🔓 Ana Paula Tavares

Ensaio fotográfico da cronista e poeta angolana Ana Paula Tavares
Foto: Ozias Filho
28/05/2021

O que me dizem os seus olhos? Quando os vejo, serenos à flor da vista, imagino-os revoltosos por dentro, numa briga constante, como se pelo menos por uma vez os olhos não fossem espelhos de alma alguma, e ao mesmo tempo todas elas em uníssono. Como se o que visse e o que de fato existisse, por dentro, fossem dois espelhos que se renegam como ímã de polos iguais quando os tentamos aproximar: quase se tocam, mas que igualmente se repelem. É neste hiato, que está presente, que sinto que há um algo mais, invisível aos olhos.

O que me dizem os seus olhos, apesar de sentir que a conheço de muito longe, de uma qualquer querida personagem que passeava pela porta sempre aberta lá de casa, é que a sua poesia, que me enreda (e quem diz poesia diz desta trama prosaica que também é sinônimo de poesia), diz-me sempre algo que não consigo capturar, faça as leituras que fizer, registre com a minha máquina fotográfica os instantâneos que se me proporcionarem. Todas estas leituras serão incompletas.

Todas estas sensibilidades versarão sobre mistérios que, quando muito, as poderei imaginar em quebra-cabeças infindáveis próximos aos meus, de uma terra distante onde o cheiro da chuva por sobre a terra seca se assemelha, mesmo que a sua Huíla e o meu Rio de Janeiro estejam distantes e diversos.

O que me dizem os seus olhos talvez mais não sejam do que uma ancestralidade que, por mais que a queiramos libertá-la de dentro de nós, é tarefa inglória. O que vejo, Ana Paula Tavares, é o pertinente dilema da incapacidade da palavra de alcançar tudo o que nos vai no código genético sentimental, e a beleza reside neste retrato que nunca será traduzido de forma completa.

Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho
Ana Paula Tavares
Poeta, cronista, historiadora e professora, nasceu em Lubango, província da Huíla, Angola. É doutora em Antropologia da História, mestre em Literatura Brasileira e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e bacharel e licenciada em História. É professora convidada na Universidade de Lisboa, Portugal. É autora de vasta obra literária em prosa e poesia e de textos científicos. Está publicada em antologias da Galícia (Espanha), Itália, França, Brasil e Portugal. No Brasil, publicou a antologia de poemas Amargos como os frutos (Pallas) e a coletânea de crônicas Um rio preso nas mãos (Kapulana).
Ozias Filho

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1962. É poeta, fotógrafo, jornalista e editor. Autor de Poemas do dilúvioInsularesPáginas despidas O relógio avariado de Deus. Como fotógrafo tem vários livros publicados e integrou a iniciativa Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-americana da Cultura 2017. Publicou em 2022 o seu primeiro livro infantil Confinados (com ilustrações de Nuno Azevedo). Vive em Portugal desde 1991.

Rascunho