ūüĒď Em n√≥s fala um outro

Carola Saavedra e Francesca Cricelli conversam sobre como o autoexílio e a confluência de línguas na criação literária marcam suas trajetórias
Ilustração: Carolina Vigna
01/09/2021

Conversa com Francesca Cricelli

1.
Carola: Lembro de forma muito v√≠vida os nossos encontros em S√£o Paulo, era 2018, √©poca das elei√ß√Ķes, eu estava muito angustiada, lembro que num desses encontros, por acaso num restaurante, sem falar nada, te abracei e chorei, chorei por tudo aquilo que estava acontecendo. De alguma forma, eu sabia que algo nos irmanava. Talvez um passado de deslocamentos, talvez um olhar para o mundo, talvez um saber‚Ķ Um ano depois, eu tinha vindo morar aqui em Col√īnia, nos reencontramos num evento na Universidade, e tudo tinha mudado, na minha vida, na sua (voc√™ tinha se mudado para a Isl√Ęndia), tudo tinha mudado no pa√≠s.

Francesca Cricelli: De fato, nosso encontro tem algo de on√≠rico para mim. N√£o me lembro exatamente como nos falamos pela primeira vez, se foi por e-mail ou alguma rede social, mas eu fiquei muito emocionada por me sentir t√£o acolhida quando nos vimos, eu j√° era sua leitora e admirava tanto sua obra e me parecia um sonho saber que voc√™ queria ler o Rep√°tria. Depois, senti de imediato uma intimidade como se aquele fosse um reencontro de antigas amigas, mas acab√°vamos de nos conhecermos, mor√°vamos no mesmo bairro, sofr√≠amos pela situa√ß√£o pol√≠tica e sent√≠amos saudade de algo t√£o bom e fecundo que S√£o Paulo j√° havia nos ofertado. No meio de tanta conversa emocionada, lembro-me tamb√©m que demos boas risadas, falamos sobre nossa paix√£o pela psican√°lise, falamos do ‚ÄúDr. Fritz‚ÄĚ, voc√™ me contou das idas ao restaurante mexicano e dos mariachis, de imediato senti uma liga√ß√£o muito forte, talvez por conta de nossos in√ļmeros deslocamentos e buscas por quest√Ķes identit√°rias entre l√≠nguas e pa√≠ses, algo que acabamos criando na escrita ‚ÄĒ como um lugar de pertencimento. 2018 foi um ano especial para mim, um pouco antes de terminar minha tese de doutorado acabei viajando muito, fui at√© √† China para um festival de poesia e para dar algumas aulas na Universidade de Pequim, tamb√©m saiu um pequeno livro meu por l√° e passei meu anivers√°rio em Xangai, onde ele foi apresentado, e foi nessa viagem que decidi que me mudaria para a Isl√Ęndia ap√≥s minha defesa. No mesmo ano, fui tamb√©m √† Isl√Ęndia para um congresso e √† Cro√°cia em outro festival liter√°rio e √† Flip em Paraty, sinto que esses deslocamentos cont√≠nuos eram uma forma um pouco exc√™ntrica que encontrei para suportar o medo do que estava por vir, a situa√ß√£o pol√≠tica j√° muito tensa desde o golpe de 2016. Uma noite, voltando para casa em Pinheiros, parei com amigos para fixar um lambe-lambe ‚ÄúFora Temer‚ÄĚ, n√£o lembro agora se isso foi em 2016 ou 2017, um homem marombado num carro nos viu, deixou o autom√≥vel ligado no sem√°foro vermelho, desceu e veio em nossa dire√ß√£o tentando nos agredir fisicamente, √©ramos duas mulheres, voltamos correndo para minha casa. Senti muito medo. No dia seguinte √†s elei√ß√Ķes tamb√©m fui agredida por uma vizinha, pois ao ser confrontada sobre os resultados falei que estava muito triste, mas de cabe√ßa erguida e batom vermelho sa√≠a para trabalhar ‚ÄĒ ela ficou furiosa e disse: ‚Äúquando pessoas como voc√™ forem embora daqui, o Brasil vai melhorar‚ÄĚ. Minha ideia de deixar o Brasil era mais ligada ao encontro amoroso com meu companheiro e a um desejo de me aventurar num lugar t√£o diferente, a Isl√Ęndia, mas havia tamb√©m uma ang√ļstia sem nome que pairava no ar e que se refor√ßava com esses epis√≥dios hostis. Sentia que n√£o havia muita perspectiva, naquele momento, para permanecer no Brasil ap√≥s o doutorado, com isso tamb√©m havia alguma ilus√£o (err√īnea) de que conseguiria me encaixar facilmente no mundo acad√™mico daqui, por ter sido bem-recebida durante alguns congressos, mas n√£o foi bem assim depois que me mudei. Agora estou h√° quase dois anos na Isl√Ęndia, ainda estamos atravessando uma pandemia, a lembran√ßa do nosso encontro e daqueles anos parece um relato liter√°rio, a cena de um filme, naquele encontro jamais pensei que passar√≠amos por tantas das coisas que estamos vivendo hoje, embora j√° previa o desmonte do pa√≠s encaminhado pelo atual governo. Como ficou para voc√™ essa quest√£o da dist√Ęncia e da ang√ļstia pol√≠tica atravessadas pela pandemia? Sei que a Alemanha est√° fechada desde janeiro para n√£o residentes ou n√£o alem√£es, minha m√£e est√° com um voo marcado de S√£o Paulo para c√° via Francoforte e at√© agora n√£o conseguiu embarcar. Eu me sinto sequestrada por esses acontecimentos, as novas ondas do v√≠rus, as variantes, os negacionistas e anti-vacina mesmo aqui na Europa.

Carola: Voc√™ usou a palavra ‚Äúsequestrada‚ÄĚ. Eu acho que define bem esta √©poca, os √ļltimos acontecimentos, pandemia, etc. E se acrescentarmos a situa√ß√£o pol√≠tica do Brasil, parece que afundamos numa longa noite (ou talvez nunca tenhamos sa√≠do dela). Ao mesmo tempo, at√© a longa noite tem suas luzes, esses momentos de respiro, de vida, de alegria. Parece que a puls√£o de vida (isso que move o sol e as outras estrelas) se tornou nossa principal forma de resistir, de seguir em frente. Em rela√ß√£o √† dist√Ęncia pol√≠tica atravessada pela pandemia, eu tenho uma sensa√ß√£o bem curiosa, me sinto mais perto do Brasil do que nunca, mesmo estando geograficamente longe, eu vivi uma pandemia muito diferente da dos alem√£es porque vivi uma pandemia marcada pelos acontecimentos no Brasil, tanto pessoais quanto pol√≠ticos. A gente pode estar geograficamente longe, mas estar muito perto e tamb√©m ao contr√°rio, pode estar no centro dos acontecimentos e se manter completamente alienado a eles.

Francesca Cricelli: Concordo com o que voc√™ traz aqui, adorei a cita√ß√£o do Dante, l‚Äôamor che muove il sole e l‚Äôaltre stelle. Sinto que tamb√©m tenho atravessado esses meses com uma liga√ß√£o profunda aos acontecimentos no Brasil, talvez nessa dist√Ęncia estou aprendendo outra vez o que √© pertencer a uma terra, n√£o importa onde estamos, mas h√° algo que insiste e n√£o podemos escolher, est√° presente em nossos dias e em nossa constitui√ß√£o √≠ntima.

2.
Carola: Você vem de constantes deslocamentos, entre línguas (português, inglês, italiano, espanhol, etc.), países, gêneros literários, você transita e eu acho linda a forma como isso aparece no seu trabalho. E agora está estudando islandês, língua e literatura islandesa. Eu me pergunto, que portas outras e inesperadas se abrem? Que facetas aparecem no espelho?

Francesca Cricelli: O primeiro impacto com a l√≠ngua islandesa, muito antes de pensar que viria morar aqui, me provocava certa gra√ßa, sentia-me envolta numa mem√≥ria primitiva da pr√©-linguagem, ouvia o Luciano se comunicando e como lhe respondiam, depois sa√≠amos √†s ruas, s√≥ os dois, e eu fazia uma esp√©cie de imita√ß√£o do di√°logo preenchendo com sentido o que era s√≥ som. N√£o tenho conhecimento cient√≠fico sobre os processos de aquisi√ß√£o de linguagem das crian√ßas, mas na minha fantasia aquela experi√™ncia me remetia a algo primitivo e esquecido que eu j√° havia vivido. Eu claramente estava romantizando aquela viv√™ncia, quando de fato me mudei para c√°, minha rea√ß√£o foi bem diferente ao viver dia ap√≥s dia uma esp√©cie de ex√≠lio lingu√≠stico, na verdade era muito angustiante. Embora eu j√° dominasse muito bem o ingl√™s, sentia-me mal por abordar todos numa l√≠ngua que n√£o era nem a minha nem a deles, sentia-me no mesmo lugar de um turista, mas eu j√° morava aqui. Al√©m disso, havia o estranhamento profundo de todas as coisas, a temperatura, a press√£o atmosf√©rica no paralelo 64 norte, a incid√™ncia da luz do sol obl√≠qua e por s√≥ tr√™s, quatro horas no inverno, o gelo, a neve, o estranhamento do supermercado, a escassez de frutas e verduras, tudo escrito em island√™s (e at√© a√≠ tudo bem, logo fui aprendendo algumas palavras), mas muitos produtos importados dos pa√≠ses n√≥rdicos com r√≥tulos em dinamarqu√™s, sueco, finland√™s. Eu chegava em casa exausta ap√≥s fazer compras no supermercado, precisava deitar. Comecei a experimentar o avesso do meu encantamento, talvez o terror que se vive quando ainda n√£o h√° a linguagem e a comunica√ß√£o passa por algo intuitivo, pela adivinha√ß√£o ‚ÄĒ como √© entre m√£e e beb√™, talvez isso tamb√©m se aloje em algum lugar da nossa mem√≥ria, na mente, no corpo. Acho que as portas inesperadas s√£o essas de uma vida pr√©-linguagem, porque o island√™s √© uma l√≠ngua muito antiga, ela se preservou praticamente igual desde os anos da coloniza√ß√£o depois do ano 874, a minha primeira professora dizia que ‚Äúaprender island√™s √© aprender a acariciar um dinossauro‚ÄĚ. √Č uma l√≠ngua n√≥rdica germ√Ęnica, mas muito antiga, um latim n√≥rdico, como dizia Borges. Outra porta inesperada, para mim, foi adentrar a complexidade de uma l√≠ngua que preservou suas declina√ß√Ķes, voc√™ me entende por viver h√° tanto tempo dentro da l√≠ngua alem√£, mas n√≥s perdemos essa complexidade nas l√≠nguas rom√Ęnicas, essa tridimensionalidade s√≥ existe nos pronomes, demorei algum tempo para ‚Äúincorporar‚ÄĚ isso em meu racioc√≠nio, no come√ßo houve muita resist√™ncia, mas depois seguiu um encantamento. Tenho praticado isso traduzindo poemas islandeses para o italiano e o portugu√™s, depois de traduzir observo novamente o poema fazendo uma retro-tradu√ß√£o, tentando entender porque as palavras est√£o declinadas daquela forma. H√° tamb√©m uma condensa√ß√£o numa l√≠ngua dessas e isso me fascina, como √© poss√≠vel expressar tanto com t√£o poucas palavras. No espelho surgiram facetas que estavam escondidas h√° muito tempo, ali√°s, eu achei que elas nem existiam mais, eu que passei por tantas circunst√Ęncias de n√£o saber a l√≠ngua do pa√≠s em que me encontrava, que havia recalcado os sofrimentos da mudan√ßa para a It√°lia aos 9 anos e para a Mal√°sia aos 11, eu que s√≥ me lembrava das coisas boas que essas experi√™ncias me trouxeram, vivenciei uma ang√ļstia e perda de sentido de identidade. Mesmo adulta, mesmo equipada intelectual e emocionalmente, me vi desprovida daquilo que me enraizava na minha exist√™ncia nos √ļltimos 15 anos: falar portugu√™s todos os dias, ter constru√≠do uma exist√™ncia em torno do trabalho liter√°rio como poeta, tradutora e professora, a vida acad√™mica, de alguma forma meu ser estava atrelado a tudo isso, eu vivia uma vida rica de encontros e amizades. Me vi de repente feliz por estar perto da pessoa que amo e que escolhi como companheiro, mas sem a minha l√≠ngua p√ļblica, sem a minha vida p√ļblica, o portugu√™s se tornou novamente uma l√≠ngua dom√©stica, na rua eu falava em ingl√™s, sentia pavor de algu√©m me abordar em island√™s, sentia vergonha por n√£o entender a l√≠ngua local e me sentia √† margem, mesmo logo encontrando amigos e sendo acolhida pela comunidade dos escritores estrangeiros que moram aqui. Eu perdi minha persona p√ļblica e observei que muito daquela constru√ß√£o era uma esp√©cie de amparo, muleta, n√£o era algo falso, mas escondia outros aspectos. Essa vulnerabilidade n√£o foi f√°cil de atravessar, mas me devolveu muitas coisas boas, um sentido mais pleno de mim, me vi desamarrada da minha persona p√ļblica, me vi livre. Mas a liberdade tamb√©m causa vertigem. Acho que eu vivia t√£o identificada com o meu ‚Äúfazer‚ÄĚ no mundo que havia perdido os rastros de algo mais, de alguma outra coisa que tamb√©m era eu e que vivia sem espa√ßo para ser.

Carola: Acho super interessante o que voc√™ diz sobre perder a pessoa p√ļblica que se √©. Me fez lembrar de uma conversa que tive com a minha analista, logo no in√≠cio da an√°lise, eu disse algo como ‚Äúah, mas isso n√£o sou eu, isso √© a persona da escritora‚ÄĚ, e ela respondeu: mas a persona da escritora tamb√©m √© voc√™, n√£o h√° mais como desfazer-se dela‚ÄĚ. E eu carrego essas palavras comigo at√© hoje. Digo isso porque, me parece, a pessoa p√ļblica que a gente √© n√£o √© nossa √ļnica persona, claro, mas ela continua ali, mesmo nos momentos em que silencia, quando caminhamos na rua num pa√≠s estrangeiro, quando falamos um outro idioma, ela continua l√°, √© parte de quem somos. Isso de certa forma me conforta. O que, claro, n√£o diminui a vulnerabilidade, j√° que no fundo, tudo √© persona, tudo √© ilus√£o. Acho lindo o que voc√™ diz sobre essa experi√™ncia de se ver numa l√≠ngua totalmente estrangeira como uma re-experi√™ncia da inf√Ęncia, esse balbuciar que nos marcou. Esse retorno ao real da pr√©-linguagem. Poder olhar com curiosidade e mist√©rio para aquilo que veio antes de n√≥s.

Francesca Cricelli: E eu n√£o havia pensado nisso que voc√™ me trouxe aqui, que claro, a persona p√ļblica tamb√©m somos n√≥s, afinal isso tamb√©m foi e √© uma constru√ß√£o, n√£o √©? Eu acho t√£o gostoso conversar com voc√™, Carola, mesmo que seja por ‚Äúcorrespond√™ncia‚ÄĚ, aqui. Sinto que essa troca mistura uma sensa√ß√£o de estarmos sentadas √† mesa juntas tomando um ch√° e, ao mesmo tempo, √© como se eu estivesse respondendo a uma carta. Eu que amo cartas! Fico pensando nas suas palavras ‚Äúpoder olhar com… mist√©rio para aquilo que veio antes de n√≥s‚ÄĚ nessas √ļltimas semanas que antecedem a cesura que ser√° o nascimento do meu filho, acho que estou observando em sil√™ncio esse porvir enquanto acaricio a barriga e converso com ele. Lembro-me de um livro de Winnicott, no qual ele diz: ‚Äúa m√£e j√° passou pela experi√™ncia do pr√≥prio nascimento, mas o filho ainda n√£o‚ÄĚ. Talvez nem fa√ßa sentido escrever isso, mas me abandonei √† livre associa√ß√£o durante o nosso ch√° por correspond√™ncia.

3.
Carola: Você está terminando (ou já terminou) o seu novo livro, Inventário de ébano, ao mesmo tempo em que aguarda o nascimento do seu filho. A metáfora livro-filho não é nova, mas sempre me interessa, já que cada escritora vive essa relação de forma diferente. Quando eu engravidei, parecia que tudo o que eu tinha escrito era de alguém que nada tinha a ver comigo, eu olhava para os meus livros muito surpresa de que em algum momento eu tivesse escrito aquilo. Como tem sido para você?

Francesca Cricelli: Me lembrei agora que em nosso primeiro encontro conversamos sobre sua filha, sobre a gravidez, sobre a rea√ß√£o dos seus pais. Lembro de uma sensa√ß√£o gostosa te ouvindo, eu pensava ‚Äúser√° que eu vou ser m√£e tamb√©m? olha s√≥, a Carola √© m√£e, escreve, j√° escrevia, continua escrevendo‚Ķ‚ÄĚ, eu acho que andava silenciosamente cortejando meu pr√≥prio desejo de maternidade, mas tinha tanto medo (e desejo) que era dif√≠cil pensar a respeito, n√£o havia espa√ßo para este pensamento. Tenho aprendido, nesses quase dois anos de Isl√Ęndia, que uma parcela desse medo que eu sentia (e receio) era no fundo atrelada √†s quest√Ķes sociais e culturais que comp√Ķem o quadro da maternidade no Brasil, mas n√£o s√≥ no Brasil, em geral nos pa√≠ses da Am√©rica Latina e do sul da Europa, exacerbando ainda mais a divis√£o de classe ‚ÄĒ tenho experimentado por aqui como √© viver numa sociedade menos machista e com maiores garantias sociais, isso, certamente, confere mais espa√ßo de manobra para certos desejos. Ter o mesmo acesso aos cuidados de pr√©-natal e a um parto humanizado √© o denominador comum na Isl√Ęndia, todas as mulheres de todas as classes sociais t√™m acesso a isso ‚ÄĒ que √© o m√≠nimo. Al√©m disso, h√° outros fatores culturais que chamaram minha aten√ß√£o, como, por exemplo, o sentido de comunidade (todos doam roupas de crian√ßas, objetos que j√° n√£o usam mais e em geral n√£o h√° uma ang√ļstia em fazer da gesta√ß√£o e da maternidade mais um parque de divers√Ķes do capitalismo desenfreado), tamb√©m h√° uma rede de apoio p√ļblica, licen√ßa maternidade/paternidade de 12 meses e acesso √† creche a partir dos 6 meses. Terminar Invent√°rio de √©bano, livro que eu vinha escrevendo desde 2016, se tornou uma urg√™ncia com a aproxima√ß√£o do meu √ļltimo trimestre de gravidez. Minha primeira experi√™ncia com a viv√™ncia da m√£e que serei (e j√° estou sendo) √© algo que n√£o cabe ainda em palavras, tenho mais experi√™ncia com livros do que com o que estou vivendo agora. Senti um desejo imenso de ‚Äúdeixar para tr√°s‚ÄĚ o que eu j√° havia escrito, claro que h√° diversos poemas escritos durante minha gesta√ß√£o. Mas senti um chamado profundo pela p√°gina em branco, preciso estar livre da minha pr√≥pria escrita, quero acolher o ineditismo dessa vida em nossas vidas sem palavras pr√©vias ‚ÄĒ que essa chegada seja inclusive uma inaugura√ß√£o de linguagem. Com isso, decidi colocar um ponto final no livro, edit√°-lo, organizar a ‚Äúdramaturgia‚ÄĚ ou ‚Äúarquitetura‚ÄĚ do livro, tirar poemas, acrescentar poemas, orden√°-los. Em paralelo, eu vinha escrevendo um texto mais longo de prosa, √© um livro autoficcional sobre migra√ß√Ķes, inf√Ęncia, linguagem e os lugares ocupados pelas mulheres da minha fam√≠lia (pequena e forte fam√≠lia matriarcal). Ali√°s, preciso dizer que o primeiro incentivador para abra√ßar essa aventura de escrita em prosa foi o Juli√°n Fuks, viajamos a trabalho para uma pequena cidade no interior do estado de S√£o Paulo e conversa vai conversa vem ele me disse: ‚ÄúVoc√™ precisa escrever esse livro‚ÄĚ. Me tornar uma tradutora liter√°ria, uma tradutora de romances, tamb√©m me permitiu soltar a m√£o em rela√ß√£o √† prosa. Mas esse projeto chegou num ponto de estagna√ß√£o, eu precisava de uma pausa, porque h√° algo ainda n√£o vivido ou n√£o conclu√≠do, eu preciso atravessar esse momento e ter alguma dist√Ęncia dele para continuar escrevendo. Achei maravilhoso o que voc√™ disse sobre ler o que voc√™ havia escrito antes de estar gr√°vida e ler novamente durante sua gravidez e n√£o se reconhecer. N√£o sei se senti isso, mas sinto uma urg√™ncia pelo sil√™ncio e pela p√°gina branca, por uma separa√ß√£o dessa escrita que veio antes. O agora ainda n√£o tem forma de escrita, √© tudo t√£o imediato, imenso e corporal, minhas palavras n√£o alcan√ßam e nem quero que alcancem. Eu, que sempre precisei das palavras, que forjei muito da minha exist√™ncia atrav√©s delas, agora desejo a p√°gina branca. Queria marcar esse momento, deixar o Invent√°rio para tr√°s, um livro que √© muito importante para mim, mas preciso deixar espa√ßo para algo maior do que a poesia, algo ainda desconhecido, ou s√≥ conhecido pelos acenos do que tem sido nossa conviv√™ncia nesses quase 9 meses.

Carola: Que bonito. E isso tem a ver, ao menos fa√ßo essa conex√£o agora, com esse retorno da pr√©-linguagem. Ter um filho √© uma experi√™ncia pura do real, num sentido lacaniano, daquilo que n√£o pode ser representado, que foge √† raz√£o e √†s palavras. Me parece que as suas experi√™ncias na Isl√Ęndia est√£o ligadas a esse espa√ßo fora da linguagem, a essa busca pelo mist√©rio, pelo indiz√≠vel. Ter um filho pode ser uma travessia, no meu caso foi, e transformou a minha escrita de uma forma t√£o profunda que at√© agora n√£o sou capaz de explicar. Mas tudo bem, a gente n√£o precisa explicar tudo.

Francesca Cricelli: Pois √©, t√£o bom sentir que n√£o precisamos explicar tudo. √Č engra√ßado como o desejo se inscreve nas brechas. Antes de engravidar escrevi um relato autoficcional em prosa sobre esse desejo (sem ter consci√™ncia que eu estava escrevendo isso), depois, aqui na Isl√Ęndia, escrevi uma s√©rie de poemas falando sobre o processo de fertiliza√ß√£o do figo, das vespas que o fecundam e morrem, perdem as asas. E agora me sinto imersa nesse transe da espera, cada vez mais lenta, dentro da m√ļsica Eu e √°gua, cantada na voz da Maria Beth√Ęnia.

4.
Carola: Transcrevo aqui um trecho do livro Viver entre l√≠nguas, da Sylvia Molloy. √Č uma passagem que me marcou muito quando li (tanto que citei na conversa com a Prisca tamb√©m): Siempre se escribe desde una ausencia: la elecci√≥n de un idioma autom√°ticamente significa el afantasmamiento del otro pero nunca su desaparici√≥n. Ese otro idioma en que el escritor no piensa, dice Roa Bastos, lo piensa a √©l. De que forma esse outro idioma nos pensa? Ser√° esse outro idioma (ou esses outros idiomas) um sujeito adormecido do inconsciente? Que pensa e trama escondido. Ou ser√° esse outro idioma uma possibilidade n√£o vivida, um ‚Äúoutro‚ÄĚ que se mant√©m ali, vivendo sua vida em sil√™ncio.

Francesca Cricelli: Sou apaixonada pela Molloy, inclusive estive no lan√ßamento deste livro precioso, editado pela Relic√°rio, no Instituto Cervantes, em S√£o Paulo, foi uma √©poca de final de tese de doutorado, eu vivia num regime de clausura, mas n√£o resisti, tive que conhecer pessoalmente a autora. Trouxe poucos livros meus para a Isl√Ęndia, mas Viver entre l√≠nguas veio na mala. Gosto muito de pensar nesse outro idioma como uma possibilidade de vida n√£o vivida, ainda que eu escreva poesia em italiano e ingl√™s (agora √© algo sempre mais espor√°dico, normalmente nasce com uma encomenda, com um pedido especial), o portugu√™s domina cada vez mais a cena. Certa vez me perguntei, durante minha an√°lise, o que teria sido da minha vida se eu n√£o tivesse voltado ao Brasil, √†s vezes sentia que teria de toda forma me tornado poeta, escritora e tradutora, mas seria o italiano a l√≠ngua principal, outras vezes sentia que talvez nunca teria me dedicado √† escrita, que teria vivido uma vida feliz, mas mais corriqueira, sem esse atravessamento que se tornou algo central na minha exist√™ncia. Teria sido outra Francesca com o italiano como a minha l√≠ngua do cotidiano, da vida p√ļblica? Acho que sim. Contudo, trouxe a l√≠ngua italiana, a It√°lia, seus embates pol√≠ticos e contradi√ß√Ķes comigo, e essa l√≠ngua continuou ocupando um lugar central na minha vida, mesmo no Brasil. Meu ganha-p√£o sempre foi dar aula de italiano e traduzir e trabalhar como int√©rprete, primariamente entre o italiano e o portugu√™s. Al√©m disso, sempre houve a presen√ßa da poesia e da literatura italiana como algo central na leitura e escrita, meu doutorado caminhou por essas veredas. Sinto, por√©m, que esse interesse foi proporcionado pela dist√Ęncia, pela saudade, pela aus√™ncia ‚ÄĒ exatamente como descreve Molloy. Eu precisava recriar a It√°lia para mim no Brasil, minha forma de fazer isso passava pela tradu√ß√£o, pela leitura, pela escrita. Sinto que agora que vivo na Isl√Ęndia se acrescenta a essa aus√™ncia o Brasil, que √© sempre uma presen√ßa, mas que preciso, de alguma forma, recriar todos os dias atrav√©s da l√≠ngua, das tradu√ß√Ķes, da m√ļsica. A l√≠ngua inglesa, por exemplo, ficou adormecida por um bom tempo dentro de mim. Foi a minha l√≠ngua principal dos 11 aos 18 anos, quando morava na Mal√°sia, foi um grande esfor√ßo ter um dom√≠nio t√£o avan√ßado e depois conseguir desconstruir as amarras sint√°ticas para voltar √† flu√™ncia no italiano e no portugu√™s. Quando terminei o col√©gio, enquanto todos os meus colegas (mesmo os que n√£o eram nativos em ingl√™s) decidiam seguir seus estudos na Inglaterra ou nos Estados Unidos, eu vivia uma recusa e uma resist√™ncia em seguir vivendo naquela l√≠ngua. Vivia um terror de que o portugu√™s e o italiano se tornassem minhas l√≠nguas ‚Äúde heran√ßa‚ÄĚ, tinha uma sensa√ß√£o intensa de perder meus contornos ‚ÄĒ como diz Ferrante em seus livros, passar por uma smarginatura, ou como foi traduzido de forma brilhante pelo Maur√≠cio Santana Dias (meu orientador de doutorado!): ‚Äúdesmargina√ß√£o‚ÄĚ. Minha experi√™ncia com a linguagem percorre um caminho inverso, eu tinha tudo para me jogar plenamente nessa experi√™ncia com uma terceira l√≠ngua, mas recusei. Decidi dar alguns passos atr√°s e procurar algo que eu nem mesmo sabia o que era, no meu passado, na minha hist√≥ria, e me reapropriar desses elementos perdidos. Depois, decidi escrever a partir desse lugar. E como voc√™ sente isso agora que est√° na Alemanha, quais s√£o ‚Äúas outras l√≠nguas‚ÄĚ e de que forma est√£o te habitando? Fiquei curiosa, pensando se h√° algo disso nas reflex√Ķes de O mundo desdobr√°vel ‚ÄĒ ali√°s, n√£o vejo a hora de ler!

Carola: Acho superinteressante o que voc√™ diz, o medo de perder uma l√≠ngua, eu sempre tive muito medo disso. Especialmente o portugu√™s, eu suportaria perder qualquer outra l√≠ngua, menos o portugu√™s. Algo que s√≥ me dei conta h√° pouco tempo. √Č que o portugu√™s foi pra mim uma esp√©cie de ‚Äút√°bua de salva√ß√£o‚ÄĚ, o idioma que me deu um lugar no mundo. Onde eu constru√≠ coisas muito concretas. Uma casa, um ch√£o onde pisar… E essa ‚Äúconstru√ß√£o‚ÄĚ √© algo meu, n√£o desaparece porque estou na Alemanha. Mas foi um longo caminho, de certa forma a literatura me deu isso, essa casa que eu transporto para onde for. A literatura me salvou de tantas formas.

Francesca Cricelli: √Č uma imagem linda, te vejo caracol e marujo com a l√≠ngua-casa por todos os cantos e os rastros-livros com os quais voc√™ nos presenteia, ajudando a encontrarmos nossa pr√≥pria casa.

5.
Carola: Você trabalha bastante com o gênero epistolar. Eu amei o seu texto Carta a Hanna Paulsson. Como tudo o que você escreve é lindo, intenso e poético. E tem um ritmo raro, às vezes dá falta de ar, como se tua escrita nos obrigasse a reaprender a respirar. Mas quero falar do gênero. Quando escrevi Flores azuis, que é de certa forma um romance epistolar, pensava no quanto a estrutura da carta permite certos mergulhos que outros gêneros não abarcariam, algo que se move entre o mais íntimo e o mais exterior, a imagem (de Alice) no espelho. E também a possibilidade de retomar a ideia da mensagem numa garrafa, para todos e para ninguém.

Francesca Cricelli: Eu adoro Flores azuis, assim como os seus outros livros. Foi o √ļltimo que li, embora seja dos mais antigos seus. Li justamente na √©poca do doutorado, minha tese seguiu a descoberta de cartas de amor de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco, at√© ent√£o in√©ditas, nessa √©poca me cerquei tamb√©m de romances epistolares, al√©m das leituras te√≥ricas, pois sentia que havia algo al√©m do biogr√°fico nas cartas, havia algo de ficcional, havia uma ficcionaliza√ß√£o do biogr√°fico, e sentia que a leitura de textos liter√°rios de fic√ß√£o ‚ÄĒ para al√©m de outros comp√™ndios epistolares ‚ÄĒ pudessem iluminar essa quest√£o. Fico feliz que voc√™ tenha gostado da ‚ÄúCarta a Hanna Paulsson‚ÄĚ, gostaria de escrever outras cartas assim, vamos ver se darei conta. Eu sempre tive um imenso fasc√≠nio pelas missivas e n√£o sei bem como isso nasceu. Quando era crian√ßa, sempre escrevia bilhetes para os meus pais, ambos trabalhavam muito e eu os via pouco, deixava-os escondidos nos bolsos, nas bolsas, nos casacos. Eles os encontravam em algum momento e no final do bilhete havia sempre alguma pergunta com a possibilidade de escolherem Sim ou N√£o como resposta. Relembrando, fico pensando se j√° n√£o era um gesto para aproximar a dist√Ęncia, como s√£o as cartas, ou uma forma de me expressar para entender o que eu sentia. Acho que a carta tem esse fasc√≠nio por poder ser uma escrita em primeira pessoa, mesmo dentro de um romance, de um texto ficcional, e ter um endere√ßamento (que seja para todos, para ningu√©m ou para algu√©m em espec√≠fico). Fiquei pensando agora na breve carta que Cesare Pavese deixou quando se suicidou. Um gesto √≠ntimo, sim, mas tamb√©m, em alguns casos, uma escrita j√° pensada para outros leitores, para al√©m do leitor a quem √© endere√ßada. Pavese foi n√£o s√≥ um grande escritor, poeta e editor, mas tamb√©m um ex√≠mio escritor de cartas, amo suas missivas, tenho traduzido algumas e vejo nelas um gesto tamb√©m de se revelar para um p√ļblico maior. O mesmo ocorre nas cartas de Ungaretti a Bruna, claro que s√£o cartas √≠ntimas dentro de uma rela√ß√£o amorosa, mas havia na escrita do poeta toda uma inten√ß√£o de discutir sua ideia sobre o que √© poesia e a carta, a conversa √≠ntima, era algo que auxiliava a organiza√ß√£o das suas ideias. Sinto que a troca epistolar pressup√Ķe n√£o s√≥ uma leitura, mas uma escuta. Nesse sentido, novamente, me faz pensar nesse hiato que existe entre o que √© escrito e o que √© compreendido, assim como o que √© dito e o que √© compreendido, por exemplo, num encontro psicanal√≠tico: nesse caso, sempre me vem a met√°fora de que os analisandos escrevem longas cartas e recebem de volta um postal do analista, uma imagem, poucas palavras. Uma das ep√≠grafes da minha tese de doutorado foi ‚ÄúSustento ao infinito, para o ausente, o discurso de sua aus√™ncia‚ÄĚ, um trecho de Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes. H√° algo de carta num livro, uma carta talvez atirada ao mar, n√£o sabemos quem ser√° o leitor e quando isso acontecer√°, com a poesia √© algo ainda mais radical, pois o tempo de recep√ß√£o de um livro √© bem diferente.

Carola: Sim, h√° sempre esse ‚Äúoutro‚ÄĚ a quem endere√ßamos nossas palavras (escritas ou faladas). Voc√™ cita a carta de suic√≠dio de Pavese. Por que ser√° que temos essa necessidade? Antes eu achava que era uma necessidade ligada √† perman√™ncia, algo que permane√ßa, mas hoje suspeito que n√£o √© isso. Talvez as palavras jogadas ao vento, a carta de suic√≠dio ou a mensagem na garrafa estejam mais ligadas a um atravessamento da alma, algo capaz de nos marcar e, quem sabe, de alguma forma, nos ajude a decifrar o enigma que √© estar aqui, mesmo que brevemente, essa luz que se acende.

Francesca Cricelli: Palavra-gesto, a carta. Acho que nesse endere√ßamento h√° sempre um desejo de um olhar, de uma escuta, nem sempre isso √© s√≥ narcisismo, mas um desejo de acolhimento, reconhecimento especular, nossa exist√™ncia atrav√©s da leitura do outro. Quem sabe…. ai, est√° t√£o boa essa conversa contigo!

6.
Carola: Deixo aqui um poema da Ana Martins Marques.

Sereia

Sereia
centauro
com sal

melhor é tua metade
animal

a parte humana sendo humana
sempre mente

só mesmo um peixe pode ser
contente

de nada te serviriam
joelhos ou pés

o que és é também
o que não és

nada
é o que fazes bem

metade do que sou
não sou também

Francesca Cricelli: Que lindo esse poema da Ana, ao rel√™-lo, pensei no conto, do Kafka, O sil√™ncio das sereias, e em Qu√¶stio de Centauris, do Primo Levi. S√£o dois dos meus contos favoritos, j√° os usei muito em sala de aula, acho que s√£o dois contos para os quais volto com frequ√™ncia. Levi se identificava muito com esse conto. N√≥s, que vivemos entre l√≠nguas, entre mundos, que tentamos encontrar nosso lugar na escrita, num ‚Äúentre‚ÄĚ, temos algo desses seres que conjugam o humano e o mundo animal, mas isso talvez seja verdade para todos os solit√°rios que regam sua imagina√ß√£o com palavras. Deixo aqui para voc√™ um poema da poeta Corina Oprae, ela √© romena mas h√° muitos anos mora em Barcelona, escreve em catal√£o e espanhol, √© tamb√©m tradutora liter√°ria, e autotraduz sua obra para o romeno. A tradu√ß√£o √© minha.

La meva llengua és la teva llengua.
La teva llengua és la meva llengua.
I no és que sigui un bescanvi. 

√Čs que si no faig de la llengua d‚Äôaltri la meva llengua,
m’esclaten magranes de vidre dins la boca.
No només temo la meva ferida.
També penso en la teva.

***

Minha língua é tua língua.
Tua língua é minha língua.
E não é que seja uma troca. 

√Č que se n√£o fa√ßo da l√≠ngua dos outros minha l√≠ngua,
explodem granadas de vidro na minha boca.
N√£o temo somente minha ferida.
Também penso na tua.

Carola: Que lindo. Pensei nessa l√≠ngua que nunca √© nossa, a l√≠ngua √© sempre a dos outros, dos que vieram antes de n√≥s, dos seus desejos, das suas a√ß√Ķes. Como diz a psican√°lise, em n√≥s fala um outro.

Francesca Cricelli
√Č poeta e tradutora, doutora em Literaturas Estrangeiras e Tradu√ß√£o pela USP. Publicou os livros ‚ÄúRepatria‚ÄĚ (2015), ‚Äú16 poemas + 1‚ÄĚ (2017), ‚ÄúAs curvas negras da terra‚ÄĚ (2019) e ‚ÄúErr√Ęncia‚ÄĚ (2019). Traduziu para o portugu√™s livros de Elena Ferrante, Igiaba Scego, Jhumpa Lahiri, Claudia Durastanti, entre outros. Atualmente, vive em Reykjavik (Isl√Ęndia).
Carola Saavedra

√Č autora, entre outros, dos romances¬†Flores azuis¬†(eleito melhor romance pela Associa√ß√£o Paulista dos Cr√≠ticos de Arte), Paisagem com dromed√°rio¬†(Pr√™mio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor), O invent√°rio das coisas ausentes e Com armas sonolentas. Seus livros foram traduzidos para o ingl√™s, franc√™s, espanhol e alem√£o. Est√° entre os 20 melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta. Desde 2019, √© professora e pesquisadora na Universidade de Col√īnia.

Rascunho