Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças

Em quatro contos que são pequenos flashes da vida cotidiana, a autora mostra os sonhos, crenças e desilusões dos argentinos
Ilustrações: Carolina Vigna
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13/07/2021

Fantasmas
Ñata e Pablo se conheceram no final na década de 1940, em Avellaneda, cidade da grande Buenos Aires. Começaram a namorar, depois noivaram e se casaram. Tiveram dois filhos: um homem e uma mulher. Vivem, desde que se casaram, na mesma casinha simples no final de uma rua de terra, em um bairro de trabalhadores na região sul de Avellaneda. No fundo da casa, existe um pequeno quintal onde Ñata planta camomila, alface e salsinha. A porta que separa o interior da moradia desse espaço tem uma cortina de tiras de plástico coloridas. Esse tipo de cortina é bastante comum em algumas residências na Argentina, assim como a garrafa de soda na hora das refeições. Os utensílios domésticos que Ñata coloca todos os domingos em cima da mesa para servir a família são como pequenos monumentos da história daquela casa. Com o tempo, o plástico da cortina perdeu a cor, é translúcido e puído como a memória de Ñata: uma mulher que nunca fala de si, nunca fala do período em que escondeu um sobrinho em sua casa ou dos pesadelos que tinha, diariamente, naquela época. Quando os netos e os filhos começam a fazer certas perguntas, Ñata atravessa a cortina de plástico para ver se as costeletas de porco já estão prontas. Depois de um tempo, volta com um prato cheio de carne assada na brasa. Em cima da mesa, o pão, a salada de alface e tomate e o molho chimichurri completam o almoço de domingo em família. Enquanto os filhos e os netos comem, Ñata respira aliviada; assim, com a boca cheia de comida, eles não conseguem fazer perguntas que só servem para tirar sua paz.

Mama, yo quiero un novio
No primeiro dia, ele levantou o braço esquerdo e a abraçou com o direito. Ela recuou. Ele tinha olhos tristes. A tristeza é como um tigre faminto, pensou. Todos os dias, ele trazia presentinhos. À noite, fechavam e abriam seus corpos. Ela não dormia nunca. Aos domingos, ele levantava-se cedo e saía para comprar laranjas, medialunas, o jornal. Todos os dias, ele dizia que seu único propósito na vida era fazê-la feliz. Em alguns dias, ele quebrava garrafas, cadeiras. Um dia, arrebentou uma porta. Te quiero más que mi vida, dizia nesses dias.

Ilustração: Carolina Vigna

Sueño de Amar
Quando criança, Pablo escutava cumbia na casa dos tios. O pai — caminhoneiro que fazia distribuição de refrigerantes — vendeu o micro-ondas da família e com o dinheiro comprou um teclado para o filho. O garoto aprendeu a tocar sozinho, de ouvido, e com um amigo do bairro Esperanza (San Fernando/Grande Buenos Aires) montou seu primeiro grupo de cumbia. Nessa época, ele tinha apenas 12 anos. Os dois começaram se apresentando em festas familiares. Depois, foram convidados a tocar em eventos organizados por escolas e clubes locais. Aos 14 anos, Pablo passou a integrar o grupo de cumbia Sueño de Amar. Nunca mais parou de tocar cumbia. Chega a fazer oito shows em uma única noite. Os ingressos são vendidos a preços populares. Ao longo dos 20 anos de carreira, Pablo já fez mais de 15 mil shows. Ganhou muito dinheiro. Primeiro reformou a casa dos pais, trocou o chuveiro que sempre dava choques. Depois comprou um Mitsubishi. Atualmente, investe em seu principal hobby: relógios de ouro e armas de fogo.

Cenas de um casamento argentino
O marido passa a manhã escutando músicas românticas no rádio do computador. A esposa passa a manhã na cozinha, lava os copos, seca os pratos, prepara as milanesas para o almoço. Estão casados há 40 anos. Dividem inúmeras coisas: o silêncio, a cama, a pasta de dentes, a erva-mate, o medo dos filhos ficarem desempregados, a carteirinha de sócios do clube onde jogam tênis com os amigos no fim de semana, os dólares guardados — uma obsessão da classe média nacional, fruto da crença de que o dólar é uma moeda forte e segura e o peso uma moeda jodida. Dividem também, em silêncio, o arrependimento de terem votado em Carlos Menem em 1989.

Os contos aqui publicados pertencem ao livro Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças, a ser lançado em breve pela Guayabo.

Flávia Péret

É escritora, pesquisadora e professora. Mestre em Teoria da Literatura pela UFMG, atualmente realiza doutorado na Faculdade de Educação da UFMG. Em 2018, recebeu o prêmio Jean-Jacques Rousseau, pela Akademie Schloss Solitude (Alemanha) pelo seu trabalho com a literatura. Publicou os livros: Imprensa Gay no Brasil (2011), 10 poemas de amor e de susto (2013), Outra noite (2014), Novelinha (2016), Uma mulher (2017 e 2018), Os patos (2018) e Mulher-Bomba (2019).

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