šŸ”“ A linguagem estĆ” em crise?

Assistimos ao empobrecimento da linguagem escrita, à redução do vocabulÔrio, à implantação da interpretação literal, à supremacia do debate sobre o diÔlogo
Ilustração: Eduardo Souza
13/09/2021

 * O autor escreve segundo o acordo ortogrÔfico e a norma angolana da língua portuguesa, em formação.

O meu ā€œnegócioā€ sĆ£o as palavras. Mas, ao contrĆ”rio da experiĆŖncia da brasileira Conceição Evaristo, que ela mesma contou em recente entrevista a um programa televisivo local, eu nasci rodeado de palavras escritas, o que talvez contrarie certas ideias romĆ¢nticas, para nĆ£o lhes chamar estereótipos, relativos a Ɓfrica e aos africanos. Filho de um casal da classe mĆ©dia baixa urbana, com todos os limites desse conceito num contexto colonial como aquele em que nasci, cresci rodeado de jornais, revistas e livros. A escola apenas reforƧou isso. O meu temperamento tambĆ©m ajudou, pois nunca fui nem sou, digamos assim, muito ā€œoralā€. Por forƧa de vĆ”rios ofĆ­cios que tive ao longo da vida, aprendi a falar em pĆŗblico, mas ainda hoje tenho verdadeiro pavor quando me pedem que diga ā€œumas palavrinhasā€ no aniversĆ”rio de um familiar ou amigo qualquer.

Sempre preferi, pois, ler e escrever. A chamada oralidade africana captei-a nas conversas que ouvia em casa – felizmente, pertenƧo a uma famĆ­lia vasta, cheia de misturas de cores, tipo de educação, experiĆŖncias e nĆ­veis sociais –, na rua e, por estranho que pareƧa, nas minhas primeiras leituras, nomeadamente da poesia de Viriato da Cruz, António Jacinto e outros, bem como das narrativas de Arnaldo Santos, BenĆŗdia e Luandino Vieira. Outra nota imperiosa: essa oralidade nĆ£o constituĆ­a uma rĆ©plica fiel da tradição lĆ­rica do mato (campo), mas correspondia – isso, sim – Ć  sua reprodução urbana, articulada e desarticulada com o portuguĆŖs falado na cidade de Luanda, onde nasci e cresci.

A oralidade sempre foi para mim uma forma de interação social e, a partir do momento em que comecei a escrever, uma espĆ©cie de ā€œmaterial literĆ”rioā€. Tenho poucas ou nenhumas dĆŗvidas de que a escrita foi um avanƧo civilizacional decisivo. Melhor, tinha, atĆ© recentemente. Nos Ćŗltimos quarenta anos, comeƧƔmos a assistir a uma evidente degradação da linguagem escrita, primeiro com o advento da televisĆ£o e do vĆ­deo, que foram assumindo o ā€œmonopólio da falaā€, como ensinou Muniz SodrĆ© (afinal, o ā€œvĆ­deoā€ estĆ” em todo o lado, dos aparelhos de TV aos computadores, smartphones, painĆ©is publicitĆ”rios e tutti quanti), e depois pela crescente implantação da linguagem digital, deliberadamente assente em processos binĆ”rios, limitados por definição. Por conseguinte, tenho cada vez mais dĆŗvidas sobre as virtualidades prospetivas da linguagem.

Como poderemos, nos dias de hoje, formular e expressar os sonhos de construção, invenção e redenção que sempre moveram os seres humanos, ao longo da sua história? HĆ” quarenta anos, na sequĆŖncia da crise da modernidade clĆ”ssica, da ocorrĆŖncia da revolução nos transportes e nas tecnologias de comunicação e do advento da globalização, pensĆ”mos ser possĆ­vel expandir ao mĆ”ximo as possibilidades da linguagem. Do pós-modernismo Ć  desconstrução, aos jogos de linguagem, ao pós-colonialismo, Ć s novas teorias de gĆ©nero e outras, pensĆ”mos ser possĆ­vel regenerar a humanidade simplesmente trazendo Ć  cena todos os anteriores excluĆ­dos. No plano da literatura, esta seria, acreditĆ”vamos, cada vez mais criativa e ā€œdesenvolvidaā€, o que se via ā€œnas tramas e estruturas cada vez mais complexasā€.

Salvo um ou outro caso isolado, nada disso aconteceu em geral. Pelo contrĆ”rio, a tendĆŖncia que se tornou predominante Ć© – digo-o sem receio – assustadora: como consequĆŖncia da crescente colonização por parte do vĆ­deo e da linguagem digital, assistimos a um predomĆ­nio da cultura do entretenimento, ao empobrecimento da linguagem escrita, Ć  redução do vocabulĆ”rio, Ć  implantação da interpretação literal, ao advento do pensamento binĆ”rio e Ć  supremacia do debate em detrimento do diĆ”logo. Assim, subtilezas linguĆ­sticas, trocadilhos e outros procedimentos sĆ£o incompreendidos. O humor e a ironia estĆ£o cada vez mais sob suspeita. Autores de best sellers, cada vez mais confundidos com influenciadores digitais e ā€œcelebridadesā€, esnobam (gosto deste verbo inventado pelos brasileiros) daqueles que, parafraseando o grande pintor riograndense IberĆŖ Camargo, escrevem ā€œporque o mundo dóiā€. Quanto aos autores ā€œinovadoresā€, o mercado absorve apenas os que lhes convĆŖm.

Lamento informar que, de um modo geral, e havendo uma guerra óbvia por espaƧos (ā€œlugares de falaā€, ā€œdivulgaçãoā€, ā€œmercadosā€), todos os atores podem eventualmente ser contaminados por tais males. Por um lado, aqueles que dominaram o mundo pelo menos nos Ćŗltimos quinhentos anos, assustados com a possibilidade de emergĆŖncia dos excluĆ­dos apostados em reescrever a história, cerram fileiras em torno de ideologias e projetos supremacistas e protofascistas; por outro, os excluĆ­dos e marginalizados, desejosos de ocupar os espaƧos a que, como indivĆ­duos, tĆŖm direito, caem por vezes na tentação de mimetizar as prĆ”ticas dos dominadores, enfraquecendo, portanto, as suas próprias lutas (por exemplo, defender, com justeza, a necessidade de dar voz a autores e temas homossexuais e discriminar autores e temas heterossexuais devido Ć  sua tonalidade… heterossexual, como se os escritos homossexuais ou quaisquer outros nĆ£o tivessem tambĆ©m uma tonalidade própria; a androginia tem, naturalmente, direito ao seu espaƧo, mas nem toda a linguagem tem de ser andrógina).

Ou seja: concordo, absoluta e radicalmente, que as palavras precisam de reinventar-se e tornar-se mais inclusivas, mas sem se tornarem vazias, perdendo a sua capacidade de comunicação, e, muito menos, sem cederem a quaisquer tentaƧƵes excludentes, talvez de sinal contrĆ”rio, como muitas vezes parece acontecer. Exagero? Atente-se, entĆ£o, para a seguinte notĆ­cia: no CanadĆ”, 150 tĆ­tulos, entre eles Ć”lbuns de Tintin, foram retirados das escolas, por serem considerados ā€œdiscriminatóriosā€; uma responsĆ”vel por um conselho escolar católico, que defende um paĆ­s ā€œmais inclusivoā€, defendeu a queima de livros perigosos, a fim de ā€œenterrar as cinzas do racismo e dos preconceitosā€.

Ɖ indubitĆ”vel que a luta contra a segregação, em todas as suas formas e manifestaƧƵes, implica pĆ“r em causa as estruturas que estĆ£o por detrĆ”s da mesma, mas Ć© preciso ir mais longe e ultrapassar a ideologia (supremacista e excludente) em que tais estruturas radicam. A atual crise da linguagem talvez seja a expressĆ£o da crise de representação da humanidade, a braƧos com o confronto entre aqueles que querem redimir os seus pecados do passado e aqueles que os querem manter ou – o que darĆ” no mesmo – reproduzir.

João Melo

Nasceu em Luanda (Angola), em 1955. Ɖ escritor e jornalista. Morou no Brasil de 1984 a 1992 como correspondente de imprensa. Tem mais de 20 livros publicados, entre poesia, conto e ensaios, em Angola, Portugal, ItĆ”lia, Cuba e Brasil, onde publicou a coletĆ¢nea de contos Filhos da PĆ”tria (Record, 2008). Pode ser acompanhado no Twitter e no Instagram.

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