões socioeconómicas.

Entretanto, não parece existir, pelo menos por enquanto, um consenso entre os portugueses sobre o modo de lidar com o fenómeno do crescimento dos portugueses negros. Alguns, assumidamente racistas, não gostariam que eles existissem. Mas, mesmo entre os autodeclarados antirracistas, está longe, na prática, de existir unanimidade em relação ao estatuto e à visibilidade social dos negros portugueses. Isso ficou claro, indiretamente, quando os partidos de direita votaram contra a nova lei da nacionalidade aprovada há cerca de um ano no parlamento local.

Alguns factos falam por si, como o quase inexistente número de negros em cargos administrativos e políticos de destaque, quer no Estado quer nas empresas. Nesse sentido, comparar os referidos factos com o exemplo de outros países europeus, alguns deles sem a presença tão antiga e efetiva de genes africanos na sua população como sucede com Portugal, deveria ser confrangedor.

Como o poder do simbólico é conhecido, destaco, a finalizar, a ausência ou marginalização dos negros no sistema mediático-cultural português. O fenómeno abrange também as eventuais referências a África, por razões que parecem óbvias. Mais uma vez, comparar isso com o que se passa nos principais meios de comunicação de países como a Inglaterra, França ou mesmo Espanha, cuja experiência colonial africana é diminuta, deveria envergonhar os editores dos jornais, rádios e televisões portuguesas. A cobertura da atualidade africana pelo El Pais, por exemplo, dá de 10 a zero a toda a imprensa lusitana (e, já agora, brasileira).

João Melo

Nasceu em Luanda (Angola), em 1955. É escritor e jornalista. Morou no Brasil de 1984 a 1992 como correspondente de imprensa. Tem mais de 20 livros publicados, entre poesia, conto e ensaios, em Angola, Portugal, Itália, Cuba e Brasil, onde publicou a coletânea de contos Filhos da Pátria (Record, 2008).

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