O fator Bolsonaro 

O nosso atual governante trabalha com afinco para desmoralizar – ainda mais – a política, num país em que os políticos já não são bem vistos há tempos
Ilustração: FP Rodrigues
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19/02/2021

Sensato (a) leitor (a), sabe que, nas minhas conversas íntimas, aquelas que travamos conosco mesmos ao abrigo da interferência alheia, há uma preocupação (quase uma ideia fixa) que sempre vem à baila e que passo agora a compartir com você. Não creio que, ao fim do governo deste, Deus que me livre e guarde, Jair Bolsonaro, a pior herança será o completo desmantelamento da economia (já em curso) ou uma crise social sem precedentes (idem) ou o descrédito da ciência, da cultura e da educação (ibidem) — o que não é pouco, convenhamos. Para mim, a pior herança será a total desmoralização da política.

Uma pesquisa divulgada em setembro de 2017 pelo Fórum Econômico Mundial situava o Brasil no último lugar num ranking de 137 países no quesito confiança da população em seus políticos. Por sua vez, em julho de 2019, pesquisa DataFolha mostrava o grau do nosso desencanto com as instituições: apenas 4% dos entrevistados diziam acreditar muito nos partidos políticos, enquanto 58% diziam não confiar e 36% diziam confiar um pouco — mais ou menos o mesmo resultado em relação ao Congresso Nacional: 7% confiavam muito, 45% não confiavam e 46% confiavam um pouco. Uma outra pesquisa, da Barômetros da América, mostrava, naquele mesmo ano, que o nível de confiança da população nas Forças Armadas era de 5,1 em uma escala de 7 pontos onde 1 significa confia “Nada” e 7 confia “Muito” — e apenas 2,4 nos partidos políticos…

Bolsonaro tem dado uma enorme contribuição para piorar ainda mais a percepção da população em relação ao exercício da política. Ele mente de forma descarada, humilha seus subordinados, culpa outros por seus erros crassos, ignora as regras elementares da convivência parlamentar, escarnece da justiça, demonstra profundo desprezo pelas instituições. Nas últimas eleições, no ano passado, 30% dos eleitores sequer se interessaram em participar do pleito, um número que vem crescendo ano a ano — lembrando que por aqui o voto é obrigatório… Nada pior para um país do que indivíduos que desdenham da política governados por políticos que desdenham dos indivíduos… Um prato cheio para salvadores da pátria e tiranetes de plantão…

Luz na escuridão
Edyr Augusto, romancista e contista: “Ainda lancei BelHell, em março do ano passado, mas poucos dias depois veio a pandemia. Tenho feito muitas lives, atendendo a convites. Também tenho escrito contos para Granta, Cândido e Época. O BelHell sairá na França em março, com o título Cassino Amazonie. Também escrevi o primeiro capítulo do que pode ser meu novo livro. Ainda não sei o que vai dar. Está repousando enquanto a cabeça maquina o que pode acontecer. Fica tudo para este 2021”.

Parachoque de caminhão
“Os momentos e as situações mais marcantes da vida só podem ser evocados por expressões banais, e quem sabe não seriam esses, a despeito de tudo, os momentos mais banais.”
Antal Szerb (1901-1945)

Antologia pessoal da poesia brasileira
Álvares de Azevedo
(São Paulo, SP, 1831 – Rio de Janeiro, RJ, 1852)

Lembrança de morrer

No more! o never more!
Shelley

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento;
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade — é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…

De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Poucos — bem poucos — e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoidecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta — sonhou — e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh’alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!

(Lira dos vinte anos, 1853)

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

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