Por acaso memória

Trecho da mais recente narrativa do paranaense Carlos Machado, em que o autor entrelaça fatos históricos e ficção
Ilustração: Dê Almeida
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26/06/2021

(…)

O senhor precisa correr também, fazer exercícios, faz bem para começar o dia. Eu gosto também de fazer atividades físicas no final do dia, mas prefiro assim pela manhã, bem cedinho. Dessa forma, posso mostrar para todos que tenho energia e que serei, portanto, um ótimo representante do povo! Aliás, já sou. Fui eleito tempos atrás. Não acha isso muito esperto? Aprendi desde cedo que tinha que ser assim. É como se eu fosse um herói, sabe? Mas claro, o senhor tem ideia de quanto está a inflação hoje? Claro que não sabe, dormiu pensando que era um valor e agora já é outro. E cai na gargalhada esse homem com os cabelos arrumados com gel. Vitalidade, essa é a ordem do dia. Melhor dizendo, vitalidade com inteligência. O senhor já leu meus livros? Fique tranquilo, assim que eu tomar posse, minha equipe econômica dará um jeito nisso. Está tudo planejado, será apenas uma questão de tempo. Venha, o que o senhor está fazendo aí? Esperando o quê? Guarda essa carta aí e vem comigo. Olavo aperta os passos para poder acompanhar o homem que corre pela orla da praia, desvia dos fotógrafos mais próximos e consegue ficar ao lado dele. Olha para o senhor. Já parou para pensar? Seus cabelos ficaram totalmente brancos! Sim, eu sei, sempre teve os cabelos e a barba branca, porém iam ficando dessa cor aos poucos, movimento normal da vida, mas nesses últimos anos, aliás, quantos anos já? Dois, três desde que leu as notícias no jornal do dia seguinte, isso? Então, nesses últimos anos eles esbranquiçaram totalmente! A pele ficou mais flácida e o rosto com rugas. Não é mesmo? E ainda tem apenas quantos anos mesmo? 50? 55? Olha, senhor, eu tenho 40 (talvez um pouco mais), mas parece que tenho uns 28, não acha? O mais novo chefe de governo desse país. Qual foi a última vez em que esteve na cama com sua mulher? Desculpe a intimidade, sei que não deveria falar sobre isso, são coisas muito puras, não é mesmo? Mas cá entre nós, eu sou o presidente desse país (sim, eleito pelo povo!) e o senhor é brasileiro, portanto acho que assim já temos intimidade suficiente para falarmos disso, não acha? Eu vejo tudo, senhor Olavo. Viu só? Até sei seu nome. Enfim, qual foi a última vez em que esteve com sua mulher na cama? Não pode, né? O senhor sabe o por quê? Porque o senhor acabou com a vida deles, o senhor anulou o que tinha de bom e só trouxe medo e incerteza. Veja agora: é um pescador que não sabe pescar, tem uma canoa que não pode passar desse ponto do mar, ainda perto da praia, uma filha que não vê há tempos, uma memória que está te abandonando. O senhor se lembra de alguma coisa? Ou já não existe mais? Desculpe, Sr. Olavo, a minha intenção não é te fazer chorar, nem te fazer sofrer. Na verdade, eu nem me importo com o senhor, e com mais ninguém. Por que tenho que me importar? Só porque cheguei até aqui? (falando baixo). Mas pare de chorar um pouco, enxugue esse rosto e continue correndo comigo, olhe para frente, levanta a cabeça assim, arrume os braços para cima. Não, o senhor está fazendo tudo errado, não é com o corpo que se corre, é com a cabeça. Entende? Está vendo essa moça na bicicleta? Ela nem olha para nós. Algumas pessoas ignoram, mas o senhor resolveu se importar. Pense que nada disso ficará para sempre. Sim, eu sei, também posso falar com ternura e sei reconhecer que isso vai acabar. Só não sei dizer quando. Você se incomoda se eu começar a rir bem alto agora? Estou com vontade de rir da sua cara. Adoro fazer isso. Mas logo paro, só um pouquinho, está certo? Mas só se o senhor continuar correndo comigo. Olha que dia lindo! O senhor está com frio? Mas estamos na praia, aqui não faz frio. Frio é na sua cidade. Aliás, o senhor não tem mais cidade, não é mesmo? Triste isso. Não me faça chorar também, tá certo? Olha, se eu fosse o senhor, correria bastante, mas para essa outra direção aqui. Me disseram que ali é onde param os barcos vindos de Porto Velho. Desculpe, Sr. Olavo, não consigo parar de rir. Foge, está bem? Mas foge rápido porque cedo ou tarde eles vão te encontrar. Ah, sim, me diga uma coisa, Sr. Olavo, claro, entendo que talvez eu tenha sido um pouco radical (ou muito, sei lá), mas foi necessário, sabe? Não tinha outro jeito, era vencer ou vencer. E ainda acrescento mais um terceiro vencer só para dramatizar. Mas o senhor também andou fazendo umas coisinhas erradas por aí, não é mesmo? Vou falar bem baixinho para ninguém ouvir. Venha aqui no canto, deixe esses jornalistas de fora e entra aqui debaixo da minha jaqueta (presente da minha mulher, bonita, né?… Opa, calma lá, estou falando da minha jaqueta e não da minha esposa, olha o respeito, cara!). Bem, sabe aquelas madeiras que o senhor trazia do Norte? Então, que feio, senhor Olavo, muito feio isso que o senhor fez. Sua esposa sabia disso? E Joana, coitadinha. Quantos anos ela tem hoje? 15 já? Então ela já entende bem, não é mesmo? Talvez por isso o senhor fica inventando respostas sem pé nem cabeça nessas cartinhas que escreve para ela, não é mesmo? Teresa enche o papel com desenhos (muito bonitos, diga-se de passagem) e o senhor coloca aí qualquer coisa, até poético, eu diria. Não sabia que o senhor era um poeta. Já leu meus livros? São sobre como tirar um país da lama e afundar em um lodo pegajoso sem alternativas de sair do fundo. Perdão, não me aguento. É engraçado, não acha? Aparentemente somos muito diferentes um do outro, mas hoje tenho a sensação, aqui conversando com o senhor, de que na verdade somos muito parecidos. Veja bem, somente em algumas coisas. Por exemplo, sou conhecido como o caçador de marajás, mas sou um deles. Não acha isso engraçado? Estive pensando aqui com os meus botões (vou continuar falando bem baixinho para ninguém ouvir, tá?), o meu irmão me traiu. Esse sujo! Teria sido melhor se fosse como o senhor que teve três irmãos que nem nasceram, assim ficaria mais fácil. Tudo em silêncio, quietinho. Hum, desculpe, um deles levou sua mamãe para o céu, não é mesmo? Sinto muito, meu caro. C’est la vie. Veja, eu cresci ouvindo as pessoas falarem que meu pai era assassino. Onde já se viu? Assassino? Meu pai? Só porque ele deu uns tiros no Plenário naquele crápula que o ameaçou de morte? Ele tinha um amigo, sim, é verdade, o Smith Wesson 38, mas ninguém tem certeza. Os meninos na escola não entendiam que ele foi inocentado, sabe? C’est la vie, novamente. (Tá, ok, bem baixinho aqui, ele matou mesmo aquele homem, por engano. Mas também, o que ele estava fazendo na frente das balas?). Vou confessar só mais uma coisinha, um nadica de nada, só um pensamentozinho que me ocorreu: eu também gosto de jogar dominó!

NOTA
Por acaso memória é uma narrativa sobre o acaso e suas consequências, a manipulação que fazemos — intencionalmente ou não — de nossa própria memória, inventando fatos, colorindo (ou descolorindo) imagens, aceitando ou não os detalhes que são delineados em nossa rotina. Traçando um paralelo entre a ficção e acontecimentos históricos (o Plano Collor, a Geada Negra de 1975, quando “não sobrou nenhum pé de café”, a imigração italiana e japonesa no Brasil, a exploração comercial em regiões madeireiras, etc.), metáforas e folclore, passado e futuro, Carlos Machado nos conta a história de Olavo, Teresa e Joana, e como essa família — sem intenção — esbarra em uma pedra de dominó enfileirada depois da outra e vê parte do que havia sido colocado de pé, desmoronar. O livro será publicado em breve pela Arte & Letra.

Carlos Machado

Nasceu em Curitiba, em 1977. É escritor, músico e professor de literatura. Publicou, entre outros títulos, A voz do outro (contos 2004, 7Letras), Balada de uma retina sul-americana (novela 2006 e 2ª ed. Revisitada 2021, 7Letras), Poeira fria (novela 2012, Arte & Letra), Era o vento (contos 2019, Patuá) e Olhos de sal (Novela 2020, 7letras). Tem contos e outros textos publicados em diversas revistas e jornais literários, assim como participação em diversas antologias.

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